Que gozem!

Mania de levar tudo pro lado maldoso/sexual da coisa,  tsc tsc tsc… (eu diria até o lado booooom da coisa, mas, enfim…)

Ainda agora eu senti o chão tremer. Não vou mentir, a primeira coisa que pensei foi: “tem gente transando”. Mas aí o chão parou de tremer, e nem a mais rápida das rapidinhas poderia ser tão ligeira. Imediatamente me reprimi por deixar, mais uma vez, meus pensamentos terminarem em sexo.

Minutos depois, além do chão tremendo, parecia que alguém estava pregando um quadro na parede. Caramba, mas são 3h da manhã, ninguém faria isso a essa hora!

Fui para a janela e… bingo! Meus vizinhos de baixo estavam transando, loucamente, diga-se passagem. E ainda estão.  Tudo por aqui continua tremendo enquanto escrevo, ao som de gemidos e “marteladas”.

Aquela pequena pausa deve ter sido um breve espaço de tempo entre o ensaio e o espetáculo, que já dura mais de duas horas. Uau, meu vizinho não é fraco, não!

Acho que gozaram, lá pela enésima vez. A verdade é que eu esqueci de contar, e se não fosse pela ausência de cálculos, estaria me sentindo agora a própria Amélie Poulain.

Depois de tanto tempo escutando essa sinfonia harmônica é inevitável pensar na minha personagem favorita do cinema. Um dos prazeres de Amélie era esse: escutar os orgasmos vizinhos, e ela não só escutava como contava todos, um por um.

Um modo de passar o tempo que muita gente pode julgar obsceno. Eu considero divertido. Obsceno é diminuir o volume da tevê para escutar a briga dos vizinhos ao lado. Coisa que eu já fiz, e não me orgulho nem um pouco disso.

Mas e aí? Qual é a graça de ver ou ouvir gente brigando por aí? Que os brigões fiquem longe de mim. Mas se tiverem que transar por perto, tudo bem, eu não me importo.

Ficar ouvindo briga de casal é quase como ver uma ambulância socorrendo feridos na estrada e parar o carro só para olhar os acidentados. Vai ajudar? Não! Então, muito ajuda quem pouco atrapalha. Não foram poucas as vezes que enfrentei engarrafamentos quilométricos por conta dos curiosos que empacam o trânsito só para testemunharem a dor dos outros. Tenho vontade de passar por eles e perguntar: “e aí, foi bom para vocês?”

Tenho um palpite: acho que esses sujeitos são os mesmos que interfonam para reclamar com os vizinhos que trepam de madrugada, ou fazem queixa para o síndico, incomodamos com os efeitos sonoros das trepadas alheias. Pra mim isso é um baita atestado de uma vida sexual ruim, ou pior: inexistente.

É claro que existem casos e casos e, se o casal se excede na empolgação, vale dar um toque, mas não é o caso dos meus vizinhos de baixo. Eu só posso ouví-los tão bem porque estou insone, com a janela de cima aberta (a real e a virtual) e também porque desliguei as caixinhas de som do computador, que tocavam Norah Jones, mas achei que a trilha sonora não combinava muito com a ocasião.

Casais transando existem aos montes por aí, nesse exato momento vários devem estar fazendo o mesmo exercício que os meus vizinhos de baixo. Brigando idem. Muitos devem estar caindo no tapa agora. O que é preferível? Saber que duas pessoas estão se desfazendo em lágrimas e ofensas ou se acabando de tanto prazer?

Eu, assim como Amélie Poulain, prefiro ser testemunha de orgasmos… eles que, inegável e indiscutivelmente, são a excelência em gozar a vida.

Roberta Simoni