Alô, Palolito?

20140305-115543.jpgVô, amanhã faz 5 meses que você foi dessa para melhor, cantou para subir, empacotou, foi ter com as estrelas. Ainda choro semanalmente. Mas é da minha avó a maior cota de lágrimas. Justo! Afinal, foram 56 anos de casados. Ela anda tinhosa e melancólica sem você por aqui. Mas vamos levando. E ela, por enquanto, vai sendo levada pela saudade que sente de você.

Esses dias eu fui ao Patronato para entregar uns documentos seus que precisavam ser enviados para a Itália. Só quando eu estava chegando lá é que me toquei de que eu tinha a sua certidão de óbito nas mãos. Chorei feito criança perdida no meio da rua.

Uma amiga me ensinou que a consciência da morte vem em ondas como o mar. Tipo aquela música, sabe? Ela tem razão. A ficha vai caindo aos poucos mesmo.

Você precisava ter visto o seu velório, vô! De todos os caixões que já vi na vida, o seu foi o mais sofrível. Culpa do auxílio funeral furreca que você escolheu pagar. A única coroa de flores que tinha na sua capela era feita de flores de plástico. Eu estava quase ficando chateada quando te vi dentro daquela caixa que, se não era de papelão, era feita de alguma coisa parecida, muito frágil, coberta de papel madeira, quando me dei conta de que, em vida, se você pudesse ter escolhido todos os detalhes do seu funeral, não teria feito nada diferente. Meu velho pão duro!

Pão duro e bonito. Você foi o morto mais lindo que eu já vi. Juro! Com seus 87 anos, a cabeça grisalha, ainda repleta de cabelos, a pele branquinha, com poucas manchas, as sobrancelhas perfeitas e aquele seu nariz lindo de galã dos anos 60 de pôr inveja em muito vivo por aí.

Você ficaria surpreso de ver quantas pessoas compareceram ao seu ritual de despedida que, cá pra nós, foi tão macabro quanto qualquer outro. Aquelas horas intermináveis velando seu corpo para, no fim, te ver entrando numa cova.

Voce viu quanta gente chorou por você? Bom, se você chegou a aparecer por lá, aposto que foi embora cedo, cansado e entediado. Eventos sociais nunca foram o seu forte. Nem o meu.

Aliás, não sei se você sabe, mas é carnaval aqui embaixo. E quando eu digo “embaixo”, não é só porque eu gosto da ideia infantil de que você está no céu, ou em qualquer lugar acima desse aqui, de onde estou te escrevendo, mas também – e principalmente – porque aqui tá cada vez mais baixo, quente e parecido com o que dizem sobre o inferno.

Esse ano, como de praxe, eu tentei fugir da cidade durante o carnaval. Teria fugido do planeta se pudesse. Mas, na impossibilidade de fuga, fui obrigada a andar pela minha cidade desviando dos montes de lixos e baratas que tomaram conta das ruas. Os garis entraram em greve num momento bastante apropriado. Achei mais do que digno. Mas, como sempre, vai acabar em samba.

Ontem tinha um rapaz comendo uma menina aqui na rua de casa. Você se envergonharia dessa geração. Não só porque a garotada chegou ao ponto de trepar no portão da casa dos outros, mas porque, além de tudo, ele, brocha depois de tantas cervejas, não conseguia nem sequer comer a menina. Só enfiava a mão nela que, de tão bêbada, tentava se equilibrar e levantar a cabeça para não vomitar em cima dele. Imagine você, que se manteve viril, tentando arduamente dar um trato na vó até o último segundo, se prestando a um papelão desses? Não sei se senti mais vergonha por ela ou por ele que, diante da plateia, não conseguiu nem dar no couro. Uma lástima, vô!

Lembra daquilo que eu falava sobre o carnaval e você ria? Então, me diz se eu não estava certa? O que não é o carnaval senão um monte de zumbis fantasiados pelas ruas? Aquele monte de gente anencefálica andando trôpega por aí tentando comer gente. Eu disse tentando.

Roubaram a minha bicicleta hoje. Aquela que eu suei para pagar, lembra? Não, não… não fizeram nada comigo. Eu nem vi a cara do ladrão. Eu estava dentro de casa, e a bicicleta, na minha porta, dentro do condomínio “tranquilo e seguro” onde estou morando. Tranquilo e seguro, vô! Entende? Não existe mais lugar assim no mundo.

Desculpa, mas no momento, não tenho disposição alguma para vestir a minha fantasia de feliz, especialmente no carnaval, que seria todo ano igual se não estivesse pior a cada ano. Também não consigo achar motivos para comemorar coisa alguma agora. Acabo de perceber, inclusive, que não escolhi o melhor dia, tampouco, meu melhor humor, para te escrever. Mas eu precisava te escrever, já adiei demais.

Afora o mundo que parece já ter acabado e ninguém se deu conta, venho travando minhas lutas íntimas que, você sabe, não têm sido poucas nem pequenas. Ao menos, me sinto mais resignada e menos reclamona do que de costume. Estaria eu, finalmente amadurecendo?

Seu bisneto ainda nem completou 3 anos e já fala pelos cotovelos. Tá levado de doer! Ontem eu o vi se estabacando no chão, levantando sozinho e dizendo: “Opa! Caí de maduro!”. Agora, veja você…

É mais ou menos assim que tô me sentindo nessa fase. Caindo de madura. Vendo o mundo com os olhos cansados e caminhando com dificuldade. Só que, pela lógica da vida (se é que ela tem alguma), eu ainda tenho muitos anos e muitos passos pela frente. Preciso encontrar disposição para continuar andando. Aceito sugestões, mas vou fingir que não estou te ouvindo se você também me sugerir entrar para uma academia, combinado? Você sabe muito bem que não é disso que estamos falando aqui. Então não me provoque!

Dia desses, uma de suas sobrinhas italianas me encontrou por essas bandas da internet. Queria saber de você. Como não fui uma boa aluna e enriqueci muito pouco meu vocabulário italiano enquanto podia aprender com você, não encontrei outra maneira de dar a notícia da sua morte senão de forma direta, com as poucas palavras que sei usar: “Scusa, il nonno è morto”.

Ela deve ter me achado uma desalmada mas, você sabe, eu sou só uma ignorante.

Quando precisei dar essa notícia, meses depois da sua morte, foi só mais uma onda. Quando tive que levar seus documentos até o Patronato, outra onda. Agora, enquanto te escrevo, outra. Às vezes, levo uns caixotes quando a onda é muito grande, mas vou sobrevivendo à saudade que sinto de você.

Quando – e se – você puder, mande notícias suas. E caso você tenha a oportunidade de voltar pra cá, por favor, pense bem. Eu não faria isso se fosse você!

Com todo meu amor, receba o meu beijo mais saudoso. Sua neta,

Roberta Simoni

Anúncios

Sobre carnaval, zumbis e cinema mudo.

George Valentin interpretando por Jean Dujardin em "O Artista"

Eu pensei que não fosse querer escrever sobre o carnaval dessa vez, na verdade, eu estava resistindo, mas, como bem a Liah previu, depois de uma publicação aborrecida minha no twitter: “isso vai acabar virando um post daqueles…”

Por que eu resisti até agora? Bom, para começar eu escrevo sobre o carnaval para um site carioca, para piorar eu estou trabalhando no carnaval, fazendo a cobertura fotográfica para uma marca de grande circulação e, para terminar, tudo o que eu tenho para dizer é basicamente… ruim. Ponto.

Eu não estaria saindo às ruas se não fosse para garantir o meu ganha pão. Outro ponto. Mesmo assim, estou saindo todos os dias, fazendo o meu trabalho direitinho, como manda o figurino, sorrindo e fazendo pose de feliz… ok, feliz é exagero, mas tô bancando a resignada simpática. Uma perfeita atriz, profissão que eu pensaria em investir se mamãe não tivesse me dito – e eu não tivesse acreditado – que se eu virasse atriz, a Literatura teria muito a perder. A culpa é sempre das mães.

O problema não está no trabalho em si, que gosto de fazer, o drama está no trajeto, especialmente no percurso que faço do trabalho até à minha casa, que é curtíssimo, mas eu juro que parece mil vezes mais longo do que a trilha de vinte e tantos quilômetros que encarei em Ilha Grande, subindo e descendo morro debaixo de sol do meio-dia. É que lá na trilha não tinha gente bêbada, suada, se imprensando, me puxando… em suma: não tinha nada parecido com zumbi por lá.

Vou contar um segredo: eu tenho medo de zumbis. Não assisto filmes nem leio livros onde eles apareçam. E não adianta me dizer que eles não existem, o carnaval tá aí para provar que existem, sim!

Agora eu entendo por que tenho ficado tão apavorada quando saio à rua nesses dias. Eu olho para aquela multidão e tudo o que vejo são zumbis semi-nus e coloridos, cambaleando zonzos, anencefálicos e com um objetivo em comum: comer gente.

Nos outros anos, para fugir da realidade, eu me fantasiava de qualquer coisa e me misturava – sem me misturar tanto – no meio deles. Esse ano, não. Não dá para ficar fugindo para sempre de quem se é, ou de quem se está sendo. E eu estou sendo essa pessoa irritadiça e nada espirituosa. Hoje, um zumbi, digo… um folião passou por mim e disse: “Nossa! Você ficou linda nessa fantasia de séria!”. Isso me fez pensar em como é mais fácil e divertido enxergar máscara onde só se tem um rosto de verdade para ver.

E lá fui eu, com a minha “fantasia” de séria, no meu horário de folga, me esconder dentro de uma sala de cinema. E, quer saber? Foi o melhor momento do meu carnaval. Dentro do cinema o silêncio era absoluto, vocês nem acreditariam se eu dissesse que a sessão lotou e que, mesmo assim, eu só conseguia ouvir o som irritante dos meus dentes triturando a pipoca. Tudo bem que a única que não tinha a cabeça branca naquela sala era eu, mas e daí?

Fui assistir “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius, que foi, na verdade, uma experiência cinematográfica da qual eu já deveria ter vivido há muito tempo: assistir um filme mudo, em preto e branco, diante de uma telona de cinema, comendo pipoca e, à certa altura, embaçando a vista de emoção. E que filme, gente! Que filme! Assistam!

É um filme simples, onde os recursos estão em abrir mão dos recursos, provando que precisa-se de muito pouco para se contar uma história, contanto que a história seja boa e bom contada. Em tempos onde se faz um carnaval com tudo e tudo vira carnaval, dentro e fora das telas, esse filme é um presente incrível.

Saí do cinema desejando que o mundo aqui fora estivesse, pelo menos por mais alguns minutos, como estava lá dentro: mudo e cheio de magia e encanto…

Para quem quiser ver a crítica do filme, achei essa daqui bem boa!

Roberta Simoni

Em dias de fantasia

É verdade que às vezes eu me tranco num casulo de preocupações e aborrecimentos, esqueço da minha promessa de carnaval e visto a fantasia da realidade involuntariamente.

É verdade que grandes mudanças estão para acontecer. É verdade que eu preciso tomar decisões difíceis.

E a verdade maior de todas é que, mais do que nunca – ou mais do que sempre – eu serei chamada de louca, maluca, doida varrida… tudo muito familiar pra mim (e isso também é verdade).

E pensando nas minhas loucuras voluntárias e ainda não anunciadas, eu me aproveitei do carnaval para vestir a minha fantasia insana sem ser taxada de maluca. Porque no carnaval, tudo pode. Tudo é festa. E toda insanidade é perdoada.

… E acabei indo parar na página da Uol.

Na legenda: “Roberta Simoni se diverte no bloco das Carmelitas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.”

E depois na página da IG:

“Cariocas e estrangeiros se misturaram no bloco, com fantasias criativas como um dominó humano.”

E até no O Globo:

Isso porque eu não tive metade da energia desse povo aí para ir atrás dos blocos todos os dias. E se alguém estivesse lá escondido, tava era lascado, porque nem o RJ TV e o Jornal Hoje nos deixaram passar batidos. Evaristo que o diga… 😀

“Betaaaaaaaa, acabei de te ver na Globo, pulei aqui na frente da tevê: é ela, é ela, é ela!” (minha irmã, ao telefone, empolgada com meus 5 segundos de estrelato, vestida de peça de dominó… uó!).

Mas gente… eu juro: não vou deixar a fama subir à cabeça. =P

O carnaval termina hoje e eu ainda estou pensando se visto ou não aquela fantasia desbotada e ordinária da realidade.

A loucura me cai tão bem, afinal.

Vai dizer que não? 😉

Roberta Simoni

A fantasia desbotada da Realidade

Se neste país o ano só começa depois do carnaval, e de fato tudo na minha vida parece só querer começar a acontecer depois da quarta-feira de cinzas próxima, tudo bem. Se o Brasil para, eu paro junto. Aqui a gente dança conforme a música, ou no batuque do samba.

Ouvi uma frase do amigo Gabriel que ficou ecoando na minha cabeça hoje: “A minha fantasia é a realidade.”. Achei linda. Daria um belíssimo texto se eu não estivesse vestindo a fantasia da realidade às avessas.

Neste carnaval, “A minha realidade é a fantasia”. E o meu lado “mulherzinha” se sente profundamente ofendido de repetir a mesma roupa por tantos dias consecutivos e eu já começo a enjoar desse uniforme. Então tá decidido: guardo a realidade no fundo do armário (ou, no meu caso, no fundo da mala) e só volto a vestir depois do carnaval. Pronto.

Se o que é real, palpável e concreto não é colorido o suficiente, o carnaval taí pra isso: descombinar as cores, misturar as estampas, desordenar a rotina, esticar os prazos e adiar os compromissos inadiáveis.

Eu quero listras com bolinhas, cores estampadas num tecido prateado de lantejoulas douradas. Quero a cor púrpura das paixões no meu cabelo, embaraçado com confetes e serpentinas. Quero o brilho do suor da minha pele se confundindo com a purpurina.

As máscaras? Quero todas possíveis. Menos a minha de todo dia.

E, por favor, abram alas, que eu quero passar… ♪ ♫ ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪ ♫ ♪

Quem vem comigo?

(a foto eu tirei daqui óh!)

Roberta Simoni