Paredes falantes

Paredes Falantes

Ele quis pintar a parede do quarto dela de camurça. Ela não deixou. Era a mesma cor que ele havia escolhido para pintar a sala da casa dele. Se fosse para mudar alguma coisa, que o colorido fosse diferente. “Além do mais, camurça não é nem nome de cor, é nome de tecido. E tecido cafona.” Ele nunca entendeu a lógica dela, ou a falta total de lógica, mas não precisava entender, o beijo dela costumava calar as dúvidas dele.

As paredes da casa dela contavam histórias de aventuras, viagens, amores e desamores e ele não entendia como cabiam tantas coisas num espaço tão curto – de apartamento e de vida. E se uma parte dele admirava aquela intensidade insana de dez mulheres numa só, a outra gritava de horror por não ter começado a escrever aquelas páginas todas com ela há mais tempo e por ainda não estar nas fotos das paredes da casa dela.

As paredes contam muito sobre as pessoas, especialmente aquelas que não dizem absolutamente nada. Paredes brancas. Nuas. Silenciosas. Paredes que não dialogam, que não interagem, que calam por preguiça, por falta de criatividade, de tempo ou de medo de passarem a vida pendurando prateleiras com enfeites, servindo de encosto para livros, gravuras, quadros e pistas importantes de traços das personalidades dos seus habitantes.

Há paredes que falam, falam e não dizem nada, que ocupam espaços sem preencher, só para disfarçar um buraco aqui, uma rachadura acolá. Paredes infiéis e dissimuladas, completamente descompromissadas com a verdade.

Ela gostava mais das paredes que sussurravam qualquer mistério. Não precisavam ser finas, não. Melhor até que fossem espessas, porque o que os vizinhos falam, escutam e assistem costuma ser bem mais tedioso e irritante do que propriamente interessante. Paredes que sussurram são aquelas que querem contar histórias, segredos… que deixam manchas, digitais, marcas de quadros e móveis à mostra. Sinais que, para ela, eram fios condutores para sua imaginação.

Quem vive aqui? Quem teria vivido? O que teriam vivido? Se essas paredes pudessem falar, o que elas me diriam?

Para ele, paredes coloridas causavam sensações diversas. Talvez por isso ele quisesse pintar a parede da casa dela da mesma cor que pintou a parede da casa dele. Pode ser que ele só quisesse que a casa dela fosse uma extensão da casa dele, ou talvez achasse que faltava colorido na casa dela, ou nela, já que a decoração da casa dela era preta e branca, o que, afinal, dizia muito sobre ela.

Ela não conseguia ficar por muito tempo em ambientes inóspitos, com paredes que tentavam a todo custo convencê-la da credibilidade de quem as decorou, por isso, todo tempo de espera, por menor que fosse, em laboratórios, consultórios e escritórios, tornava-se uma verdadeira tortura.

Ele não gostava de paredes mal pintadas ou mal cuidadas, nem de geladeiras vazias, o que também dizia muito a respeito dele. E bem na verdade, ele nem gostava tanto assim da cor camurça, mas adorava implicar com ela.

– Nós vamos ter bastante quadros e estantes com muitos livros na nossa casa, não vamos?

– Só se você deixar eu pintar nossa parede de camurça.

– É, acho que nós temos um acordo.

Roberta Simoni

Mais uma tragada…

Fuma pra mim?

Como é?

Fuma pra mim! (e o que antes era um pedido, virou uma ordem e aquilo a excitou como se ele tivesse pedido para ela gozar pra ele, exatamente como ele havia feito, minutos antes…)

Você sabe que eu tô tentando parar, inclusive porque você reclamava que...

Eu sei… só fuma. Eu não tô te pedindo que me ame, mas que acenda um cigarro.

Ela levantou da cama, caminhou lentamente até a mesinha ao lado da janela, abriu a bolsa, pegou o maço de cigarro e o isqueiro. Sentou na ponta da cadeira, com o dorso ereto, o quadril empinado, e acendeu aquele cigarro barato que ele tanto detestava. Ficou ali, nua, muda, na penumbra do quarto, contra-luz, fumando, sem olhar pra ele. Fingindo indiferença, mas consciente da sensualidade de cada movimento minuciosamente observado, de cada tragada, da fumaça que assoprava lentamente.

Ele não tinha cinzeiro em casa. As cinzas do cigarro caiam no chão e ela não se importava. Nem ele.

Foda-se o teu tapete branco.

Por que você se pinta tanto?

– Por que, diabos, você tem um tapete branco no seu quarto?

– Pelo mesmo motivo que você se pinta…

– Se isso te irrita tanto, por que você me pediu que viesse?

– Eu não pedi que você viesse maquiada, nem com as unhas e os cabelos pintados de vermelho…

– Mas me pediu pra fumar pra você…

Ela descruzou as pernas, apoiou o cigarro na ponta da mesa, bem na direção do tapete branco. De propósito, obviamente. A fumaça subia e escapava pela janela, junto com os pensamentos dele. Enquanto ele acompanhava o caminho da fumaça, ela o encarava, ao passo que ele, ao perceber o desafio, devolveu o olhar com outra pergunta:

– Por que você veio?

Ela riu.

Pra ter certeza de que você se arrependeu, pra te ver agonizar silenciosamente, bem assim, do jeitinho que você tá fazendo agora…

– Sádica.

– E quanto a você? Por que me chamou?

– Pra lembrar…

Com o tempo, a memória falha. E como se não bastasse falhar, sabota. Ele só lembrava do sorriso dela, da pele lisa, do corpo lindo, do jeito irreverente e falador, das noites em claro fazendo amor. Precisava lembrar dos vícios, ver as vísceras dos defeitos de novo, bem de perto, pra ter certeza de que ela não era mulher pra ele, com aquelas roupas justas, o sutiã que nunca combinava com a calcinha, o cabelo multicolorido, a maquiagem exagerada, as unhas mal pintadas de vermelho aberto, roídas nas pontas, o cigarro fedorento que ela fumava com um charme quase insultante, deixando a marca do batom vermelho de péssimo gosto.

O cigarro durou a eternidade do silêncio, com diálogos espaçados. E ela ainda haveria de fumar outros tantos pra ele lembrar do que precisava esquecer…

Isso se ela não o tragasse antes, entre um cigarro e outro.

(K.: a música que você postou na madrugada caiu como uma luva, veja só… )

Roberta Simoni