Sobre carnaval, zumbis e cinema mudo.

George Valentin interpretando por Jean Dujardin em "O Artista"

Eu pensei que não fosse querer escrever sobre o carnaval dessa vez, na verdade, eu estava resistindo, mas, como bem a Liah previu, depois de uma publicação aborrecida minha no twitter: “isso vai acabar virando um post daqueles…”

Por que eu resisti até agora? Bom, para começar eu escrevo sobre o carnaval para um site carioca, para piorar eu estou trabalhando no carnaval, fazendo a cobertura fotográfica para uma marca de grande circulação e, para terminar, tudo o que eu tenho para dizer é basicamente… ruim. Ponto.

Eu não estaria saindo às ruas se não fosse para garantir o meu ganha pão. Outro ponto. Mesmo assim, estou saindo todos os dias, fazendo o meu trabalho direitinho, como manda o figurino, sorrindo e fazendo pose de feliz… ok, feliz é exagero, mas tô bancando a resignada simpática. Uma perfeita atriz, profissão que eu pensaria em investir se mamãe não tivesse me dito – e eu não tivesse acreditado – que se eu virasse atriz, a Literatura teria muito a perder. A culpa é sempre das mães.

O problema não está no trabalho em si, que gosto de fazer, o drama está no trajeto, especialmente no percurso que faço do trabalho até à minha casa, que é curtíssimo, mas eu juro que parece mil vezes mais longo do que a trilha de vinte e tantos quilômetros que encarei em Ilha Grande, subindo e descendo morro debaixo de sol do meio-dia. É que lá na trilha não tinha gente bêbada, suada, se imprensando, me puxando… em suma: não tinha nada parecido com zumbi por lá.

Vou contar um segredo: eu tenho medo de zumbis. Não assisto filmes nem leio livros onde eles apareçam. E não adianta me dizer que eles não existem, o carnaval tá aí para provar que existem, sim!

Agora eu entendo por que tenho ficado tão apavorada quando saio à rua nesses dias. Eu olho para aquela multidão e tudo o que vejo são zumbis semi-nus e coloridos, cambaleando zonzos, anencefálicos e com um objetivo em comum: comer gente.

Nos outros anos, para fugir da realidade, eu me fantasiava de qualquer coisa e me misturava – sem me misturar tanto – no meio deles. Esse ano, não. Não dá para ficar fugindo para sempre de quem se é, ou de quem se está sendo. E eu estou sendo essa pessoa irritadiça e nada espirituosa. Hoje, um zumbi, digo… um folião passou por mim e disse: “Nossa! Você ficou linda nessa fantasia de séria!”. Isso me fez pensar em como é mais fácil e divertido enxergar máscara onde só se tem um rosto de verdade para ver.

E lá fui eu, com a minha “fantasia” de séria, no meu horário de folga, me esconder dentro de uma sala de cinema. E, quer saber? Foi o melhor momento do meu carnaval. Dentro do cinema o silêncio era absoluto, vocês nem acreditariam se eu dissesse que a sessão lotou e que, mesmo assim, eu só conseguia ouvir o som irritante dos meus dentes triturando a pipoca. Tudo bem que a única que não tinha a cabeça branca naquela sala era eu, mas e daí?

Fui assistir “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius, que foi, na verdade, uma experiência cinematográfica da qual eu já deveria ter vivido há muito tempo: assistir um filme mudo, em preto e branco, diante de uma telona de cinema, comendo pipoca e, à certa altura, embaçando a vista de emoção. E que filme, gente! Que filme! Assistam!

É um filme simples, onde os recursos estão em abrir mão dos recursos, provando que precisa-se de muito pouco para se contar uma história, contanto que a história seja boa e bom contada. Em tempos onde se faz um carnaval com tudo e tudo vira carnaval, dentro e fora das telas, esse filme é um presente incrível.

Saí do cinema desejando que o mundo aqui fora estivesse, pelo menos por mais alguns minutos, como estava lá dentro: mudo e cheio de magia e encanto…

Para quem quiser ver a crítica do filme, achei essa daqui bem boa!

Roberta Simoni

Tarde demais, baby…

Ela estava aí, do seu lado, todo o tempo, e só agora que ela foi embora você percebeu o quanto a ama e que não pode viver sem ela, aí você saiu feito um louco pela rua, pegou um táxi, mandou o motorista acelerar o máximo que pudesse, mas o trânsito estava  completamente congestionado, então você abandonou o táxi e foi correndo mesmo, entrou no aeroporto empurrando as pessoas, se desculpando, tropeçando e derrubando as bagagens que estavam pelo caminho, mas quando chegou no portão de embarque, ela já tinha entrado no avião, que decolaria nos próximos minutos. Você tentou ultrapassar o portão mesmo assim, mas, obviamente, foi barrado pelos seguranças porque estava sem o bilhete de embarque. Aí você pediu – na verdade você implorou – para que deixassem você passar, argumentou que o amor da sua vida estava dentro daquele avião e que se você não a impedisse, ela partiria para nunca mais voltar. Ficaram comovidos e, com alguma resistência, deixaram você entrar. Quando você alcançou o avião, a tripulação já havia sido avisada e estava à sua espera, a aeromoça (particularmente emocionada) comunicou aos passageiros o motivo do atraso do vôo e chamou sua amada pelo nome, que se levantou, sem entender nada, até o momento em que te viu vindo ao encontro dela. Vocês trocaram olhares apaixonados. Ela quis que você explicasse o que estava fazendo ali, e você finalmente disse, em alto e bom tom, que não conseguia imaginar sua vida sem ela e a pediu em casamento. Ouviu-se um coro de “Óhhhhhh” de comoção dentro do avião. Ela disse sim e vocês se beijaram demoradamente, enquanto os passageiros aplaudiam entusiasmados àquela cena de amor. A aeromoça suspirou, desejando viver um amor assim algum dia, e…

The End. Começaram a subir os créditos do filme, música do Roxette tocando ao fundo, as luzes do cinema se acenderam e as pessoas começaram a se levantar. Alguns casais ainda resistiam sentados, aos beijos, envolvidos pelo clima de romantismo cinematográfico, mas cedo ou tarde teriam que levantar, dar ao mãos e ir embora viver a vida real…

Eu não satirizo o amor romântico, só acho que, certas coisas, só funcionam bem nas telas do cinema, isto é, quando funcionam. Esse roteiro onde o mocinho passa o filme inteiro sem notar o amor platônico da mocinha e só no final descobre o seu amor por ela, ou da fulaninha que durante toda a estória não dá o devido valor ao fulaninho e no fim, decide ficar com ele e os dois são felizes para sempre não cola… não mais.

Pode ser que um dia eu entenda, mas acho pouco provável… se tem uma dúvida que levo comigo dessa vida é essa: por que as pessoas só dão valor depois que perdem?

Teoricamente não seria mais simples valorizar o que está ao alcance das mãos, diante dos olhos do coração? Então, por que na prática é tão diferente? É como se alguma coisa encobrisse a visão enquanto você ainda tem ao seu dispor e depois, ao perder, como num passe de mágica, você passasse a enxergar o que antes, misteriosamente, não via.

Por que só agora que eu não te quero mais? – foi a pergunta que eu fiz, anos atrás, para um ex-namorado. Não sei… – foi o que ele me respondeu com sinceridade. Pois é, nem eu sabia, e ainda não sei e, provavelmente, nunca vou saber, tampouco entender. Porque os anos passam e eu vejo as pessoas cometendo os mesmos erros tolos, de olhos vendados, perdendo de vista grandes amores, deixando escapar a magia do relacionamento construído no cotidiano a dois, para depois terem tristes estórias de amor para – não – contar. Sim, porque, me desculpem, mas, eu não tenho interesse em escutar.

E eu espero que as chances tão logo se esgotem, porque é puro desperdício de tempo e desgaste do amor que, se ainda não se esgotou, pouco sobrou para gastar. E eu não quero que ele termine com ela. Eu quero que ele entre no avião e, por conta do atraso do vôo, os passageiros estejam esbravejando contra ele, que irá encontrá-la acompanhada de um cara bem mais gato que ele – e apaixonado por ela agora! Exatamente agora, quando ela também está apaixonada por ele, e não amanhã, quando ela, cansada de amar por dois, for embora. Eu quero é ver gente se amando “tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora”, não em tempos e mundos distintos. Quero escutar falar de estórias de amor que começam e terminam juntas, embora, fatalmente, tantos acabem separados antes do fim. Mesmo assim, o que eu quero é ver recíprocos começos, meios e fins de amor mútuo, independente do desfecho, um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.

E você, meu bem, trate de se engraçar com a aeromoça que se derreteu toda com seu romantismo descartável e seu amor tardio, porque dessa vez (confesso que sinto um prazer cretino em dizer isso) você até alcançou o avião, mas chegou tarde demais, baby

Na foto do post, a escandinava Greta Garbo, que rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos com John Gilbert em A Carne e o Diabo, na da década de 1920. E no vídeo, Deborah Kerr, ao lado de Burt Lancaster, protagonizado o mais exuberante dos beijos cinematográficos de todos os tempos em A Um Passo da Eternidade. Porque suspiros e um pouco de romance de cinema não fazem mal a ninguém… 😉

Roberta Simoni

Thelma que sou.

Sabe, Thelma? Você é quem estava certa, sempre esteve com a razão, o tempo todo! Hoje acordei lembrando de você e da Louise. A primeira imagem que me veio à mente ao abrir os olhos  foi a de vocês duas, naquele Thunderbird azul, diante do abismo. Você olhou para a Louise e falou: “vamos em frente!”, ela afundou o pé no acelerador, e vocês (se) foram. Mergulharam de mãos dadas no desconhecido, sorrindo.

Quando eu te vi fazendo isso, custei a acreditar, e mais ainda: eu não quis aceitar. Logo você, Thelma…? Tudo bem que você seria indiciada pela morte daquele cretino que tentou te estuprar, tudo bem que você estava foragida, tudo bem que tivesse roubado, incendiado o caminhão daquele tarado de beira de estrada e até apontado uma arma na cabeça de um tira. Bom, ainda assim, você dormiu com o Brad Pitt, e estava com crédito. Quem dorme com o Brad, minha amiga, pode quase tudo nessa vida. Mas, se jogar no precipício, Thelminha? Aí, não! Você podia ter convencido a Louise a se entregarem à polícia. Talvez a pena fosse mais branda, um bom advogado ajudaria, ou aquele policial bonzinho que sabia que vocês não eram criminosas. Talvez…

… talvez tenha sido exatamente dessa forma que eu pensei quando eu te vi de mãos dadas com a Louise, rumo ao abismo. Fechei os olhos, e tampei a boca, incrédula, de coração apertado. É que eu estava achando aquela aventura de vocês tão deliciosa, e depois de ver você se transformando naquela mulher corajosa e atrevida, absolutamente diferente da esposa obediente, medrosa e boba que eu conheci, eu me apeguei a você, sabe? Torci, vibrei junto, peguei carona naquele possante maravilhoso da Louise e senti o gostinho bom do vento despenteando nossos cabelos. Foi isso, me apeguei muito. E chorei.

Mas agora eu sei, eu entendi !!! Não fiquei triste com você, Thelma, de verdade! Aquilo tudo era só apego, e um pouco de egoísmo, entende? Mas eu superei, cresci, aprendi algumas coisas sobre os riscos e os abismos da vida, e descobri que continuava te admirando, mesmo depois de todos esses anos. Hoje em dia é até engraçado, eu falo de você com tanto orgulho. Isso mesmo, orgulho! Essa é a palavra. É o que eu sinto hoje ao pensar em você.

Tudo é tão subjetivo, afinal, não é mesmo? Por que a morte não seria? Quem disse que morrer foi um final triste para você e a Louise? Quem disse que era o fim? Aposto que foi só o começo! Além do mais, vocês já não cabiam nesse mundo, eles nunca compreenderiam vocês mesmo, e isso tudo aqui ficou limitadinho demais para tamanha ousadia. Deve haver um outro mundo bem mais preparado para receber vocês duas, ahhhh deve! Só não sei o que te deu que até hoje você não voltou pra me contar o que aconteceu depois daquele salto no precipício, mas, eu duvido que aquele buraco profundo era o inferno de vocês. Era, sim, o nirvana!

Ahhhhh, minha cara, se todo mundo ousasse ser um pouquinho “Thelma”, de vez em quando, o mundo seria um lugar tão mais simpático, leve, divertido…

E hoje eu acordei bem assim, me sacudindo, me encarando no espelho e dizendo: “Anda, Thelma, aparece! Eu sei que você está escondida aí, deixa de ser besta!”.

Você aceitou a provocação, e veio. É tão bom te ver de novo, Thelma… quando tempo fazia?

Vem! Me dá sua mão, vamos pular juntas. Me deixa mergulhar contigo no desconhecido? Vamos nadar num mar de águas turvas, dirigir naquela estrada sinuosa que ninguém sabe onde termina, vamos nos atirar de braços abertos com as nossas asas invisíveis na vida, vamos rir da cara dos temidos, vamos zombar das regras, vamos ultrapassar o limite imaginário do certo e do errado. A gente sabe, sempre soube, que nada disso existe…

Só o que existe agora somos você, Louise e eu, experimentando vida.

Roberta Simoni

Momento lírico do dia

Meu professor do Roteiro (que vai brigar comigo quando ler isso…) ensinou pra gente no primeiro dia de aula que uma trama pode ser contada através de três gêneros narrativos diferentes: lírico, épico e dramático.

Claro que não vou ficar aqui falando sobre narrativas, até porque eu ainda sou aprendiz nessa arte, além do mais, ninguém me perguntou nada. Só entrei no assunto para compor a introdução de um pequeno relato cotidiano…

Então, para que entendam o que vou relatar a seguir, é importante que saibam que essa história se passa num momento lírico.

Momentos líricos dentro de um filme, por exemplo, são aqueles que mostram o sentimento interior do personagem. A história deixa de ser contada pelo prisma dos acontecimentos do mundo externo para mostrar o que o personagem está sentindo interiormente.

Para entenderem melhor, aí vai um exemplo que my teacher deu, usando a cena do filme Beleza Americana:

Pois bem, o meu “momento lírico” do dia foi assim:

Eu andava distraída no aeroporto Santos Dumont, nessa cidade maravilhosa chamada Rio de Janeiro quando, de repente, no meio daquela gente toda transitando de um lado pro outro, carregando malas, falando ao celular, fazendo barulho, tudo ficou mudo, as pessoas desapareceram dentro do meu campo de visão e uma luz surgiu do alto, e no chão um tapete vermelho…

Desfilando no tapete: ele. Ninguém mais, ninguém menos que Reynaldo Gianecchini. Em carne e osso. Muito osso e pouquíssima carne, por sinal. Mas, não importa… era o Gianecchini. A personificação da beleza a menos de dois metros de mim…

“A-i, m-e-u D-e-u-s d-o c-é-u!” – foi tudo o que eu me permiti falar bem baixinho. Depois continuei andando, na tentativa de manter a discrição, sem muito sucesso, pois senti que não só os meus olhos e a minha cabeça, como também todo o meu corpo se viravam num ângulo de 180C° para acompanhá-lo passando. (esse povo que não está acostumado a ver artista é fogo, tsc tsc tsc…).

E foi exatamente como naquelas cenas de filme onde aparece a garota mais linda, desejada e popular da escola, em câmera lenta, quase parando… sabem como?

Eu sei, gente! Ele é só mais um cara bonito. Certamente tem lá suas qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Mas o danado é bonito, e os desprovidos de beleza que me desculpem, mas ver gente bonita é sempre melhor do que ver gente feia. Além do mais, momentos líricos a gente não escolhe, eles simplesmente acontecem. E se eles são assim, digamos, fúteis, o que se há de fazer senão vivê-los?

Não obstante, minha vida é repleta de momentos líricos (dos mais levianos e bobos como esse, aos mais profundos e poéticos). Até porque é frequente eu viver situações onde me imagino expectadora de mim mesma, como se estivesse me assistindo num filme. E tudo isso porque não faço uso de drogas ilícitas… imaginem se eu fizesse, heim?

E você? Já teve seu momento lírico hoje?!?

Roberta Simoni

“Favelado Milionário”

JamalEu comentei há alguns posts que ando numa fase devoradora voraz de filmes e livros, e, a fim de compartilhar alguns dos meus livros favoritos, criei até uma sessão aqui no blog dedicada a eles (Beta Indica…), que ainda está “em construção”, mas já dá para tirar proveito de alguma coisa por lá…

No entanto, pouco falei até agora dos filmes que tenho assistido, e não são poucos, tanto que a moça que vende os ingressos no cinema mais próximo já está virando minha amiga da infância, a moça da padaria aqui da esquina também, e ainda tem a senhorinha do restaurante da rua aqui de trás. Só não rolou ainda muita afinidade com as recepcionistas da academia, nem com os professores, nem imagino o motivo, mas…

Bom, pensando bem, acho que não tenho comentado nem indicado nenhum filme aqui porque tudo que eu tenho visto me parece tão igual, tão pouco inovador e inspirador, que sempre saio do cinema pensando: “é… mais uma comédia romântica legalzinha; mais um filme de ação parecido com todos os outros; mais um filminho água-com-açúcar…”. Talvez eu esteja escolhendo os filmes errados para assistir, ou talvez o mercado cinematográfico esteja mesmo saturado, ou as duas coisas. Mas, em meio a tanto “lugar comum”, somos brindados com o filme Quem quer ser um milionário? , que finalmente conseguiu saciar a minha fome de filme bom…

O título do filme não me chamou muita atenção, na verdade, não chamou nenhuma. “Quem quer ser um milionário?”, na verdade, foi a tradução do título para português, que se fosse traduzido ao pé da letra seria “Favelado Milionário”, mas aí, já sabe, né? Entraria Diretos Humanos na jogada, e o filme, provavelmente, não bateria recordes de bilheteria…

Resumindo muito, trata-se da história de um jovem indiano muçulmano chamado Jamal, que participa de um programa de perguntas e respostas com 10 milhões de rúpias em jogo (similar ao nosso antigo “Show do Milhão“). Cada pergunta  remete o jovem ao seu passado de lembranças dolorosas, retratadas de maneira chocante, surpreendente e doce, com imagens que contrastam  lama, sujeira, lixo, e beleza, sinceridade, obstinação. Preciso dizer que fiquei a-pai-xo-na-da pela fotografia do filme?

Como a Índia está na moda, confesso que fiquei com o pé atrás com o filme, mas, felizmente, a Índia da moda é absurdamente diferente da que é mostrada no filme… não é a Índia dos rajás da novela global, não… é a Índia de verdade.

Então, amigos leitores, colegas curiosos e fuxiqueiros plantonistas, fica aqui a minha dica de um filme capaz de criar um paralelo com a realidade do nosso país, guardadas as devidas proporções – culturais, principalmente – é claro. Sem dúvidas, o melhor que vi esse ano, repleto de cenas ricas de poesia e aprendizado, que dificilmente sairão da minha memória. E, preparem-se, pois vai doer. Mas, não se preocupem: é aquele tipo de dor que faz a gente aumentar de tamanho – humanamente falando.

Para ver o trailer do filme, clique aqui.

Roberta Simoni

Cinema: Lazer ou Estresse?

Antes de começar este post, preciso fazer alguns avisos:

1 – Trata-se de um relato cotidiano que despertou a fúria dos meus piores monstros, por isso, para quem não me conhece e nunca me viu nervosa, não se assuste. 2 – Eu não sou sou ranzinza o tempo todo, não costumo ser mal-educada e não é sempre que eu perco o controle e deixo o meu lado, digamos, barraqueiro entrar em ação, logo, não chego a representar um perigo para a sociedade. 3 – Não se preocupem, me disseram que isso tem cura. 4 – Me desculpo de antemão pelos palavrões, que serão, sem dúvidas, inevitáveis. 5 – Pai e mãe: não se envergonhem, todos sabem que essa não foi a educação que vocês me deram!

Quinta-feira à noite, eu estava entediada e convidei o namorado para ir ao cinema comigo assistir O Curioso Caso de Benjamin Button. Compramos os ingressos, e antes da sessão, jantamos na praça de alimentação do shopping, fomos a algumas livrarias, mas saí das lojas de mãos abanando, porque todos os livros que eu quero comprar estão bem mais em conta na internet. Sim, eu pechincho!

Comentei com ele que deveríamos fazer sempre isso durante a semana, porque toda vez que vamos ao shopping no fim de semana, eu me irrito com a movimentação, com as filas, com a barulheira, e antes de conseguirmos fazer qualquer coisa, eu já estou implorando para ir embora. É, eu sei, tenho só 24 anos, porém não tenho espírito aventureiro para certas coisas.

Mas o shopping estava calmo e bem longe de estar cheio, e ingenuamente, pensei que o cinema não fosse ficar lotado. Até porque era quinta-feira e a sessão só acabaria perto da meia-noite. Quando deu o horário de começar o filme, para a minha infeliz surpresa, avistei vários adolescentes e até uma criança na fila, que, por sinal, não era uma fila pequena, o que já começou a me fazer questionar a cabeça das pessoas. O que levaria aquelas pessoas a ficarem numa fila se os ingressos são comprados antecipadamente com lugares marcados? Acho que brasileiro está tão habituado a ficar em filas, que fica nelas até quando não é necessário. Afe!

Já dentro do cinema, acomodada no meu assento, com os adolescentes sentados duas fileiras atrás, adultos do meu lado direito (ufa!), e a tal criança que vi na fila – adivinhem! – sentada ao nosso lado, com o pai. É verdadeira a premissa que diz que quanto mais medo você tem de alguma coisa, mais você atrai o que teme. E eis que o cinema ficou cheio. Então, “seja o que Deus quiser”, pensei.

Vale ressaltar que o cinema em questão fica no Morumbi Shopping, que não é um shopping que atende a todas as classes sociais, fica num bairro que tem o seu prestígio em São Paulo, onde espera-se que as pessoas que o frequentam tenham um pouco mais de orientação e educação.

O filme começou e a sala que eu pensei já estar cheia, foi enchendo cada vez mais. Isso mesmo, depois que o filme já havia começado, os retardatários (que não eram poucos) começaram a ocupar os seus lugares, entrando em suas fileiras, atropelando os que já estavam sentados, e impedindo a visão de quem tentava assistir o filme. Tive a impressão de que o shopping inteiro estava dentro daquela sala de cinema, olha o tal “poder da atração” de novo aí…

Eu juro que até esse momento eu estava calma e me comportando feito uma mocinha, apesar de estar pensando que a falta de bom senso das pessoas não têm limites, tentei abstrair e me concentrar para não perder nada do filme, e talvez eu teria até conseguido, se não fosse pela mulher sentada ao meu lado.

Ela simplesmente estava tendo um acesso de tosse, daqueles que acontecem a cada três segundos, e eu comecei a fazer um exercício de meditação: “Calma Beta, ela não tem culpa de estar tossindo, isso poderia acontecer com você!”. Depois de alguns longos minutos de filme, mandei a meditação para a casa do ¨%$@#*&%$*#” e meu cérebro voltou a ser dominado por um turbilhão de questionamentos: “Se essa criatura estava com acesso de tosse por que não ficou em casa? Por que não esperou melhorar para vir ao cinema? Como ela consegue não se se sentir mal por estar incomodando os outros?”

Ela tossia cada vez mais e os intervalos de tosses iam diminuindo, e a minha revolta aumentando. O namorado, ao perceber a minha inquietação, me ofereceu trocar de lugar com ele. Então olhei para o lado dele e vi a criança, recusei o convite e lembrei que quando pensamos que as coisas vão mal, esquecemos que elas podem piorar ainda mais.

Dito e feito. Pouco tempo depois senti que o ataque de tosse da pobre coitada desprovida de bom senso melhorou um pouco, e foi então que as coisas começaram a piorar. Ela intercalava as tosses com os comentários sobre o filme em voz alta com os amigos ao lado. 

Botei a mocinha comportada – que até então habitava em mim – de castigo, e comecei a pedir silêncio. Não adiantou. Desviei os olhos do filme, e virei a cabeça de lado, inclinei meu corpo e fiquei descaradamente encarando a mulher. Absolutamente em vão. Enquanto isso, o garotinho não entendia o filme e perguntava tudo para o pai, que, por sua vez, também respondia em voz alta. Puta-que-o-pariu, por que essa criança não estava assistindo ao Ben 10, Pica-Pau, Pokemon ou qualquer coisa do gênero infantil?

“Calma Beta, calma… amigo, amigo… respira fundo!”. Pensei, mais uma vez: “Beta, é só uma criança que não tem culpa de ter um pai idiota!”. Mas eu mesma me contra-atacava, e pensava: “Uma geração de idiotas criando outra, e eu não sou obrigada a conviver com eles!”. Tive vontade de largar o filme pela metade e ir embora, mas não achei justo com o meu bolso.

O filme teve quase 3 horas de duração, e do pouco que eu consegui assistir, gostei muito. Mas, não conseguia deixar de pensar que eu estava numa sessão de tortura disfarçada de cinema, ou participando de em algum teste de paciência, do qual fui irrevogavelmente reprovada.

O grupo de amigos ao meu lado (todos aparentavam ter mais de 30 anos, para o meu espanto), não contentes em apenas tossir e falar, ainda tentavam adivinhar tudo que aconteceria a seguir: “Quer ver como ela agora vai fazer isso? Aposto que ele agora vai dizer aquilo…”

Meeeeeeeeu Deuuuuuuuuuus, socorro! “Calma Beta, são todos doentes mentais fugitivos de algum sanatório, só pode ser, só pode ser!”

Tirei de letra os chutes que levava na cadeira, de um casal empolgado atrás de mim, mas tive que reclamar, implorando por silêncio mais uma vez, quando a mulher ao meu lado fazia questão de demonstrar suas emoções a cada cena, enquanto tossia: “Óhhh, meu Deus – cof cof cof – tadinho! Que isso, gente? Cof-cof-cof – não acredito!”

Quando o filme terminou e os créditos começaram a aparecer na tela, finalmente consegui o que tanto desejei: silêncio. E alguém falou, admirado: “Nossa, que silêncio!” Eu não me segurei e falei em alto e bom tom: “É, só agora que o filme acaba é que as pessoas resolvem ser educadas!”. Enquanto isso, o namorado se afundava na cadeira, tentando se esconder.

Pausa para uma pequena observação: tive que dar minha mão à palmatória para os adolescentes, que foram os que melhor se comportaram nesse episódio. Sei que já fui adolescente, e espero ter filhos um dia, mas confesso que tenho medo do que posso colocar no mundo quando vejo essa geração que acho, particularmente, alienada e  extremamente irritante.

Os valores estão invertidos, é isso? Eu estou ficando velha? Fiquei desatualizada e não fui avisada que saiu de moda fazer silêncio dentro do cinema? Todo mundo acha isso normal? Só eu que me aborreço?

Sinceramente, tô confusa. Mas, a cada dia que passa, tenho certeza de uma coisa: está ficando cada vez mais difícil viver em sociedade, e se eu pretendo viver por muito tempo e em condições mentais saudáveis, de preferência, preciso me cuidar, para o meu próprio bem. Eu é que preciso mudar e exercitar o meu espírito esportivo, literalmente.

Voltei para casa pensando em aprender metidação ou fazer yoga, quem sabe? Ou será que seria o caso de tratamento psicológico? Podem me dizer o que acham, eu sou forte, vou aguentar!

Roberta Simoni