A menina dos sapatinhos confortáveis

Uma vez você olhou pros meus pés e disse: você é a menina dos sapatinhos confortáveis. Meses antes você havia me dado pares de sapatos lindos, um deles, de salto alto. O mais lindo que tenho, e o que menos usei, pois deixa meus pés moídos. Aqueles que te dei, você disse, não te vejo usando, já essas sapatilhas, você nunca tira dos pés. Procurei algum sinal de mágoa na sua voz quando constatou minha preferência pelo conforto à estética. Não encontrei. Talvez, no começo, você tenha ficado chateado por quase nunca me ver usando os calçados que me deu, mas depois entendeu. Os que eu comprei são mais simples e baratos, mas não me apertam, não dão bolhas ou causam calos medonhos. Eu já me sinto desconfortável demais no mundo pra usar calçados que causam esse mesmo efeito.

Antes de ser a menina dos sapatos confortáveis, eu era a menina dos joelhos ralados. Tenho poucas lembranças da minha infância com os joelhos livres de mercúrio, merthiolate e casquinhas de feridas, constantemente renovadas. Aliada à minha distração, eu tenho pernas levemente tortas, defeito que poderia ter sido corrigido com palmilhas ortopédicas. Meus pais gastaram dinheiro com isso até notarem que era inútil. Não que elas não fossem eficientes, mas porque eu as tornava assim, já que a recomendação médica era de uso diário durante toda a fase de crescimento, que levaria alguns anos e eu passei a me recusar a usá-las depois de alguns meses, alegando que não faziam efeito. Desde aquela época já era possível identificar um dos traços mais problemáticos da minha personalidade: o imediatismo. Causado por uma ansiedade crônica, raramente sanada com maracugina ou ansiolíticos.

Eu não preciso de degraus ou buracos para tropeçar, faço isso sozinha, com meus próprios pés, sem o auxílio de sapatos de salto de qualquer estatura. Sou capaz de tropeçar descalça numa superfície plana e antiderrapante. Pode ser que o defeito na minha pisada (fatalmente não corrigido na infância) colabore com meus tombos – mais frequentes do que eu gostaria de admitir – mas o justo é dar os créditos à minha constante pressa. Eu ando correndo mesmo quando não estou atrasada, aliás, eu raramente me atraso. Pontualidade é outro traço crítico da minha personalidade, quase um desvio de caráter. Mas não seria se eu vivesse, por exemplo, na Inglaterra (cada vez encontro mais motivos pra me mudar pra lá).

No entanto, ser pontual não significa necessariamente ser organizada. Nesse quesito não estou tão apta assim a viver num país de primeiro mundo, mas não vamos focar nisso. A questão é que não preciso de antecedência pra me arrumar porque sou rápida e ótima otimizadora de tempo (com o perdão do trocadilho cretino, porém irresistível). Sabendo disso, faço em meia hora o que eu poderia fazer em duas, sem pressa alguma. Então, por hábito, mesmo quando não estou com o tempo estourando, estou correndo.

Mais devagar, você reclama ofegante quando caminhamos juntos. Ou pergunta sutilmente pra onde estamos indo com tanta pressa. Estou correndo outra vez, eu te pergunto e você ri, me dando a mão e me ajudando a desacelerar o passo. Quanto mais longe for o nosso destino, maior será a quantidade de vezes que você vai precisar fazer isso. E é por isso que eu uso sapatos macios e leves. Nem sempre bonitos como aqueles que você me deu, mas certamente mais confortáveis.

Meus dedos tortos também não ajudam, pois não é com qualquer calçado que ficam bem. E é por isso que, além de confortáveis, meus calçados são majoritariamente fechados, poupando o mundo de mais feiuras.

Já meus joelhos, embora cheios de cicatrizes, não me incomodam por viverem à mostra, quase sempre livres de calças e com vestidos e saias de comprimento insuficiente para encobri-los e protegê-los.

Mas não pense você que minhas pernas à mostra são pernas destemidas. Elas são, no máximo, sem vergonha. E continuam tortas, por consequência daquele mesmo imediatismo que você conheceu na noite que eu te disse, com os olhos marejados, que não ia te esperar porque isso podia levar tempo demais.

Então, você me desculpe se eu continuar a não usar o sapato de alto que me deu, mas é que, além do desconforto que ele me causa, o risco de eu cair com ele é bem maior e as cicatrizes que tenho nos joelhos não me deixam esquecer como aquelas feridas são doídas.

Além do mais, você não ia querer me ver machucada.

Ia?

Roberta Simoni

Eu, Frida.

“Pés, para quê os quero se tenho asas para voar?” (Frida Kahlo)

– Você não vê? Tem uma Frida Kahlo escondida aí dentro!

– Engraçado você citar a Frida, tenho pensado tanto nela ultimamente…

– Eu sei que você tem pensado na Frida. É óbvio.

– É óbvio?

– É. E mesmo assim você faz de conta que não entende. Então me perdoe se, às vezes, eu esbarro o dedo no seu cu e te incomodo, mas parece que você tá esperando um sinal dos céus e isso é muito engraçado.

– Então é isso? É divertido ficar me assistindo ser estúpida?

– É, muito! E é uma das coisas que me irritam em você e que eu gosto que me irrite. Eu quero te dar colinho mas quero enfiar o dedo no seu rabo para você sair do conforto do desconforto.

– Incrível como o desconforto pode ser mesmo tão confortável…

– Eu sei, e se eu hesito em lembrá-la do seu próprio tamanho é só porque eu só tenho a perder com isso, afinal… tudo indica que não sou o seu Diego Rivera. Mas aí talvez seja só bobagem minha.

– E por que não pode ser você o meu Rivera?

– Se pode ser só bobagem minha, então talvez não mereça que eu enumere os motivos.

– Odeio quando você é indireto…

– Eu sei.

– Numa hora dessas eu pegaria a sua cabeça e encheria de beijos.

– Encheria?

– Sim. Tudo para não ter que dar com ela contra a parede.

“Eu sofri dois acidentes graves na minha vida… Um em que um bonde bateu (…) e o outro foi Diego.” (Frida Kallo) 

Roberta Simoni

A odisséia de ser (ou estar) pobre

Ônibus Lotado

Pergunta insistente do dia: Por que? Por que? Por que eu nasci pobre? Por que?

A pior pobreza é a de espírito, eu sei, mas vamos combinar que a financeira também não é nada interessante. Ser rica de amor, de alegria, de saúde, é importante, é claro, mas fica bem mais bonito na poesia. Experimenta ser rico de amor e andar de condução lotada todo dia.

Não posso reclamar de ter uma vida banal, sabe? Nunca pude. Só que quando a gente vive assim: uma hora aqui, outra hora acolá, entre um canto e outro no mundo, não é sempre que dá para contar com a sorte de cair de paraquedas nos lugares mais convenientes. Enfim, coisas da vida… o que sei é que minha vidinha está sendo, mais do que nunca, uma verdadeira aventura!

E, na minha atual rotina, o pensamento que me toma todo santo dia é: todo castigo para pobre é pouco. Invariavelmente essa frase me vem a cabeça. E, normalmente, começo ou termino o dia (ou os dois) questionando o por quê de eu não ter nascido num bercinho douradinho, de preferência de ouro ou, pelo menos, folheado. E não, eu não me sinto fútil por pensar assim, nem um pouquinho.

Aliás, o que eu tenho desejado ultimamente é muito pouco. Tipo chegar em casa e não ter a luz cortada que a minha amiga esqueceu de pagar; tomar banho quentinho sem ser de balde com água que foi fervida no fogão; uma maquinazinha básica de lavar roupa, basta funcionar que eu fico feliz, contente e saltitante. Que tal sair de casa para trabalhar e não se deparar com a cena de um crime na minha rua? Aí é abuso, né? Acho que já é pedir demais não querer ver uns corpinhos de nada logo pela manhã…

Ahhhh, e o ônibus? Minhas adoráveis viagens de ônibus! Essas renderiam algumas histórias cômicas para contar aqui, isso, é claro, se eu tivesse o luxo de ter um computador onde estou vivendo. Vida itinerante tem dessas coisas mesmo, não é novidade pra mim e, normalmente, eu tiro de letra, menos em dias que eu acordo “limão“, vocês sabem… 😀

Hoje pela manhã, quando eu viajava de ônibus lotado, em pé, com a ligeira impressão de que a criatura atrás de mim se aproveitava para dar uma roçadinha de leve em mim, depois de testemunhar uma passageira armando o maior barraco, aos berros com o motorista que continuava deixando gente entrar sem ter lugar para uma mosca dentro do ônibus que, por sua vez, exalava uma mistura inacreditável de odores, que iam do pior perfume de farmácia ao cheiro nada agradável das axilas do senhor ao meu lado, de repente, meu olhar parou num homem sentado há poucos metros de mim.

Ele sorria, não pra mim, nem pra ninguém, simplesmente sorria. Sorria sereno, tranquilo, fechava os olhos, e voltava a sorrir, parecia enfeitiçado. Olhava pela janela sorrindo, completamente alheio ao que acontecia dentro daquele adorável transporte que eu saltei antes mesmo de chegar ao meu ponto, por não suportar mais o peso de ser/estar desprovida de um automóvel.

No que será que ele pensava? Na morte da bezerra? Não. Com certeza ele não pensava em morte. Devia estar pensando na mulher amada, se é que o amor ainda é capaz de tal efeito. Talvez o motivo tenha sido mais simples, mas não menos eficaz: ele acabara de ter um orgasmo antes de sair de casa para trabalhar. Esse sim pode causar tal efeito… ahhhh, pode!

Uma coisa é certa: estando no pior ou no melhor lugar do mundo, com muito, pouco ou nenhum dinheiro, se você consegue se desligar da realidade e se transportar para qualquer outro lugar onde sua cabeça decida estar, tudo pode sumir num passe de mágica e isso pode tornar as coisas bem mais leves, ainda que um passageiro obeso sente ao seu lado, e te esmague aos poucos.

Vou me lembrar disso da próxima vez que eu estiver num ônibus abarrotado de gente…

Para onde eu vou me transportar? Para Paris, na companhia do Gianecchini. Só isso, mais nada.

E nem adianta vir me dizer que o Gianecchini é gay, nem mesmo isso vai atrapalhar a minha viagem…

E você? Vai pra onde?

Roberta Simoni