Me avisa quando chegar

What?

Uma frase. Um peso.

Das vezes em que eu estive namorando e saia desacompanhada dos meus ex-namorados e eles me pediam pra eu avisar quando chegasse, pelo menos 50% das vezes – sendo bem razoável – não era porque eles estavam preocupados comigo andando sozinha por aí, era porque eles queriam saber até que horas eu fiquei fora, o que eu fiz, com quem estive, etc.

Como julgá-los? Quem nunca disse um “me avisa quando chegar” que atire a primeira pedra. Eu já disse. E não foi só uma vez. E não foi só para um namorado. E nem sempre foi pelos motivos certos. Parece que quando estamos num relacionamento a dois, a necessidade de saber o que o outro anda fazendo fica latente,  como se isso fizesse alguma diferença. Como se não fosse muito simples se trancar no banheiro do bar, ligar bocejando, dizendo que está indo dormir e continuar na farra. É bonito fazer isso? Não, crianças, não é bonito. Se eu já fiz isso? Não, eu não fiz. Mas é possível que já tenham feito comigo. E se fizeram, foi bem feito pra mim. Se eu não tivesse pedido com intenções escusas, ninguém teria se sentido compelido a mentir. Óbvio que não estamos falando de mentirosos compulsivos aqui. Aí é outro caso. Mas isso fica pra outro texto.

Uma frase. Dois significados.

Você coloca um parente, um amigo ou até mesmo seu cônjuge dentro do táxi, se despede e diz “me avisa quando chegar”. Você está genuinamente preocupado se ele(a) chegará bem ao seu destino. Agora, sua namorada está saindo para uma festa com os amigos e você quer que ela avise quando chegar porque está preocupado? Ou está com ciúmes? Vamos ser francos. Seu namorado vai para a pelada de quarta-feira e você pede pra ele ligar quando voltar porque você quer ter o controle da relação ou dele, não porque você está interessada na quantidade de gols que ele consegue fazer.

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Uma frase. Três consequências.

Esse tipo de pedido pode gerar reações adversas. As mais comuns são as reações do tipos 1, 2 e 3.

Tipo 1 – o indivíduo se sente extremamente desconfortável com o pedido, tem vontade de negar, mas, diante da solicitação pretensiosa disfarçada de zelo, não consegue. E fica ainda mais irritado porque sabe que terá que dar satisfações fingindo que acredita que o pedido é bem intencionado.

Tipo 2 – o indivíduo identifica rapidamente que estão tentando controlá-lo, diz que vai avisar quando chegar e ignora solenemente o pedido. Depois diz que esqueceu, evita a fadiga e devolve com a mesma moeda a atitude dissimulada.

Tipo 3 – o indivíduo se sente querido e agradecido com a preocupação demonstrada por quem solicitou o pedido. Neste terceiro caso, podemos observar que a reação do tipo 3 ocorre em dois tipos de indivíduos: os dotados de ingenuidade ou os dotados de sensibilidade para detectar quando existe uma intenção boa de verdade.

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O apelo

Só peça para alguém te avisar quando chegar seja lá onde for se houver uma preocupação genuína. Se você pede isso por hábito, pare um pouquinho, descanse um pouquinho, 560km… (ok, só vai entender essa piada quem nasceu nos anos 80 ou antes). Agora, falando sério, pare, reflita e desvende a verdadeira intenção do seu pedido. Você pode descobrir que é um(a) controlador(a) de marca maior.

Se você acaba de se dar conta disso, temos aqui um trabalho para o seu super analista/terapeuta. O meu termina aqui. De nada. 😉

Até a próxima, amiguinhos!

Roberta Simoni

Controlar o incontrolável?

Eu queria ter o controle sobre muitas coisas nessa vida. Já até tive sobre algumas, sobre outras, no entanto, tive quase ou absolutamente nada.

Já controlei raiva, ciúmes, inveja, medo, e até o amor.

Tento constantemente controlar o desejo de comer chocolate. Tento, tento, tento…

Já controlei a vontade de bater, de beijar, de falar, de gritar, de calar, de telefonar, de atender, de ir, de vir. E já perdi o controle também. Às vezes foi bom controlar. Outras vezes foi melhor ainda nem tentar.

Já controlei o meu riso e o meu choro da mesma forma que já controlei o meu gozo e a minha tristeza: por poucos segundos. E senti um alívio profundo ao perder absolutamente o controle.

Não controlei a paixão porque não quis. Ou porque eu gostava de pensar que eu podia controlar. Não podia.

Controlei o amor porque eu quis poupar. Ou porque eu pensava que era amor. Não era.

Tentei controlar o raciocínio lógico e a inteligência emocional. Os impulsos e as expectativas também. Tentei.

Controlei frio com cobertor, calor com mergulho, sede com água, fome com comida e dor com analgésico.

Mas aí eu senti saudades suas…

Roberta Simoni

Pulando fora!

Caindo fora!

Que se danem as minhas inseguranças. Se são inseguras, que caiam, se machuquem, se quebrem e se partam ao meio. Que continuem confusas e atordoadas as minhas incertezas. Que se arrepiem inteiros e gritem de pavor os meus medos. Que arda, queime, corte e doa a dor que veio para ser sentida. Que se apertem, se empurrem e se atropelem de tanta ânsia essas ansiedades aflitas. Que se se ferrem, não estou nem aí. Estou pulando fora…

Se eu tento controlá-los, eles é que me controlam, é sempre assim. Então, eles que se virem sozinhos. Eu quero ver todo mundo se organizar por conta própria aí dentro, quero ver o circo pegar fogo… quero ver sobrar espaço pra todo mundo sem que eu tenha que colocar ordem nesse barraco, quero ver !!!

Aposto que a ansiedade vai ser a primeira a pular do barco, de todos, ela é a menos intolerante. A incerteza vai ficar no convés se decidindo se pula ou não pula. E o medo vai ficar falando pra ela: “você não vai ter coragem de fazer isso, vai?”. A dor vai perguntar ao medo: “Isso vai doer muito?” e o medo vai dizer: “Claro que vai. Essa água deve estar congelada e cheia de tubarões, além do mais, você não sabe nadar, e morrer afogado deve ser horrível”. A dor vai ficar entusiasmada e vai mergulhar de cabeça no mar, sem pensar duas vezes. A incerteza vai escutar a conversa do medo e da dor, e vai pensar: “se é tão incerto o que pode acontecer lá embaixo, então, lá é melhor do que aqui”, e finalmente decidirá pular. A insegurança só vai pular depois que vir os outros pulando. E o medo, que não queria pular de jeito nenhum, vai ficar apavorado quando perceber que ficou sozinho no barco, e vai pular também.

Você passa a vida inteira tentando controlar esse bando de sentimentos desocupados, que só servem para perturbar o juízo, quando não é um, é o outro e, às vezes, são todos ao mesmo tempo. Cada um a seu modo, tentando chamar mais atenção. E aí começa uma guerra de orgulho entre eles pra ver quem manda, quem é mais forte e mais poderoso, e você no meio, tentando separar a briga e acalmar os ânimos. Tenta fazer com que te ouçam e te obedeçam, mas é claro que todo mundo te ignora. E aí, você é quem passa a ser controlado por eles.

Mas, o que ninguém nos ensina e custamos a descobrir sozinhos é que os sentimentos podem até ser mais fortes e parecerem bem maiores, mas são totalmente dependentes de nós. Eles só crescem porque damos “casa, comida e roupa lavada”. E, em troca disso, eles nos controlam. Aí, se paramos de cuidar deles, eles não sabem como se virarem sozinhos.

Marmanjo vivendo na proa do meu barco sem pagar nada, e ainda querendo mandar no marujo e na tripulação toda, não dá, né? Francamente. Prefiro deixar o meu barco livre para as alegrias darem suas gargalhadas escandalosas sem que ninguém reclame, para os prazeres terem espaço para se esticarem e pegarem sol o dia inteiro e depois se atirarem no mar para se refrescarem, para o amor poder exclamar suas poesias sem que ninguém o chame de brega ou piegas, para a euforia poder preparar aqueles drinques deliciosos enquanto a paz toca Bossa Nova na sua velha viola. E quando decidirmos parar em alguma praia, a segurança vai poder escolher onde ancorar.

Roberta Simoni