Das vantagens de não ter tempo

Não, eu não morri, não fui sequestrada, nem abduzida… (agradeço aos queridos leitores preocupados de plantão!)

Cá estou, novamente, acelerada, como minha natureza exige que eu seja, ainda que eu relute com frequência. E trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, e depois, trabalho mais um pouquinho. E torço pro fim de semana chegar e quando ele chega, tenho o disparate de ficar feliz quando pinta algum trabalho freela. E lá vamos nós (Nikita e eu) para mais uma jornada. Tudo bem, a gente aguenta! – é o que sempre dizemos uma para a outra, mas, meus pés fazem questão de dizer o contrário depois de horas seguidas se equilibrando num detestável par de saltos altos. No fim do dia, eles que já não são belos, exibem bolhas nada sexy e calos nem um pouco atraentes. E a Nikita, bom… depois de não-sei-quantas-mil-fotos pediu arrego e me deixou a ver navios e o mar, tudo isso sem poder fotografar.

Tudo bem, sem desespero. Felizmente eu estou na fase “copo cheio”… e vocês bem sabem como eu sou quando teimo em enxergar o copo vazio, né? Não dá tempo pra lamentar muito por nada, maravilha! Então, agilidade, neguinha, agilidade!

Manda máquina para autorizada em São Paulo, corre atrás de máquina nova para comprar. Separa a roupa suja para levar na lavanderia mais próxima, sonha em se mudar pra um apartamento com área de serviço, mas não dá tempo de sonhar, compra o jornal, fuça os classificados, não acha nada que preste, fica mais um mês onde está. Torce para as roupas secarem logo porque acaba de saber que precisa arrumar as malas para viajar a trabalho nas próximas horas. Deseja escrever no blog, mas precisa escrever matérias, roteiros e uma peça de teatro. E trabalha, trabalha e trabalha. E estuda, ou tenta estudar, porque descobre que o italiano é bem mais fodone do que se pode imaginar, bambina!

Mas o copo tá lá, visivelmente cheio, sem espaço para o tempo. E o tempo que falta é ocupado e espaçoso, não deixa brechas para pensar muito em nada, e acaba tornando o peso de alguns problemas, que são do tamanho de um elefante, parecerem mais leves e menores do que uma formiga… não uma qualquer, mas aquela formiga de fogo, miudinha, avermelhada, cuja ferroada é dolorosa. E se vacilar, ela constrói um enorme formigueiro bem debaixo do seu nariz, dividindo espaço com as suas prioridades. Mas, ainda assim, formigas são menores que elefantes.

Das vantagens de não ter tempo, a maior é perceber que todo minuto se torna tão mais precioso e adorável que perdê-lo com lamentações se torna uma tremenda ofensa. E a poesia do cotidiano ainda está aqui, desfilando cheia de graça diante dos meus olhos, me fazendo criar rascunhos mentais que, qualquer dia desses, eu volto aqui para compartilhar…

Agora eu preciso mesmo correr, nao contra o tempo, mas a favor dele, tentando acompanhar o rítmo da música que ele tá botando para tocar agora. E dançamos juntos… dançamos, dançamos…

Volto… juro!

“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio…

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final.”

Roberta Simoni

O copo hoje está meio vazio.

Copo

Eu acho tão, tão, tão, mas tãããão legal ver que uma pessoa é otimista 100% do tempo. Mesmo, de coração. Admiro de verdade. Mas, por favor, não espere que eu seja também, porque isso está muito além das minhas limitações humanas.

Ok. Admito. Não estou num dos meus melhores dias, muito menos no dia mais otimista, e quando estou nesses dias, preciso ser extremamente estrategista. Número 1: procuro estar em contato com o menor número de pessoas possível. Número 2: se me perguntarem se estou bem, eu minto e digo que sim. Número 3: se me conhecerem bem e souberem que estou mentindo, evito falar sobre o que me aflige. Número 4: quando não consigo evitar de falar sobre o assunto, ou, se preciso desabafar, escolho aquele amigo com a porcentagem mais razoável de otimismo.

Eu já caí na besteira de conversar com “otimistas extremistas” em dias assim, e já cheguei a seguinte conclusão: eles não respeitam a falta de fé referente a nada. Não importa sobre o que seja a sua percepção pessimista, é inaceitável. Independente de ser um raciocínio coerente ou só um desabafo, é inadmissível ter uma opinião negativa, mesmo se esta for totalmente realista.

Sim, dias melhores virão. Pode ser só uma fase mesmo. De tudo é possível tirar alguma coisa positiva, mesmo que seja um aprendizado. Acreditar, ter esperança e fé é essencial. Não há mal que dure para sempre. Mas também não existe felicidade eterna.

E é por não existir felicidade eterna e plena que todo mundo tem o direito de esbravejar de vez em quando, de ficar chateado e descrente, de perder as esperanças de vista em algum momento da vida. E isso também não é compreensível, e merece respeito?

Eu ando colecionando frustrações, mas não são delas que me refiro. Conquistas e frustrações pessoais fazem parte do processo na vida de qualquer pessoa. Hoje eu estou exaurida, como se pudesse sentir o peso do mundo nas minhas costas, depois de um dia inteiro de notícias ruins, de conclusões drásticas e de ser testemunha de desgraças alheias. Caramba, o que está havendo com o mundo?

 Ufa! Como pesa existir!!!

Em dias assim, frases prontas de otimismo não fazem efeito algum, por mais que eu tenha conhecimento da veracidade delas, me causam apenas uma reação: irritação. Por isso, as estratégias se fazem tão necessárias nessas horas.

É o melhor para todos, “cada um no seu quadrado”, sem interferir no pensamento positivo alheio, ou na falta dele. E eu sigo duvidando do otimismo e pessimismo enquanto estados permanentes de humor. Às vezes você está, às vezes, não está. Ser ou não ser pessimista ou otimista requer um equilíbrio que raríssimas pessoas são capazes de alcançar.

E não, eu não perdi as esperanças no melhor. E mesmo quando o mundo resolve cair de uma vez só na minha cabeça, eu não fico esperando pelo pior. Só me sinto no direito de, por alguns instantes, emburrar a cara para o otimismo. Mas não demora nada e a gente faz as pazes…

Um copo com água pela metade, para você, está meio cheio, ou meio vazio? Dependendo da sua resposta, você pode estar pessimista ou otimista. Pra mim, o copo hoje está pela metade – mais para vazio.

Mas estou com sede, e bebo tudo…

Pessimismo x Otimismo

Roberta Simoni