Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni

Arco-Íris

arco-íris

Amigos leitores que olham por esta minha janela, perdoem esta blogueira por não ter aparecido por aqui na última semana nem para dar um alô. Lá estava eu com meus pés na estrada e a minha cabeça nas nuvens outra vez…

Inspirada em algumas das alegrias dos prazeres inofensivos que ajudaram a compor o meu post anterior, eu viajei só com a passagem de ida, vi o sol nascer na estrada e me senti como se estivesse no “camarote vip” do maior espetáculo de todos. Fui presenteada por dias intensos de sol, vi o sol se pondo na praia, subi no alto de uma pedra, abri os braços para ser abraçada por Deus e tive o privilégio de ver um lindo arco-íris.

Não sei há quanto tempo eu andava caçando um arco-íris, mas, parece que só agora eu estava no lugar certo e na hora certa. Eu não me importo com o “pote de ouro” que tem lá no final do arco-íris, eu só quero saciar os meus olhos da vontade imensa que eles sentem de ver colorido.

Adoro a poética do preto e branco. As minhas melhores fotografias têm tonalidades variantes do cinza. Adotei a filosofia do “preto no branco”. Gosto da claridade da luz do branco, e da clarividência que existe no preto. Mas as cores… ah, as cores… se não houvesse as cores tanta coisa perderia o sentido.

Se eu só pudesse ver o mundo em preto e branco, eu inventaria cores. Eu choraria rosa, sorriria branco, beijaria vermelho, abraçaria verde, falaria e escreveria azul, sentiria amarelo florescente, amaria cor-de-abóbora. Eu sentira revolta em roxo, ficaria triste em cinza, sentiria saudade em marrom, me apaixonaria em violeta…

Então tá decidido: se eu demorar muito tempo para ver o arco-íris outra vez, eu vou inventá-lo. E vou criar as cores no meu próprio céu, vou fazer desenhos com as minhas nuvens, vou pintar o sol quando a chuva não quiser parar, vou fazê-lo nascer e se pôr no meu coração, vou rabiscar estrelas na minha constelação, vou fazer balé com as cores, vou ensiná-las a dançar salsa, tango, bolero, zouk, samba, forró, e depois, vou aprender a dançar com elas…

Roberta Simoni