Quando os sonhos eram de pelúcia

Um urso de pelúcia do meu tamanho. Era o que eu queria para colocar dentro de um quarto onde eu mal cabia. Mesmo assim, espaço era o de menos. Onde eu arrumaria dinheiro para comprar um daqueles eu não sabia, mas lugar para colocar o sonho eu tinha.

Hoje me lembrei dele, do urso que eu nunca tive. E só agora, tantos anos mais velha, é que me dou conta da absoluta falta que ele nunca me fez e da diferença que ele jamais teria feito na minha vida. Foi vontade que deu e passou, como tantas outras, daquelas que se a gente não tem como realizar, só resta sentar e esperar ir embora. Aí, um dia, de repente, você lembra de um desejo desbotado, que de tão infantil se vestia da arrogância que lhe parecia e que hoje só parece coisa à toa, vontade boba, tão simples de realizar.

E agora existem outras vontades, as que simulam ingenuidade escondendo prepotência. Um dia com 30 horas para caber tudo dentro? Tempo para respirar? Histórias de amor para acreditar? Alguém para confiar as estrelas do seu céu? Reconhecimento pelos seus esforços, por serviços prestados? Boa vontade desinteressada? Acordar ao meio dia? Sobrar dinheiro no fim do mês? O problema é que a gente sempre se excede nos devaneios.

E o que fazer com essa necessidade estupidamente humana de não caber dentro do que deseja e de ter sonhos que não cabem dentro da casa pequena que construíram pra gente morar?

A gente simplesmente aprende a viver numa casa minúscula e a conviver com os sonhos que não tem preço.

Quando o meu quarto aumentou e eu descobri – não muito bem até hoje – o jeito suado de ganhar o meu dinheiro, meu urso de pelúcia se desfez, virou cinza de um sonho que morreu ainda tão moço para dar lugar a desejos mais espaçosos, e mesmo aqueles mais razoáveis, de tão improváveis, os mais tolos.

… Vontade de desejar um ursão de pelúcia de novo, aquele que de gigante virou miniatura de colocar na estante.

Fome de viver (ou pressa de comer…)

E essa fome que corrói o estômago? Não, não é fome de comida, mas corrói o estômago e todo o resto, mesmo assim.

Fome de riqueza de gestos, nobreza de palavras, experiências enriquecedoras, fome de viver… será que isso causa gastrite?!? Ou será que é culpa da minha alimentação desregrada? Talvez o estômago não seja a única coisa inflamada aqui dentro…

Essa minha mania de sempre querer mais me aborrece. Seria tudo tão mais simples se viver uma vida só de cada vez me bastasse. E quisera eu que os meus incontáveis desejos fossem todos compráveis. Eu daria um jeito, trabalharia dobrado, tentaria um empréstimo, venderia até a alma!

Eu ando tentando fazer as pazes comigo, tentando ser uma boa menina, simpática e agradável. Faço todo o possível para me mimar. Logo mais me prometi levar ao cinema, eu e as minhas vontades, nós duas, sozinhas. Também decidi me presentear com dois livros da minha “singela” lista de “próximos livros a serem lidos“. Ok, ok… também vou comprar mais um filminho…

Para o desgosto da minha conta bancária eu criei mais esse hábito: ter minha própria locadora em casa, repleta dos meus filmes favoritos. Porque, assim como tudo nessa minha vidinha metida à besta, assistir os melhores filmes uma única vez também não me sacia…

Mas, afinal, quando foi que eu já me senti saciada? Antes de continuar escrevendo eu parei por alguns minutos e tentei encontrar lá no fundo da memória um momento de satisfação plena… não achei nada. Talvez essas lembranças tenham se perdido quando eu nasci, porque eu aposto que enquanto feto, eu estava plenamente satisfeita, sem grandes planos para o futuro, sem desejos veementes. Ou não.

É mais provável que eu tenha sido um feto ansioso para nascer, louco para desbravar o mundo, para conhecer minha mãe, meu pai, minha irmã que sempre conversava comigo quando eu estava lá dentro daquela barriga apertada. Pode ser que eu mal tenha suportado todos aqueles meses de curiosidade, e o fato de eu ter nascido depressa, na presença de um único médico, sem a ajuda de enfermeiros, já é um forte indício da minha “pressa precoce”.

Sim, eu tenho pressa desde que me entendo por feto. Talvez desde que eu me entendo por sêmen…

E é exatamente do tamanho de um espermatozóide que eu me sinto perto dos meus desejos e comparada ao mundo que existe lá fora, pedindo para que eu o explore…

E hoje… hoje eu acordei mais faminta do que acordo de costume, com uma pressa maior do que os passos que as minhas pernas curtas e velozes são capazes de dar. E elas até tentaram me dizer que a vida pode esperar, mas eu sei que pernas não falam, e se falam, mentem, porque tudo que a vida não pode é esperar.

É tudo culpa desse meu velho vício de sonhar, que me faz contar as horas para chegar logo o dia em que eu estarei realizando tudo o que sonho agora, e quando esse dia chegar eu, muito provavelmente, estarei esperando ansiosa para degustar novos momentos que eu desejarei viver até lá.

Por isso, o quanto antes eu me acostumar com a minha alma roncando de fome, melhor. Porque o dia em que essa vontade toda passar, eu nem estarei mais aqui pra contar…

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni

Como Comprar ?

Por que será que é quando tenho tempo livre que surgem as idéias mais fantásticas da minha vida? Em apenas uma semana eu decidi vários destinos de viagem, descobri que preciso fazer diversos cursos e atividades físicas, fiz um planejamento profissional incrível, criei uma lista de livros que quero ler o mais rápido possível – e comprar, e ainda por cima fui ao shopping e descobri mais algumas coisas que “preciso ter para ser feliz”.

Uma vez uma amiga falou uma frase perto de mim, ao ver uma coisa que ela queria comprar, e eu nunca mais consegui achar nada que chagasse perto de expressar tão profunda e perfeitamente os meus desejos: “PRECISO DISSO PARA SER FELIZ AGOOOOORA !!!”

Pois é, o problema não é querer, muito menos querer com pressa, o problema é não ter como comprar, pelo menos agora.

Então, respondendo a pergunta que fiz no começo do texto, tenho algumas hipóteses:

1 – Tenho idéias fantásticas quando estou livre porque não tenho compromissos profissionais e nada de realmente importante a fazer.

2 – Porque quando estou sendo paga para trabalhar, não tenho tempo de sonhar, pois tudo que faço é trabalhar e depois colocar em prática o que é prioridade.

3 – Porque sou masoquista, já que estou desempregada e tudo que desejo fazer agora depende diretamente daqueles papeizinhos coloridos cheios de desenhos de bichinhos, também conhecido como dinheiro.

Nada contra os masoquistas, mas, pensando bem, sadismo não funciona muito bem comigo, portanto, enquanto eu não consigo um trabalho ou um “freela”, pelo menos, comprar é palavra proibida no meu vocabulário, e não encontrada no meu dicionário. Na verdade, eu nem sei o que é isso. O que? Heim? Comprar? Palavra estranha essa…

Em tempo: colegas fotógrafos e jornalistas de São Paulo, se precisarem do meu currículo, estamos aí. 😉

Roberta Simoni