Dialogando no Escuro

11986920_534492090037212_1941642039491381151_n

Quando o Mário Di Poi, meu amigo paulistano, me convidou para visitar a exposição “Diálogo no Escuro” e me contou que a INPUT Arte Sonora era responsável pela produção e instalação de som, fiquei animada. O trabalho desses caras é sempre incrível e eu sou fã de carteirinha do Alexandre Guerra, amigo querido, que foi quem compôs a trilha sonora da exposição.

Mas até aí tudo que eu sabia era que havia um dedinho do Alê e do Mário na exposição e isso já era um prenúncio de boa coisa, mas foi só quando cheguei no Museu Histórico Nacional e entrei na exposição é que comecei a ter uma vaga noção da experiência que eu viveria nos próximos minutos. Mesmo assim ainda era uma noção muito, mas muito vaga.

De antemão já digo que, de todas as exposições interativas que visitei até hoje, essa foi a que mais gostei e a que certamente nunca vou esquecer do que “vi”, impossíveis de fotografar e de registrar com a memória visual porque – como o nome da exposição já sugere – ela acontece toda no escuro e, na ausência do sentido da visão, os outros sentidos (especialmente o da audição e do tato) ficam apurados e viram os nossos “olhos”.

O conceito da exposição é mostrar como é o mundo sem o sentido da visão. Os visitantes são conduzidos por guias deficientes visuais através de salas totalmente escuras, em que cheiro, som, vento, temperatura e textura apresentam as características de ambientes cotidianos como parques, ruas, comércios e praias.

Durante 45 minutos a sensação é a de estar na pele de um deficiente visual. E o que eu achei mais emocionante durante o percurso foi ter confiado plenamente cada passo meu na voz da minha guia, que também não podia ver, mas já condicionada à cegueira, é capaz de enxergar no escuro tudo o que eu não consigo ver.

Dentre as várias sensações, reflexões e desafios que a exposição proporciona, a de sair da nossa zona de conforto para mergulhar num universo completamente novo é uma das mais ricas. Nessa inversão de papeis, somos nós que damos passos cegos num terreno desconhecido e que, no entanto, é o mundo comum dos nossos guias.

Logo que se entra no primeiro ambiente, mesmo com a possibilidade de se apoiar nas paredes e usar a bengala, a sensação de cegueira absoluta é um tanto angustiante. Nossos olhos aflitos ficam buscando algum ponto de luz para usarem como referência e, como não encontram, nossa audição toma o controle da situação e é a voz de quem nos guia que nos conforta e nos faz sentir seguros, além, é claro, da consciência de estarmos dentro de um ambiente especialmente projetado para que pessoas sem o menor traquejo consigam transitar no escuro em segurança.

Quando a angústia passa e nos sentimos mais à vontade no breu é que começamos, de fato, a dialogar no escuro. E é aí que a magia acontece.

A exposição já passou por vários lugares do mundo, esteve em São Paulo e está no Rio desde o começo de março e eu não teria ouvido falar a respeito dela se não fosse pelo envolvimento dos meus amigos na montagem. Tenho falado da exposição para todo mundo na intenção de divulgá-la, uma vez que não vejo divulgações pela cidade e considero uma experiência única e imperdível, tanto que repeti a dose ontem, com a desculpa de levar minha amiga Gabs para conhecer.

As duas visitas foram incríveis. Se a primeira foi mais emocionante pelo fator surpresa, a segunda foi mais interessante, pois já estando um pouco familiarizada com o ambiente, consegui prestar mais atenção nos detalhes e testar melhor meus sentidos. Cibele e Verônica, as duas moças que me guiaram durante minhas visitas, foram adoráveis (e pacientes, respondendo minhas perguntas, que não foram poucas) . Foi graças a elas também que o passeio foi tão prazeroso.

Mais do que isso não vou dizer pra não dar spoiler e para que você, que tá no Rio (ou que estará nos próximos meses) termine de ler esse texto e vá correndo viver essa experiência. A exposição fica na cidade até outubro, mas há um limite de visitas por dia, por isso os ingressos (R$12 – inteira) são vendidos antecipadamente. Mais detalhes aqui.

Acho difícil alguém sair daquelas salas escuras do mesmo jeito que entrou. Minha empatia natural por deficientes visuais só fez crescer. Mais do que enxergá-los com outros olhos, eu também passei a ver a vida sob uma perspectiva diferente (e eu não tô falando só da ótica visual). Além de sensibilizar e conscientizar, a exposição aproxima universos e quebra barreiras.

Mexeu comigo de um jeito que eu ainda não consigo descrever. Alcançou uma parte de mim que na claridade não dá pra ir porque é impossível encontrar o caminho. Um lugar que só se chega tateando o escuro. Uma paz que eu só encontro quando me perco.

Uma vez um moço fazedor de poesia, domador de palavras e notas musicais, de olhar inquieto e e gestos doces, passou por aqui e disse que meus olhos são como o breu. Talvez seja isso.

Roberta Simoni

Um café com gelo, por favor?

housewives-coffee-56-wmk

– Um café com uma pedra de gelo, por favor.

– Desculpa?

– Quero café e gelo, por favor.

– Minha senhora… nós não servimos café com gelo aqui.

– Não?

– Não. As opções que temos para acompanhar o café são: leite, açúcar ou adoçante.

– Vou querer açúcar… e gelo.

– Mas, minha senhora…

– Ok. Vamos começar de novo. Vocês servem café aqui, certo?

– Certo.

– E servem bebidas com gelo também, certo?

– Certo.

– Então por que eu não posso querer meu café com gelo?

– Porque não faz sentido.

– Sentido? Se você tem o café e tem o gelo e eu quero os dois juntos, qual o sentido de você não me servir?

– Não prefere um café gelado?

– Não. Gostaria muito mesmo de tomar um café bem quente… com uma pedra de gelo.

– Tudo bem, como quiser. Já trago.

O garçom se afasta para preparar o café de Laura. Por detrás do balcão, ela o vê cochichando com a garçonete, que olha na sua direção e dá uma risadinha sem graça quando percebe que ela os observa.  Alguns minutos depois, ele volta com seu pedido. Laura bebe seu café sob olhares de desconfiança e estranheza, coisa que não a incomoda nem um pouco. Já faz tempo que Laura deixou de se importar em fazer papel de louca.

– A conta, por favor.

– A senhora deseja mais alguma coisa?

Desejo. Na verdade, o café com gelo não funcionou como eu esperava. Eu preciso que você me arrume alguma coisa bem quente para me aquecer por dentro e outra bem gelada para esfriar a minha cabeça, você consegue? Daquelas que fazem o cérebro doer de tão congelantes, sabe? Só que eu preciso das duas coisas ao mesmo tempo: aquecer meu coração e esfriar a minha cabeça. – é o que Laura sente vontade de responder mas, na verdade, só diz:

– Não, obrigada.

– Posso incluir os 10%?

– Claro! Aproveita e inclui o café com gelo no cardápio de vocês. – brinca.

– Farei o possível senhora, afinal, o cliente tem sempre razão, não é?

– Olha, ter razão faz tanto sentido pra mim quanto o café com gelo faz para você.

Laura paga a conta e vai embora pensando sobre o quanto gostaria de trocar todo aquele monte de razões que vem acumulando a vida toda por um bocado da tranquilidade daqueles que desconhecem o peso do certo e errado. Laura não quer ser a mulher que faz a coisa certa, a cliente que tem razão. Laura quer cometer erros fantásticos e ter a cabeça fria e o coração aquecido. Mas sabe que isso é tipo café com gelo: simplesmente não funciona.  

Roberta Simoni

Eu, Frida.

“Pés, para quê os quero se tenho asas para voar?” (Frida Kahlo)

– Você não vê? Tem uma Frida Kahlo escondida aí dentro!

– Engraçado você citar a Frida, tenho pensado tanto nela ultimamente…

– Eu sei que você tem pensado na Frida. É óbvio.

– É óbvio?

– É. E mesmo assim você faz de conta que não entende. Então me perdoe se, às vezes, eu esbarro o dedo no seu cu e te incomodo, mas parece que você tá esperando um sinal dos céus e isso é muito engraçado.

– Então é isso? É divertido ficar me assistindo ser estúpida?

– É, muito! E é uma das coisas que me irritam em você e que eu gosto que me irrite. Eu quero te dar colinho mas quero enfiar o dedo no seu rabo para você sair do conforto do desconforto.

– Incrível como o desconforto pode ser mesmo tão confortável…

– Eu sei, e se eu hesito em lembrá-la do seu próprio tamanho é só porque eu só tenho a perder com isso, afinal… tudo indica que não sou o seu Diego Rivera. Mas aí talvez seja só bobagem minha.

– E por que não pode ser você o meu Rivera?

– Se pode ser só bobagem minha, então talvez não mereça que eu enumere os motivos.

– Odeio quando você é indireto…

– Eu sei.

– Numa hora dessas eu pegaria a sua cabeça e encheria de beijos.

– Encheria?

– Sim. Tudo para não ter que dar com ela contra a parede.

“Eu sofri dois acidentes graves na minha vida… Um em que um bonde bateu (…) e o outro foi Diego.” (Frida Kallo) 

Roberta Simoni

Penso, logo…

Enquanto isso, através dessa parede fina, eu ouço em alto e bom tom os dois duelando verbalmente e não consigo decidir qual deles tem mais razão, nem quem tem maior dom de persuasão…

– (…) Mas, por que perdeu o sentido?

– Porque perdeu.

– Vai me dizer que perdeu a graça também?

– É. Perdeu. A graça. O sentido. A razão de existir…

– Não dá para perder o que nunca se teve.

– O que eu nunca tive? Graça? Sentido? Razão de existir?

– Razão de existir, talvez. Essa sua mania de querer encontrar sentido em tudo é esquizofrenia, sabia?

– Não me diga? Virou psiquiatra agora? Então me diga, “doutor psiquê”: você nunca questiona o sentido de nada?

– Não precisa fazer sentido sempre.

– Existir basta?

– Quase. Viver é o suficiente.

– E qual a razão de existir quando não há nenhum sentido?

– Se eu me fizesse essa pergunta seria como você, viveria buscando a lógica da vida e esqueceria de viver.

– Não é verdade!!! É verdade??? Ok. É verdade.

– Você pensa demais…

– Você sente demais…

– Não se ocupe tanto procurando sentido pro que eu sinto!

– Eu faria isso se não fosse o seu cérebro. E você deveria agradecer e aproveitar que tem um para usar.

– Eu usaria e agradeceria depois, nessa ordem, se você fosse mais eficiente…

– Eu seria, se você me deixasse pensar melhor…

– Eu deixaria, se você não me impedisse de viver.

– Penso, logo existo. E quanto a você?

– Eu não penso, logo vivo.

– Ou vive tanto que, logo, não pensa…

– Ou isso.

(… e agora? Quem poderá me defender de um coração e um cérebro igualmente persuasivos?)

Roberta Simoni

Da série “Diálogos Emblemáticos II”

Aquele que nunca desiste: Nunca vou desistir de ter uma noite de amor, luxúria, sedução e conversas literárias com você.

Aquela que nunca cede: Pois deveria.

Aquele que nunca desiste: Olha, se você topar, ganha até um texto de brinde!

Aquela que nunca cede: Você tá tão acostumado a seduzir com sua escrita que fica me oferecendo literatura em troca de orgias.

Aquele que nunca desiste: E nem assim você pretende ceder às minhas investdias?

Aquela que nunca cede: Não!!! Você não presta!

Aquele que nunca desiste: Ah, eu queria poder dizer o mesmo…

Roberta Simoni