Caminhando ou divagando?

Caminhando Só

Eu finalmente me determinei a fazer caminhadas diárias. Determinação é uma característica que possuo e, ao mesmo tempo, não possuo. Sou determinada para fazer certas coisas que eu “duvide-ó-dó” que um bocado de gente faria, em contrapartida, admiro a determinação das pessoas para coisas aparentemente simples, mas que exigem – pelo menos de mim – um esforço descomunal.

Ter uma alimentação balanceada, fazer exercícios físicos, dormir cedo (leia-se, pelo menos, antes das 2h) e seguir uma rotina de horários e obrigações, sempre exigiram de mim uma força de vontade que acaba se esvaindo rapidamente. Determinação zero.

Na verdade, eu protelo, protelo, mas toda vez que começo a fazer caminhadas me sinto muito bem física e psicologicamente. Sempre arrumo algum foco para distrair o meu cérebro e acabo não sentindo o tempo passar, dando pouca importância para o cansaço físico.

Hoje, durante a minha caminhada, passei por diversas casas, mas o que me chamou a atenção desta vez não foi a arquitetura delas, o jardim ou os cachorros (desculpem-me, mas é inevitável observar aquilo que se gosta tanto…), o que me despertou interesse foram os moradores.

Era possível ouvir as risadas da esquina, mas só quando passei em frente à casa é que me certifiquei que se tratava do aniversário de alguma criança. Senti o cheiro do guaraná que elas tomavam, e me lembrei de como eram doces as festinhas de aniversário que os meus pais preparavam para mim.

Na casa ao lado, dois idosos estavam sentados na varanda, eles bebiam alguma coisa, e a mulher falava muito alto com o homem. Não sei se a velha estava bêbada, ou se precisava mesmo gritar para que o velho pudesse escutá-la. Vai ver ele era meio surdo… ou ela. Ou os dois.

Um pouco mais a frente, um casal de namorados discutia na porta de casa e, no final da rua, adolescentes ouviam música enquanto mexiam no som do carro, parado na porta de casa. Eles estavam num ânimo que não lembro sentir desde… desde… bom, desde a adolescência, provavelmente.

O interessante foi ver como na mesma rua tantas gerações e estilos diferentes de vida dividem espaço e vivem, cada um, sua rotina ao mesmo tempo. É também o que acontece com os condomínios e os apartamentos dos prédios: muitas vezes apenas uma parede divide vidas absolutamente opostas, só uma parede. Cimento e tijolos, nada mais.

Lembrei dos tempos em que morei em pensionatos e repúblicas da vida… lá nem existiam paredes para separar tantas rotinas diferentes, um quarto era capaz de suportar todas.

Pensar na minha privacidade e individualidade invadidas ou preservadas só por cimento e tijolos me deixou um tanto tensa, e foi inevitável pensar que todos nós vivemos em casulos e ninhos, exatamente como vivem os insetos e os bichos. Quanto mais eu tento identificar diferenças entre nós e eles, encontro mais semelhanças, impressionante!

Acredito que eles – ou a maior parte deles – não tenha esse tipo de consciência que estou tendo agora, e isso torna insuportavelmente irresistível um pensamento: é bem provável que nós também não tenhamos consciência das formas de vidas que existem por aí, mas nada impede que eles tenham consciência da nossa existência. Assim como observamos os insetos e os microorganismos (que consideramos irracionais), eles devem nos observar.

Por mais que vivamos organizados em paredes, casas, ruas, bairros, cidades, países e continentes, é tentador pensar que talvez também sejamos considerados seres irracionais para um outro tipo de espécie, da qual não fomos programados para entender, tampouco ter conhecimento.

Já pensaram nisso?

Ok. Parei. Mas juro que não fumei nada, nem cheirei, nem ingeri, nem apliquei.

Concordam que caminhar não deve se tornar uma rotina na minha vida? É pelo bem geral, estou avisando. 😉

Roberta Simoni

Divagando…

Leveza

Essa semana nós comemoramos o 83° aniversário do meu avô Paolo (vulgo Palolito). Italiano tem sangue forte, né? Seria efeito do vinho? Meu avô usa o inverno como desculpa para beber uma garrafa inteira de vinho toda noite. E sou tentada a dizer que, nos últimos tempos, ele tem dado um banho de vitalidade em mim e em muita gente por aí.

Durante a comemoração, pergunto se minha avó (que ainda nem chegou aos 70) quer comer um “petit gateau” e ela reponde: “O que? Investigador???”

Volto para casa pensando na porcentagem de chances que tenho de chegar à velhice como ela, ou igual ao meu avô. De hoje em diante, tomarei mais vinho. Tá decidido.

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lembram da ex-gatinha de rua Margot? Ganhou um pai-carioca-swing-sangue-bom, uma casa com quintal e tudo e, de brinde,  se livrou da mãe Felícia. E a Felícia aqui já está desesperada de saudades. Dane-se a cortina desfiada e a alergia. Quero minha felina de volta!

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Estou decidida a canonizar o Théo, meu cachorro. Eu deito na barriga dele, ele deixa. Eu aperto a bochecha dele, ele deixa. Eu encho ele de beijos, ele deixa. Eu abraço até ele ficar sem ar e ele deixa. Eu fico escrevendo até às 5h da manhã e ele fica comigo, caindo de tão trêbado de sono, mas se recusa a me deixar sozinha. Olho para ele e e sempre recebo de volta um olhar apaixonado, com aquela cara lânguida e o rabo balançando feito um ventilador ambulante.

Tenho pensando na gratuidade do amor canino e em como eu gostaria que as relações humanas fossem, ao menos, parecidas. Não digo todas, mas pelo menos as mais íntimas, aquelas que consideremos mais importantes. Ou, pelo menos, uma das partes considera.

Ontem comprovei a máxima que diz mais ou menos assim: “Quer ver se alguém é seu amigo? Procure-o na dificuldade”. Me surpreendi, pois diferente do que eu apostei, a amizade não passou no “teste”. Não é a primeira e, infelizmente, não será a última vez que sofrerei esse tipo de decepção, e eu sei que não sou a primeira nem serei a última a passar por coisa parecida. Mesmo assim, o coração sente tanto como se fosse.

Em contra partida, um amigo – meio amigo, meio anjo – aparece na porta da minha casa com violetas, bombons, abraços e sorrisos para mim. E nem precisava disso tudo. Bastava saber que ele existe.

Roberta Simoni