E se…?

Eu não posso dizer que estou curada, ainda é cedo para fazer tal afirmação. Sou como uma paciente em pleno tratamento que, frequentemente, têm recaídas. Mas garanto que já estive pior.

Já fui do tipo que não passava uma só hora do dia sem me questionar, começando sempre com a mesmíssima introdução barata e previsível: “mas, e se…”. E se eu tivesse ido, e se eu tivesse ficado, e se eu disser, e se eu calar…???

Ainda coloco “e se” em um monte de lugares e situações onde, definitivamente, eles não deveriam estar. Só que, hoje em dia, faço isso numa escala muito menor do que eu fazia antigamente. E se vocês estão esperando que eu diga que eu passei a olhar para frente, que eu aprendi com meus erros ou que eu evolui enquanto ser humano, sinto muito, estimados leitores, mas eu simplesmente fiquei mais preguiçosa.

Pensar sempre no que – e como – poderia ter sido se eu tivesse feito tal coisa de forma diferente, se eu tivesse escolhido ir por ali e não por aqui e coisa e tal, é mais exaustivo do que correr uma maratona. Tá certo que eu nunca corri nem sequer meia maratona, 5km foi a distância máxima que eu já alcancei (e morri de orgulho por isso!), mas posso afirmar que nada, nada demanda tanto gasto de energia quanto ficar remoendo o passado e temendo o futuro, como se fosse possível interferir em qualquer um dos dois.

Muito mal tenho algum domínio sobre o meu presente, o que dirá sobre o passado ou o futuro, mesmo assim ainda perco um tempo precioso tentando descobrir como teria sido  se eu não tivesse entrado naquele avião, se eu tivesse passado naquele concurso, se eu tivesse feito aquela outra faculdade, se eu não tivesse pedido demissão daquele emprego, se eu não tivesse me mudado, se eu tivesse ido embora, se eu tivesse dito sim e se tivesse dito não…

A gente tá sempre escolhendo, seja entre tomar sorvete de chocolate ou de baunilha, lanchar no MC Donald’s ou comer uma salada, casar ou comprar uma bicicleta, viajar ou juntar dinheiro… e não importa quais sejam as nossas escolhas, é bom que a gente acredite que foram as melhores, porque se tem uma coisa que nunca vai dar para saber é como teria sido se…

Dizem que tudo está escrito, que as coisas já estão todas determinadas e destinadas a acontecerem a partir do momento em que nascemos. E se isso for verdade? Então, no fundo, tudo isso é Deus brincando de deixar a gente acreditar que decide alguma coisa, só pra gente não se sentir tão impotente?

Taí mais um “e se” para se pensar. Taí mais um “e se” que eu não quero pensar agora…

Doutor, cadê meus remedinhos?

Roberta Simoni

Cabeça à prova de paredes!

Algo realmente mágico acontece quando você viaja, algo que se eu soubesse descrever eu já teria escrito esse texto há muito mais tempo. Continuo sem saber, mesmo assim escrevo, do mesmo jeito que viajei.

A vida, afinal, não é exatamente isso? Não saber e mesmo assim ir?

Quando eu era pequena (era?), eu batia com a cabeça na parede. Pois é. Eu mereço suportar todas as chacotas hoje por isso. Bastava ouvir um não e eu ia lá, engatinhando ou andando aos tropeços em direção à parede mais próxima, não importava qual fosse, eu mirava uma parede e simplesmente ia, sem medo de ser (in)feliz. Eu não lembro de nada disso, é claro, mas minha mãe conta que pensava que eu tinha problemas mentais. Eu, no lugar dela, teria certeza absoluta. Mesmo assim, ela quis se certificar. Chamou uma psiquiatra para avaliar o meu caso. A doutora passou o dia todo observando meu comportamento esquizofrênico, que ela diagnosticou como… esperteza. Malandragem pura e incurável.

Eu já tinha sacado que quando era contrariada ou repreendida, bastava ir em direção a uma parede que mamãe vinha correndo para tentar me impedir de criar mais um rombo na testa. A receita da doutora foi: deixa ela bater, não impeça da próxima vez.

Especialmente no dia em que minha mãe se preparou psicologicamente para me deixar quebrar a cara – literalmente – eu escolhi dar com ela (a minha cara, não a minha mãe) num muro chapiscado. Doeu. Sangrou. E mamãe não socorreu. Chorou de pena, mas não socorreu. Eu fui engatinhando para os pés dela e fiquei chorando, apontado para testa e dizendo: “xangui, mamãe, xangui…”. Ela conta que eu implorei por colo, por peito, por qualquer consolo, peloamordedeus! Até que cansei de chorar e dormi ali, nos pés dela. Só então ela me pegou no colo, cuidou da ferida e me colocou no berço. Conclusão: nunca mais cheguei com a cabeça perto de uma parede.

Mas como velhos hábitos nunca mudam, agora, na vida adulta, eu continuo dando com a cabeça na parede, só que metaforicamente, o que é bem pior, visto que não há mercúrio que sare a ferida e não tem mamãe por perto para socorrer.

A diferença entre a criança e a adulta é que a criança batia a cabeça quando contrariada e a adulta bate quando não sabe as respostas, ou seja, o tempo todo. Não sabe o que fazer, para onde ir, que decisão tomar. Mas se a vida é esse constante e eterno “não saber” o melhor a fazer é tirar minha cabeça da reta, já que sacudindo e dando com ela na parede as respostas não vão simplesmente pipocar como milho pulando na panela.

Depois de ler meu último texto contando sobre a minha viagem, um amigo comentou: “(…) É mais um belo capítulo na história da menina que foi para longe para poder ver algo que estava muito perto.”. Ele tinha toda razão. Ela também, quando disse: “viajou para poder se buscar!”

Eu precisei me afastar das paredes que a minha cabeça estava condicionada a bater. Viajei por quinze horas para bater a cabeça em paredes diferentes até perceber o que eu poderia ter notado aqui: não adianta. Minha cabeça é dura o suficiente para não ceder ao concreto e a parede não vai nem rachar, porque a vida é suficientemente resistente às minhas tentativas malcriadas para obter as respostas. Eu não vou enxergar um palmo diante do meu nariz se estiver com ele mirado na parede, bem como não vou conseguir vislumbrar nenhuma saída, nem as de emergência, sinalizadas com enormes placas vermelhas!

Felizmente eu não fiquei muito tempo batendo a cabeça dessa vez para encontrar o sentido em não saber. De nada. Não saber de nada é a parte mais divertida da viagem. Da vida, no geral, nem tanto. Normalmente é perturbador nunca saber. Aí o jeito é viajar, mesmo sem sair do lugar, porque não é a viagem em si que faz a diferença, mas o viajante.

Não é a Itália. Eu poderia ter escolhido Bangu como destino. É o trajeto, é a forma como eu vejo os lugares por onde passo. Eu vou ser sempre eu em qualquer lugar, – uma garota que dá com a cabeça (dura) na parede – disso não há como escapar. Aquela que atravessa o oceano cheia de dúvidas e volta sem nenhuma certeza. Só aquela certeza já antiga, a de que mesmo sem saber, ir é fundamental quando se quer chegar a algum lugar.

Roberta Simoni