Eu finjo que não sei e você finge que acredita

Entrei numa fase que aprecio muito e gostaria que acontecesse com mais frequência: estou emburrecendo.

Com a cabeça voltada para resolver questões práticas, tentando encontrar soluções imediatas para os problemas e os desafios que estão surgindo o tempo inteiro na vida profissional, no curto espaço de tempo que me sobra para viver minha vida pessoal e pensar com calma ou avaliar determinada situação que exige cautela, eu faço exatamente o contrário: não penso.

Não sei vocês, mas eu não consigo ser inteligente em muitos âmbitos ao mesmo tempo. Mentira! Eu sequer consigo ser inteligente em muitos âmbitos, o que dirá ao mesmo tempo. A parte do cérebro que demanda muita energia desfalca a outra, que fica inoperante por tempo indeterminado e eu, que não sou boba nem nada, me aproveito dessa falência racional temporária (temporária?) para ficar inconsequente.

Estou dedicando meus melhores neurônios para o trabalho, os neurônios preguiçosos e relapsos dormem enquanto os eficientes dão duro. Desde então eu parei de implicar com o meu cesto de roupa suja transbordando, com meus relacionamentos falidos, com o futuro dos filhos que eu ainda não tive e com a largura do meu quadril.

A burrice tem me deixado mais prática, leve e, principalmente, menos exigente. No fundo – e no raso também – é tudo muito simples. A gente é que complica, porque simplificar não faz parte da natureza humana.

Pensar demanda tempo e quanto mais tempo para pensar, mais complicada a vida parece. Complicada e assustadora. Mas se viver dá medo, viver sem correr riscos paralisa.

É claro que eu não quero esfolar minha cara no asfalto outra vez, mas sei que a vida pode me atropelar de novo, a qualquer momento, mesmo que eu olhe para todos os lados antes de atravessar a rua.

Então eu tô aqui, pulando o muro da sua casa sem saber se o cachorro tá solto ou se no seu quintal tem uma roseira cheia de espinhos, mas sei que você tá aí do outro lado. Tudo bem se eu arranhar minha coragem, o que não dá é para ficar do lado de cá do muro, da rua e da sua vida, te assistindo enquanto como pipoca doce, passando a mão na cabeça do meu medo.

Tudo bem andar desprovida de senso e esperteza, pelo menos eu voltei a andar. E eu ando mesmo sempre muito desprevenida, é bom que até combina com a minha fase desprovida de cérebro e também com as minhas sapatinhas poá e meu guarda-chuva de bolinhas, que eu nunca levo comigo, afinal, quem tá na chuva…

Preparo o seu café, forte e com açúcar, finjo que não sei que você vai embora antes de eu acordar, você finge que acredita e o nosso mundo se resume a noites de risadas e orgasmos múltiplos.

Roberta Simoni