Diário de uma viajante…

Mergulho no Rio Sucuri – MS / Foto: Sylvie Devalle

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” (Clarice Lispector)

Das lições aprendidas na última viagem:

– Ficar pendurado por uma corda pode se tão libertador quanto desesperador à certa altura;

– Rappel negativo, definitivamente, não é coisa de gente sã, e talvez isso explique o fato de eu ter gostado tanto;

– Não se deve olhar para baixo quando se está pendurado à 90 metros de altitude;

– Pular no abismo ganha um sentido muito maior quando deixa de ser apenas uma metáfora;

– Mergulhar no lago de uma caverna escura pode ser assustador, mas se você arrumar um pouco de coragem e uma lanterna, pode tornar-se a experiência mais mágica da sua vida;

– Ter medo faz parte do processo de tomar coragem. Ser paralisado pelo medo é que não faz;

– Não importa a profundidade do seu mergulho desde que você não deixe de mergulhar;

– Quanto mais cristalina a água, maior o prazer em se molhar por inteiro nela;

– Se você, assim como eu, ainda não aprendeu a voar, experimente mergulhar, ou simplesmente deixe seu corpo flutuar na água corrente de um rio. É a sensação mais próxima de pertencer asas;

– Nadar contra a correnteza cansa;

– O contato direto com a natureza é transformador;

– Nunca vá para o meio do mato com roupas escuras. Isso atrai todos os insetos do universo (ah, gente… como eu ia saber?);

– Beber água salobra dá piriri. Comer biscoito recheado e sanduba do “podrão” todos os dias também. Viajar com pouco dinheiro idem;

– Se você tem dinheiro, viaje. Se você tem pouco dinheiro, viaje. Se você não tem dinheiro nenhum, viaje mesmo assim;

– Nunca escolha seus parceiros de viagem pelo grau de parentesco ou tempo de amizade, mas pelas afinidades. Prefira aqueles que saibam ceder e, caso você não saiba fazer o mesmo, aprenda imediatamente. Ou viaje sozinho;

– Faça amizades por onde passar para ter sempre ótimas razões para voltar;

– Tenha alguém para sentir saudades todos os dias. Isso garante sua felicidade em voltar para casa, por melhor que esteja sendo sua viagem;

– Tenha alguém para sentir saudades de você. Alguém que te telefone para saber se você está bem e para te pedir para voltar logo… alguém que te espere ansioso(a) no aeroporto;

– Não espere uma oportunidade para viajar, crie a sua você mesmo;

– Tenha bons motivos para ir e motivos melhores ainda para voltar. Se você não os tiver, arrume;

– O Brasil é o lugar mais lindo para se conhecer no mundo, Mato Grosso do Sul é um dos lugares mais impressionantes do Brasil e a cidade de Bonito deveria se chamar Lindo;

– Registre tudo. Seja por fotos, vídeos ou diários de viagem. Tão bom quanto viver cada experiência nova, é poder relembrar depois. Recordar é quase reviver;

– Mova-se. Arrisque-se. Pule. Mergulhe. Voe. Vá. Se atire na vida;

– Realizar um sonho é tão bom quanto parece ser;

– Nada, nada expande tanto a sua cabeça e a sua alma quanto viajar;

– Poucas, pouquíssimas pessoas sabem viver a vida. E existe uma grande chance de você se sentir uma dessas pessoas raras se você colocar uma mochila nas costas e meter o pé na estrada sem hesitar.

Roberta Simoni

Montanha Russa

Montanha Russa

Nesses últimos tempos em que estive ausente do blog – e quase morri de saudades, por sinal – eu meti os meus pés na estrada (do jeito que eles gostam de estar…) e estive em muitos lugares, com muitas pessoas. Pessoas que eu tinha que conhecer nesse percurso, pessoas que eu precisava rever, caminhos que eu precisava percorrer, experiências que eu tinha que viver, amigos que eu queria muito abraçar, minha família que eu queria ver de perto como estava, sorrisos que eu precisava distribuir, e outros tantos que eu esperava ganhar há alguns longos meses…

Mais do que colocar meus pés na estrada, eu embarquei numa montanha russa de emoções, apesar de morrer de medo desse brinquedo. Ainda viajei sentada na primeira fileira, sentindo um enorme frio na barriga e o vento batendo na cara, ficando de cabeça para baixo e completamente descabelada.

Vivi uma infinidade de coisas, todas ao mesmo tempo, e agora que a montanha russa estacionou, eu ainda estou cambaleando para me levantar da cadeira, e saio completamente tonta e desorientada.

Felizmente meu estômago tem se comportado feito um rapazinho e não está me deixando sentir náuseas. Ao menos meu corpo, apesar de cansado, está intacto, agora é só consertar a minha cabeça  – se é que isso é possível, no meu caso – e, quem sabe, finalmente aprender a ter senso de direção, porque eu estou pior do que cego em tiroteio que acabou de sair da montanha russa.

Só sei que todas essas sensações me trazem uma certeza: a de que eu estou bem viva, obrigada. E sentir a vida é um privilégio e tanto, a gente sabe disso.

Roberta Simoni