Existo, logo penso.

Acordar nas manhãs de inverno tem sido uma tarefa árdua. De uns tempos pra cá, o inverno resolveu passar pelo Rio de Janeiro e isso muito me agrada, mas não muda o fato de ser extremamente difícil sair da cama, menos pelo frio e mais pelo sacrifício de desgrudar os meus pés dos dele. Daí penso em quem dorme sozinho – e na rua. E faço o que posso, doou o que consigo. Mas continuo pensando. Eu penso demais. E penso que não tenho conseguido escrever. Bem na verdade, eu sequer tenho tentado. E eu não vou dar as mesmas desculpas de sempre: acúmulo de trabalho, falta de tempo ou excesso de preguiça. Apesar de tudo ter fundamento, nada se encaixa em uma justificativa decente.

Então eu ando lendo para compensar. Diversos livros ao mesmo tempo, sem grandes esperanças de terminar qualquer um deles. Misturando os personagens, confundindo as tramas, colocando figurante na trama principal e protagonista na trama secundária. E como é de se esperar, eu nunca fico restrita à Literatura, pois domino, como ninguém, a arte de imitar a arte (com o perdão da redundância).

Só que chega um momento em que você simplesmente não consegue mais dar nenhum passo sem antes escrever. Pois. O meu chegou. A obra do banheiro. A parede pintada pela metade. O pedreiro que entupiu a tubulação e nunca mais atendeu o celular. A carteira de motorista vencida. As unhas quebradas. A louça acumulada. O computador com defeito. O livro eternamente-quase-pronto. O limite do cheque especial estourado. Pois bem. Se até cinco minutos atrás nada disso podia esperar, agora pode. Sim, porque eu preciso escrever, de forma tão vital quanto levantar da cama nessas manhãs de inverno.

Minha vida se transformou num enorme cobertor de adiamentos, com o qual eu venho aproveitando o frio para me cobrir até o pescoço. E quando, porventura, eu consigo dormir, não consigo escapar de sonhos tremendamente insólitos. Dia desses sonhei que estava preenchendo um formulário para me converter ao diabo, coisa que não aconteceu porque, ao ler o formulário, achei muito enfadonho e fiquei com preguiça de terminar. Devolvi a papelada à secretária do “coisa ruim” (sim, no meu sonho ele tinha até secretária executiva) e fui embora, sem fazer a menor cerimônia.

macaco pensando

– Sua cabeça nunca para? Nem quando você está dormindo? – é o que ouço quase todas as manhãs, quando relato meus sonhos para ele!

– Não, por que? A sua para?

– Sim, nesse exato momento, por exemplo, não estou pensando em absolutamente nada.

– Claro que está. Você está pensando em me dizer isso que me disse agora.

– Mas eu sou capaz de não pensar em nada se eu não quiser pensar.

– E eu sou capaz de invejá-lo por isso.

Muitas vezes, se não escrevo não é porque minha mente está vazia, é porque, ao contrário, ela está sofrendo de super lotação.

E dentre todos os fatos com os quais eu tenho que lidar, alguns estão ganhando destaque no dia de hoje. Entre eles: tenho um pai extremamente inteligente e cético mas que, no entanto, acredita em correntes e de vez em quando as encaminha para mim, mesmo sabendo que sou quase tão cética quanto ele; tenho uma mãe cuja doçura, sabedoria e parceria eu jamais encontrarei igual em mais ninguém nessa vida e que, no entanto, come berinjela com prazer, faz academia com afinco e garante se sentir feliz educando adolescentes; tenho uma avó dessas que a gente só vê nos contos de fada ou em comercial de margarina e que, além de tudo, é a melhor cozinheira que já tive o prazer de conhecer, mas nem assim me entusiasmo a aprender uma receita com ela, coisa que provavelmente eu darei tudo para conseguir quando eu já não puder mais.

Preciso lidar com o fato de que sonhar com aquele sofá roxo e aquela estante enorme cheia de livros não vai mudar o fato de eu ainda não ter dinheiro para comprá-los; que as melhores coisas são, normalmente, as mais caras também; que só porque chocolate é o alimento mais saboroso que eu já provei, não significa que eu possa fazer dele a minha refeição principal e que não cozinhar significa ter que gastar numa refeição fora de casa o que se gastaria numa compra semanal no supermercado ou, dependendo do restaurante, mensal.

Que eu tinha razão quando tentei adiar a todo custo a minha passagem para a vida adulta, mas que, no fim, ela nem é assim tão diferente da infância quando vista pelo prisma das obrigações. Só o que muda, na verdade, são os tipos de obrigações e quem as dita.

Que rapadura é doce, mas não é mole, não.

E que nada, nada muda o fato de eu continuar pensando demais, bem mais do que o recomendado pelo Ministério da Saúde. Nem mesmo jantar uma barra de chocolate, comprar um sofá roxo ou voltar a escrever.

Roberta Simoni

Existindo…

Existir

Sou do tipo que conversa com cachorros de rua. Tenho um filho canino chamado Theo e não tive ainda nenhum filho da mesma espécie que eu… ainda!  Numa terra distante, sem ser planejada, por culpa da tabelinha, uma criatura de cabeleira arrepiada chegava ao mundo, era eu: cabofriense, “carioca da clara”, brasileira e, até que provem o contrário, terráquea, pois já me garantiram que eu sou de Vênus.

Meu signo era leão, até descobrirem que sou, na verdade, canceriana, revelação que  não mudou drasticamente a minha vida. Não sou paciente. Sou chocólatra. Provavelmente sou a única pessoa que você conhece que esteve em Paris e não foi à Torre Eiffel. Sou neta de italiano, adoro qualquer tipo de massa. Acho vinho pra lá de chique, mas fico grogue fácil. Sou irmã caçula. Filha de Paulo, Beth e, à contra gosto deles, também sou filha do mundo.

Não gosto de frescura. Sou prática quase sempre. Demasiadamente sincera. Estupidamente humana. Moderna e antiquada ao mesmo tempo. Ainda não me acostumei a ter que usar um celular, nem sei se um dia vou. Me deleito lendo Milan Kundera, Julio Cortázar, Marçal Aquino. Sou fã inveterada de mulheres como Hilda Hilst e Clarice Lispector. Apaixonada por Literatura.

Já quebrei meus braços algumas – ok, muitas! – vezes. Tive uma infância fantástica, cresci na beira da praia, corri descalça nas ruas, subi em árvores, pulei muros, brinquei pouco de boneca, sempre fui moleca.

Odeio ficar ansiosa, coisa que acontece com uma frequência considerável. Adoro feijão preto. Acordar é o momento mais difícil do dia, dormir mais ainda. Tenho horror de baratas, e estou certa de que elas planejam secretamente dominar o mundo. Já morei em repúblicas e pensionatos. Fui radialista e comentarista de futebol, mesmo sem entender, até hoje, a regra do impedimento.

Às vezes acordo meio “Amélie Poulian”, achando que a vida é uma fábula. Adoro uma hipérbole. Sou hiperativa e notívaga. A insônia é minha namorada. Sou beijada por palavras, acariciada por cartas, e assumidamente promíscua com livros. Não sei dançar, mas danço. Não sei cantar, mas canto. Não gosto de morno, ou é quente ou gelado. Ser intensa não é escolha, é característica. Gafe é o meu sobrenome e, Beta, quase um nome.

Tenho espasmos de alegria, especialmente a alegria dos prazeres inofensivos. Não suporto a economia de gestos. Assim como Vinícius de Moraes, já rasguei poemas, amores e horizontes. Fiquei simples, sem fontes. Prefiro um verbo a um substantivo. Algumas vezes sinto fadiga existencial. Vivo minhas tragédias e conquistas de natureza pessoal. Sou a própria nostalgia. Já me olhei no espelho chorando. Por vezes carreguei minha alma no bolso. E apesar de toda essa minha verborragia incorrigível, continuo me sentindo incapaz de descrever-me.

Roberta Simoni