A vida real para qual eu não sirvo

Uma vez recebi uma mensagem anônima de alguém que nutria sentimentos poucos nobres por mim. A mensagem chegou através de um extinto site de fotos onde eu tinha uma conta, anos atrás. A foto que provocou a ira do “odiador anônimo” em questão era uma foto comum, onde eu aparecia feliz e radiante, num inofensivo passeio ao zoológico. Eu não lembro mais as ofensas destiladas e, felizmente, esqueci todos os xingamentos, mas um trecho daquela mensagem me marcaria para sempre: “você brinca de faz-de-conta, pensa que a vida é um conto de fadas, mas você é uma mentira…”. Puxa! E eu achando que disfarçava bem…

Sou obrigada a concordar: eu sou uma farsa. E dessas bem fajutas. Quantas vezes eu penso e ajo como se a vida fosse um conto de fadas? Verdade seja dita: eu me encaixo muito melhor no meu mundo imaginário do que no mundo real. Não sou tão boa em viver quanto sou em fantasiar e uma parcela dessa culpa eu deposito na conta da Disney, mas é uma parcela pequena, a maior parte eu invisto no meu fundo de rendimento imaginário fixo, pessoal e intransferível.

Gabi e Kathe, minhas amigas que, assim como eu, leram muitas histórias e assistiram a muitos filmes da Disney na infância, defendem a teoria de que todas as desgraças que vivemos hoje é culpa da Disney, com suas histórias de amor envolvendo principes desencantados e sofredoras princesas passivas. Pensamos até em mover um processo contra eles num futuro bem próximo. Enquanto isso, vamos tentando nos livrar da Síndrome da Disney que nos acompanha até hoje, na vida adulta.

Adulta? Se for parar para avaliar bem, eu só brinco de ter uma, porque eu basicamente não presto pra nada que envolva a vida adulta, ainda que eu desempenhe com louvor minhas tarefas de provedora da casa, embora eu more sozinha e não tenha nenhum dependente, nem mesmo de espécie animal ou vegetal. Pago meu aluguel, minha luz, minha internet e o meu gás (para o caso de precisar fritar um ovo ou ferver uma água para fazer um miojo semestralmente…), ainda coloco comida em casa, compro a roupa que visto e saio para trabalhar, mesmo quando doente. Sou uma exímia dona de mim mesma. Ou, pelo menos é o que tento me convencer, até que uma dor de cabeça aguda me persegue por 3 dias seguidos e eu me nego a procurar um médico e só percebo que estou tomando remédio vencido 48 horas depois, ou quando a minha geladeira pifa, meu chuveiro queima e o meu ralo entope e eu fico completamente perdida.

Conclusão: minhas habilidades práticas são nulas, especialmente quando há questões burocráticas envolvidas. Assumo minha completa falta de talento para lidar com qualquer coisa que requeira ir à prefeitura ou a qualquer outro órgão público, consultar um advogado, recorrer à justiça, agilizar um documento, falar com o meu gerente do banco, conseguir uma assinatura. Todas essas expressões, inclusive, sempre que proferidas, me fazem agonizar como se eu estivesse diante de um monstro gigante cheio dentes e  tentáculos enormes tentando me engolir viva.

E mesmo quando é menos, vira mais, eu travo… fazer um simples telefonema, por exemplo, pode se transformar num drama equivalente a um parto normal. De gêmeos. Se escrever uma carta ou enviar um e-mail forem opções viáveis, eu jamais chegarei perto de um telefone. J-a-m-a-i-s. A palavra escrita sempre foi minha melhor forma de expressão e isso também demonstra minha total falta de tato para lidar com determinadas pessoas em determinadas situações, especialmente se o contato for feito por razão de qualquer tipo de pedido de ajuda ou favor.

Meu banheiro está esperando uma obra que nunca vem, minha descarga quebrada está à espera do encanador que eu prometi que viria na semana que vem… que já veio há 3 semanas. E minha mãe, toda vez que me liga, me cobra o telefonema que eu ainda não fiz para a secretária daquela médica para tentar me encaixar num horário da agenda super disputada dela.

Aliás, eu também não presto para nada que seja disputado: médicos, mesas de restaurantes, festas, homens…

E o pior dessa minha total falta de serventia para o mundo real e para a vida adulta é que eu não sei fingir que sirvo, e mais: não quero fingir. Eu também não presto para isso: fingir. E eu estaria sendo leviana se dissesse que gostaria de prestar para qualquer uma dessas coisas que envolvem o mundo real, cheio dessas inconvenientes Realidades que começam com a letra “R” de Ruim.

Eu queria mesmo era que não prestar para nada disso prestasse para alguma coisa.

Roberta Simoni

Faz de Conta

MeninaEla que gostava de ser criança, e mesmo depois de ter tornado-se mulher, não queria deixar morrer a menina que existia nela. Que gostava de brincar de faz de conta, e fazia de conta que era uma princesa, que a casa em que morava era um castelo, e ficava perto das nuvens.

Às vezes ela cansava de ser princesa, e simplesmente fazia de conta que já era adulta, mãe, secretária, atriz, médica… Quando de castigo, aproveitava o tempo para planejar a sua fuga do próximo castigo, ou até mesmo de casa, ou da escola, quando se via muito contrariada.

Tinha medo de bruxas e fantasmas, mas nunca levou muita fé no bicho papão, achava até graça nele. Gostava de abrir a porta e sair andando sobre as nuvens, de colher algodão doce no jardim de casa, de conversar com as fadas, colecionava estrelas, e todo dia antes do sol ir embora ela pegava um pedacinho dele e guardava dentro de si, para não ficar no escuro, no caso dele não aparecer no dia seguinte.

Eram tantos desejos e sonhos que se fosse escrevê-los num papel, ela faria uma listinha, e mesmo assim não caberia. Ela que aprendeu a rezar todos os dias antes de dormir, hoje mal se lembra de de como são feitas as orações.

Hoje ela acordou e observou-se no espelho por alguns minutos, passou a mão pelos cabelos, lembrou da menina que foi, tocou-se nos seios, sorriu, mas achou novas rugas, procurou a menina e não mais a encontrou. Sentiu-se assassina de si mesma, afinal, o que ela havia feito com a garota colecionadora de estrelas?

Os sonhos que sequer cabiam numa folha de papel, nem na sua memória habitam mais, as novas metas e o planejamento financeiro ocuparam o lugar que foi deles um dia. Sem perceber, ela deixou de guardar dentro dela o pedacinho de sol que ela pegava todos os dias, e o espaço que a luz do sol ocupava ficou escuro, dando espaço às inseguranças e aos anseios. As fadas, coitadas, essas ficaram falando sozinhas por tanto tempo, que foram procurar outra amiga. Parou de comer doce porque engorda, e as dietas só serviram para secar os jardins de algodão doce que ela tinha.

Mas, os medos, ah… esses ela ainda tinha. Só que os fantasmas ganharam uma nova forma e as bruxas, bom, essas não eram tão feias quanto as que ela tinha medo quando pequena. Nada de chapéus pontiagudos, vassouras e narizes cheios de verrugas, em compensação, ela passou a conviver com bruxas de todos os sexos e aprendeu que elas sempre aparecem usando máscaras belíssimas.

Ser adulta não é, nem de longe, o que ela imaginou, mas, afinal, não é de todo mal. Ela não fica mais de castigo, nem precisa gastar energia tentando fugir, não deve obediência a mais ninguém, e, além do mais, tem uma coisa que não tinha quando menina, e nem sonhava que existia: orgasmos !!!

Nem tudo está perdido, e sabe do que mais? Ela ainda pode ser criança. Na verdade, a menina não morreu, é verdade que na maior parte do tempo, fica escondida, mas, é que ela gosta de brincar de “esconde-esconde”, porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, a mulher que ela habita sentirá falta da garotinha, da princesa que mora no castelo arranha-céu, e ela irá até lá procurá-la, e quando se encontrarem, vão brincar de faz de conta outra vez, e por algumas horas, vão fazer de conta que ela não é adulta, que não há horários, contas a pagar, nem compromissos, que fantasmas e bruxas não existem, vão comer muitos algodões doces e fazer de conta que não existem calorias , e depois vão correr pelas nuvens. Sim, elas têm pressa, pois precisam recuperar os sonhos que ficaram perdidos por lá…

Roberta Simoni