Encosto de Beauvoir

Simone de Beauvoir, fotografada por Art Shay – 1952

Acordei hoje pensando em Simone de Beauvoir… atrasada, é claro. Dois segundos depois já tinha me esquecido dela porque fiquei calculando o tempo que levaria para tomar banho, escovar os dentes, me arrumar, engolir o café, estender a roupa no varal e sair correndo. Fiz tudo isso com uma agilidade impressionante, a mesma que eu gostaria de ter quando não estou atrasada.

Mas antes de entrar no banho, parei em frente ao espelho do banheiro e fiquei ali, nua, me olhando enquanto eu prendia o cabelo. Lembrei de Beauvoir de novo, na verdade lembrei da foto enigmática tirada pelo fotógrafo Art Shayem Chicago, na década de 50. Art era amigo do escritor Nelson Algren, o amante de Simone na época. O fotógrafo viu a escritora nua pela porta entreaberta do banheiro, sacou a máquina do bolso e fez as fotos sem Simone ver. Quando ela escutou os cliques, só disse: “Você é um rapaz malvado!” e continuou se arrumando, sem se importar. Na época, Simone tinha 42 anos e ainda não era a filósofa hoje reconhecida mundialmente. Para o fotógrafo, ela era apenas a amante clandestina do seu amigo.

Duvido que Beauvoir enquanto amante, escritora, filosofa ou feminista se importaria com sua nudez exposta. Duvido também que estivesse levantando qualquer bandeira com aquele ato. Ela apenas estava ali, sendo mulher, sendo ela. Sendo a mulher atípica que era para a época que vivia. A mulher que tinha um relacionamento aberto com o também filósofo Jean-Paul Sartre e escandalizava a sociedade por rejeitar os rótulos e optar por ser livre, inclusive da condição de esposa e mãe de família.

Mas, não… não é só por admiração que eu estou escrevendo sobre Beauvoir, nem é por ter ou querer ter um estilo de vida parecido com o dela. É exatamente por não fazer a menor ideia que eu estou escrevendo, pra ver se eu entendo porque eu estou com o encosto de Beauvoir hoje, lembrando e pensando nela como se fôssemos amigas de longas datas…

Talvez muito do que eu viva hoje com naturalidade seja graças à mulheres como Simone foram um dia, talvez isso explique meus pensamentos insistentes nela, talvez seja hora de conhecer melhor sua obra. Talvez, talvez… talvez seja só essa minha vontade antiga de ser, e só ser, que me defrontou no espelho hoje de manhã, diante de Simone me desafiando: “Do que você tem medo?”

Tenho medo que os meus seios caiam antes do amor da minha vida aparecer na porta do banheiro me contando como foi o seu dia. E de passar a vida escrevendo um monte de besteiras. E de continuar sem tempo para telefonar para a minha mãe. De parar de achar graça de mim quando eu erro. De envelhecer cometendo os mesmos erros tolos e repetindo os mesmos discursos enfadonhos. Mas não são os meus medos que me incomodam agora, Simone… de tudo, o pior é continuar transgredindo. Eu pensei que, perto dos trinta, eu pararia com essa mania. Mas parece que estou ficando cada vez mais parecida com você e, sinceramente, não sei se gosto disso.

Você foi o maior símbolo da classe feminista e o seu relacionamento com Sartre é, até hoje, referenciado como amor ideal. Não pra mim, desculpa. Tá, eu acho legal essa coisa de verdade e liberdade a todo custo, mas acho um saco também essa coisa toda de ideal. Amor ideal. Relacionamento ideal. Mulher ideal. Vida ideal. Você também achava, eu sei. Certa vez você declarou que se irritava com a aprovação ou a censura das relações que você estabelecia na sua vida. Pois, acredite, até hoje isso ainda acontece e também me aborrece.

Se Sartre e Beauvoir eram poligâmicos, revolucionários, libertários ou libertinos, não me importa. Se Simone intercalava amantes enquanto se relacionava com Sartre, me importa menos ainda. De verdade, no momento eu não estou interessada no que Simone foi ou deixou de ser. Descobrir por que ela anda me assombrando me deixaria satisfeita por ora.

Setembro começou com mais questionamentos, mais pressa e mais trabalho do que deveria, menos tempo e sexo do que eu gostaria. E, pra piorar, Simone aqui no meu cangote, dizendo que tudo bem se eu passar o resto da vida assim, morando de aluguel numa quitinete, escrevendo projetos e livros (e projetos de livros), e que tá tudo certo em não ter relacionamentos estáveis, nem com o meu cachorro, que da próxima vez que me vir, provavelmente não vai mais me reconhecer. Tudo bem eu trabalhar feito uma desesperada, já que, afinal, não tenho marido, filhos, gatos ou plantas precisando dos meus cuidados em casa. Claro, claro…

Intelectualóide de quitinete. Escritora esfomeada. Ghost writer. Repórter de botequim. Jornalista de beira de estrada. Filha desaparecida. Solteirona não convicta. Tia coruja. Feminista cansada. Degustadora de cheeseburger e bolinho Ana Maria. Dona de casa rebelde. Amiga imaginária. Mulher-independente-dependente-de-carinho. Cadê o glamour, Beauvoir? Cadê?

Roberta Simoni

Caminhando ou divagando?

Caminhando Só

Eu finalmente me determinei a fazer caminhadas diárias. Determinação é uma característica que possuo e, ao mesmo tempo, não possuo. Sou determinada para fazer certas coisas que eu “duvide-ó-dó” que um bocado de gente faria, em contrapartida, admiro a determinação das pessoas para coisas aparentemente simples, mas que exigem – pelo menos de mim – um esforço descomunal.

Ter uma alimentação balanceada, fazer exercícios físicos, dormir cedo (leia-se, pelo menos, antes das 2h) e seguir uma rotina de horários e obrigações, sempre exigiram de mim uma força de vontade que acaba se esvaindo rapidamente. Determinação zero.

Na verdade, eu protelo, protelo, mas toda vez que começo a fazer caminhadas me sinto muito bem física e psicologicamente. Sempre arrumo algum foco para distrair o meu cérebro e acabo não sentindo o tempo passar, dando pouca importância para o cansaço físico.

Hoje, durante a minha caminhada, passei por diversas casas, mas o que me chamou a atenção desta vez não foi a arquitetura delas, o jardim ou os cachorros (desculpem-me, mas é inevitável observar aquilo que se gosta tanto…), o que me despertou interesse foram os moradores.

Era possível ouvir as risadas da esquina, mas só quando passei em frente à casa é que me certifiquei que se tratava do aniversário de alguma criança. Senti o cheiro do guaraná que elas tomavam, e me lembrei de como eram doces as festinhas de aniversário que os meus pais preparavam para mim.

Na casa ao lado, dois idosos estavam sentados na varanda, eles bebiam alguma coisa, e a mulher falava muito alto com o homem. Não sei se a velha estava bêbada, ou se precisava mesmo gritar para que o velho pudesse escutá-la. Vai ver ele era meio surdo… ou ela. Ou os dois.

Um pouco mais a frente, um casal de namorados discutia na porta de casa e, no final da rua, adolescentes ouviam música enquanto mexiam no som do carro, parado na porta de casa. Eles estavam num ânimo que não lembro sentir desde… desde… bom, desde a adolescência, provavelmente.

O interessante foi ver como na mesma rua tantas gerações e estilos diferentes de vida dividem espaço e vivem, cada um, sua rotina ao mesmo tempo. É também o que acontece com os condomínios e os apartamentos dos prédios: muitas vezes apenas uma parede divide vidas absolutamente opostas, só uma parede. Cimento e tijolos, nada mais.

Lembrei dos tempos em que morei em pensionatos e repúblicas da vida… lá nem existiam paredes para separar tantas rotinas diferentes, um quarto era capaz de suportar todas.

Pensar na minha privacidade e individualidade invadidas ou preservadas só por cimento e tijolos me deixou um tanto tensa, e foi inevitável pensar que todos nós vivemos em casulos e ninhos, exatamente como vivem os insetos e os bichos. Quanto mais eu tento identificar diferenças entre nós e eles, encontro mais semelhanças, impressionante!

Acredito que eles – ou a maior parte deles – não tenha esse tipo de consciência que estou tendo agora, e isso torna insuportavelmente irresistível um pensamento: é bem provável que nós também não tenhamos consciência das formas de vidas que existem por aí, mas nada impede que eles tenham consciência da nossa existência. Assim como observamos os insetos e os microorganismos (que consideramos irracionais), eles devem nos observar.

Por mais que vivamos organizados em paredes, casas, ruas, bairros, cidades, países e continentes, é tentador pensar que talvez também sejamos considerados seres irracionais para um outro tipo de espécie, da qual não fomos programados para entender, tampouco ter conhecimento.

Já pensaram nisso?

Ok. Parei. Mas juro que não fumei nada, nem cheirei, nem ingeri, nem apliquei.

Concordam que caminhar não deve se tornar uma rotina na minha vida? É pelo bem geral, estou avisando. 😉

Roberta Simoni