Temporada das Flores

 Sou Flor

Hoje o dia amanheceu chorando. Ele chora porque se despedir nunca é fácil. E a despedida do inverno não poderia ser de outra forma, senão chuvosa.

Eu aproveitei a chuva e também me despedi, com lágrimas que se misturaram e se perderam propositalmente entre as gotas de chuva que escorriam pelo meu rosto. E era do inverno que eu também me despedia, do frio que fazia lá fora, e aqui dentro… de mim. Porque até os dias frios deixam saudades, ainda que este inverno tenha sido o mais impetuoso que me lembro ter enfrentado. Naqueles dias em que casaco nenhum me aquecia, este inverno me pareceu ainda mais longo e rigoroso. E foi.

Apesar do excesso de chuvas, das nuvens cinzas, do sol que mal aquece – quando aparece -, eu gosto do inverno. Nessa estação que, por algum motivo, eu cheguei ao mundo, o frio aproxima, facilita e sugestiona o calor humano. Mesmo assim, eu esperei ansiosa a chegada da primavera este ano…

E hoje eu decidi: essa será a minha primavera mais linda !!!

Quero flores pela casa, pelas árvores, nas ruas, espalhando pétalas pelo chão do mundo, colorindo a vida. Quero cheiro de jasmim, tulipas nas janelas, sol de girassol, jardins de lírios e delírios, mar de violetas, “copos de leite” pela manhã, rosas vermelhas para eu me apaixonar todos os dias e orquídeas pra me lembrar que apesar de rara e frágil, é também cheia de beleza essa vida.

É ela, a temporada das flores, que me faz querer guardar os agasalhos no fundo do armário, despir a alma mais uma vez, vestir-me de flores, num vestido rodado, bem colorido, de estampa florida e sair por aí, destribuindo cor, graça e o meu melhor sorriso. 

E se me colocarem num vaso, serei o enfeite mais orgulhoso do ambiente, ou ainda, se me plantarem num jardim e em mim pousarem, me alegrarei em ser néctar que alimenta e adoça outras vidas…

Ontem eu fui chuva, hoje eu sou flor de primavera.

“Que saudade!
Agora me aguardem
Chegaram as tardes de sol a pino
Pelas ruas flores e amigos
Me encontram vestindo
Meu melhor sorriso.

Eu passei um tempo
Andando no escuro
Procurando não achar as respostas
Eu era a causa e a saída de tudo
E eu cavei como um túnel
Meu caminho de volta.

Me espera, amor
Que eu estou chegando
Depois do inverno
É a vida em cores
Espera, amor
Nossa temporada das flores…”

Roberta Simoni

A florzinha de cabelo

Frôzinha

Ontem eu passei numa loja, vi aquelas florezinhas que você gosta de usar nos cabelos e lembrei tanto de você, aí deu uma saudade sua… – ela me disse, docemente.

Achei tão meigo e carregado de sinceridade, mesmo sendo aparentemente tão simples, afinal, era só um enfeite de cabelo que remeteu uma lembrança a minha pessoa.

Tenho essa mania de achar significado e sentido para tudo. É que eu acho mesmo tudo tão simbólico, e, por mais que pareça bobo, me emociona. Considerando que eu sou um pouco (bastante???) boba, isso faz até algum sentido, não é?!?

Apesar de não ser intencional, eu gosto de saber que deixei algum registro, alguma marquinha na vida das pessoas, por mais insignificante que possa parecer, como a florzinha de cabelo: entre tantas coisas que minha amiga podia ter pensado ao ver o enfeite, tantas pessoas que podia se lembrar… pensou em mim. Durante um dia de horas corridas e concorridas, eu me enfiei lá, intrusa, no meio dos pensamentos dela.

Mas foi só um enfeite de cabelo, Beta !!!

Ora… foi um enfeite, como poderia ter sido uma música, uma frase, um filme, um livro, um cachorrinho de rua, um cheiro, uma cor, um sabor, como foram tantas vezes com tantas outras pessoas, que me emocionaram na mesma proporção. Não é necessariamente o “objeto” da lembrança, mas a recordação em si.

É por isso que as nossas referências são um caso sério. Se elas fazem alusão a nós, é melhor que sejam boas. Já imaginou ser referente à um cheiro desagradável, um episódio ruim, uma música brega ou uma roupa de mau gosto? Para quem lembra de você, deve ser – no máximo – engraçado. Pra você, talvez, nem tanto.

O mais interessante é que nós registramos as características de várias pessoas, cada qual de uma maneira diferente, na nossa memória. E elas fazem o mesmo conosco.

O mesmo amigo que me falou animado, que ouviu uma música liiiiinda e instantaneamente se lembrou de mim, ao me encontrar usando um desses meus “frufus” no cabelo, dias atrás, confessou que me acha tão fora de moda e com aparência envelhecida quanto estou com esses “troços” no cabelo. Eu achei tanta graça, e na mesma hora pensei: que bom que a memória dele não busca a minha imagem ao ver as “frôzinhas” por aí. Neste caso, acho que a música deve me representar melhor mesmo. 😀

Especial mesmo é ser lembrado. Não me importo que seja pelo jardim ambulante que carrego na cabeça, pela minha risada escandalosa, pelas palavras que eu destilo, pelas gafes que eu cometo, pelo perfume que deixo ao passar, ou pela melodia que gosto de escutar incansavelmente… desde que, qualquer que seja a lembrança que se remeta a mim, cause um único efeito: aquele sorriso gostoso e manso que surge inesperadamente no canto da boca!

Roberta Simoni

Meu Jardim

Eu tinha um jardim… na verdade, eu ainda tenho. Só que metade das plantas morreram nessa minha temporada de viagens. Juro que eu pensava nelas todos os dias, torcendo que chovesse e que o sol não as castigasse tanto.

Entrei em casa largando as malas pelo caminho e correndo para vê-las, pobres “meninas”… muitas morreram, foram poucas as que resistiram. Retirei todo o mato que cresceu, e todas as folhas e flores que morreram, reguei as que sobreviveram e me desculpei sinceramente por tê-las abandonado.

Meu pequeno jardim ficou pronto para receber novas flores. Mas ainda estou pensando sobre o assunto… não acho justo plantar novas plantas e depois viajar de novo, ou ir embora, deixando-as morrerem. Especialmente se tratando de alguém como eu, que tem um vida tão nômade.

Hoje eu fui acordada pelo canto dos pássaros. Eles voltaram agora que limpei o meu jardinzinho, felizmente! Enquanto estou no computador, ouço a cantoria deles. E perco horas observando-os na minha pequena varanda verde.

Eles enchem a minha casa de alegria, melodia, e vida. E nessas horas eu percebo o quanto é vital, para mim, estar em contato com a natureza, especialmente com a vida animal. Mais uma vez, faço das palavras da Lispector as minhas: “Ter contato com a vida animal é indispensável à minha saúde psíquica.”.

Metade das plantas fui eu quem plantei, a outra metade foram trazidas por eles: os pássaros. Quando comecei a cuidar da terra, novas espécies foram surgindo, e eu não conseguia descobrir a origem delas. Até que, um dia, observei um passarinho colocando uma sementinha na terra, e dessa sementinha nasceu uma planta com flores brancas lindíssimas, que, por sinal, é a mais linda do meu jardim.

Impossível não fazer uma analogia entre o jardim e a minha vida. Impossível pensar nisso e não me emocionar, ainda por cima ouvindo o Vander Lee cantando Meu Jardim, que é a definição perfeita de tudo isso. Não há como negar: a minha vida está exatamente como eu descrevi o meu jardim. Ainda que eu só esteja percebendo a semelhança entre os dois agora, enquanto escrevo, absolutamente sem a intenção de criar uma metáfora.

E agora que cuidei do jardim da minha casa, acho que chegou a hora de regar as minhas próprias flores. De podar minhas folhas secas, de arrancar pela raiz as plantas mortas, que nunca mais darão flores. De molhar a terra ressecada e atrair os passarinhos de volta para a minha vida.

É hora de me desculpar comigo mesma por ter me abandonado, por não ter cuidado bem de mim. Por ter deixado as folhas secarem, as flores murcharem até morrerem, o mato tomar conta de tudo e por ter afastado os pássaros e as borboletas.

É hora de beber as minhas culpas e regar a terra com as minhas lágrimas e com o suor que eu tenho poupado. De preparar o meu terreno para as sementes novas. É hora de refazer o meu caminho. De dar um passo para trás, para depois dar dois para frente. De fortalecer as minhas raízes, a minha luta, a minha vida. É hora de cuidar do meu jardim, e me preparar para a próxima temporada de flores!

Roberta Simoni