Filha de peixe…

Acordo hoje com o seguinte e-mail enviado pelo meu pai:

Depois de alguns minutos com o celular colado ao ouvido e ouvindo aquela musiquinha básica, sem contar que antes tive que prestar atenção numa série de números, para “ver” qual eu deveria “apertar”, uma moça me atendeu: “Boa tarde ! Elizabeth falando. Com quem eu falo ?”


__ Paulo Cardoso… Tudo bem com você, Elizabeth ? A família “tá” boa ?
__ Tudo bem, senhor… Em que posso ajudar ?
__ Elizabeth, por favor, me confirma uma coisa: é verdade que eu tenho o direito de pedir uma cópia da gravação dessa nossa conversa ?
__ Sim, senhor !
__ E o que é necessário ? (Aí ela falou uma série de documentos e procedimentos).
__ Elizabeth, essa gravação alguém ouve, como por exemplo, um diretor ou presidente da Vivo ?
__ Sim, senhor… O nosso… (não me lembro quem ela falou que ouvia).
__ Tá bom…
__ Em que posso estar ajudando, senhor ? (detesto gerundismo: estar falando, estar providenciando, e uma cacetada de “estar”).
__ É que eu quero mandar a vivo pra merda… (daí, ela não parava de rir, tentando se conter, mas rindo muito).
__ Só isso, senhor ? Mais alguma coisa em que eu possa estar sendo útil ?
__ Por enquanto, não… Vou pensar direitinho, e da próxima vez, eu mando pra outro lugar, tá bom ? Obrigado pela atenção. Você é muito simpática. Fica com Deus. Jesus te ama !”

 

Sei que é ridículo mas fiquei contente, pois disse tudo com muito amor, carinho e educação…”

Faltou só ele dizer: “(…) disse tudo com muito amor, carinho, educação e ironia…” especialmente na parte do “Jesus te ama” porque o meu pai é o menos religioso dos seres.

Eu compreendo perfeitamente a elegante satisfação dele. O problema continua e mandá-lo a merda (com tamanha classe ou não) não vai resolver nada, mas o efeito que surte é impagável: alivia a alma.

Aí me pus a pensar: como eu poderia querer ser diferente se a herança genética se faz presente? O mundo faz todo o sentido, afinal.

Roberta Simoni

Morte ao Gerundismo

Operador de Telemarketing

Antes de relatar o meu último encontro com o Gerundismo, aquele %$#@!*&¨%$##%$@!*&¨$#… vou transcrever aqui o que o Wikipédia me disse: “O Gerundismo é uma locução verbal que consiste no uso sistemático de verbos no gerúndio, cujo emprego é relativamente recente no português, particularmente o brasileiro. A concordância da construção com a sintaxe do português não é ponto pacífico, sendo, por vezes, considerada um vício de linguagem. O Gerundismo foi estigmatizado graças ao seu emprego constantemente impreciso semanticamente e ao preconceito lingüístico.”

Ou seja, o Gerundismo é uma droga (se é um vício de linguagem, é uma droga) criada e traficada pelos Operadores de Telemarketing, que possuem uma rede de distribuição tão grande e poderosa que já pode ser enquadrada na categoria de crime organizado. A droga tem sido tão consumida que está desbancando a cocaína, a maconha, o crack, o LSD, a Heroína, o Ecstasy, o álcool, o tabaco, o lança-perfume, a morfina, o ópio, e até mesmo os sedativos e tranquilizantes.

Malditos vão estar sendo estes operadores de telemarketing que não conseguem estar falando sem estar espalhando essa maldita praga da comunicação moderna, malditos, malditos, malditos mil vezes!

Desabafo feito, já posso contar como foi o nosso último encontro, há poucos minutos:

Gerúndio: Boa tarde, com quem eu vou estar falando?

Eu: Péssima tarde e você está falando com uma cliente extremamente insatisfeita e de péssimo humor, com o tempo curto e desejando profundamente conseguir objetividade no atendimento.

Gerúndio: Hã????

Eu: Quero cancelar o meu plano. Minha internet não funciona, nem meu telefone, nem a minha tevê.

Gerúndio: Senhora, nós vamos estar enviando um técnico à sua residência ainda hoje para estar verificaaaando o problema.

Eu: Não quero técnico, quero c-a-n-c-e-l-a-r o meu plano, e eu quero fazer isso AGORA!

Gerúndio: Senhora, por favor, mantenha a calma, eu vou estar transferindo a sua ligação para o setor responsável. A senhora pode estar aguardando um momeeeeento?

Eu: Não posso estar esperando, nem estar aguardando, nem estar negociando. A única coisa que eu posso e quero estar é voltando para a Sibéria, de onde eu nunca deveria ter saído.

Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu!

Estava óbvio que a ligação ia estar caindo, né? E eu, obviamente, ia estar me fodendo. Também, quem mandou eu estar dizendo que o meu tempo era curto?

Proponho falência à NET, tortura aos operadores de telemarketing e sacrifício ao Gerundismo. Tempos modernos de merda… a vida certamente era menos estressante antes de existir tanta tecnologia, que deu origem aos operadores de telemarketing, que criaram essa praga de nome feio.

Roberta Simoni