No fundo são todos Chicos, Tons e Vinícius

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Rio, em 1979. (Foto do querido Evandro Teixeira)

A água já estava chegando na altura das minhas canelas, desliguei o chuveiro e interrompi o banho com minha cabeça ainda cheia de espuma, interfonei para o porteiro, que estava ocupado e não podia subir para desentupir meu ralo, não consegui encontrar o telefone do “marido de aluguel”, daí pensei na falta que faz ter um homem por perto, às vezes.

É claro que eu já xinguei a mãe de todos eles, já desejei viver sem, ou melhor, desejei conseguir desejar viver sem eles. Também já julguei todos como iguais, tudo farinha do mesmo saco, flor que não se cheire. Gastei horas falando mal deles com outras mulheres, afinal, essa é a parte mais divertida de todo “Clube da Luluzinha”, é tema recorrente.

Mas a verdade é que na maior parte do tempo eu gosto mesmo é de estar na presença deles.

Desde pequena eu sempre estive rodeada por figuras masculinas, nas reuniões familiares achava mais divertido ficar perto deles, que bebiam, falavam alto, diziam palavrões impressionantes e eram engraçadíssimos, a julgar pelas gargalhadas que ecoavam pela casa quando estavam juntos. As mulheres trocavam receitas, chamavam a atenção das crianças que tentavam se divertir e reclamavam dos maridos enquanto lavavam a louça do jantar. Maldizer os homens é tradição milenar, isso a gente aprende desde pequenininha. Só depois é que vai entender que tradições, quase sempre, são equívocos.

Os homens já nascem com claras vantagens sobre nós, são livres, crescem soltos como gatos. São criados longe da repressão, com menos regras, não escutam discursos enfadonhos sobre o pecado (se escutam, ignoram!) e normalmente desconhecem o significado da palavra culpa porque são fiéis, acima de tudo, às suas próprias vontades. Percebem a leveza de tamanha safadeza?

Não é o que parece. Não estou dizendo que os homens são melhores do que as mulheres. A questão aqui é outra, não é comparativa.

Só não sou do tipo que considera os homens um mal necessário. Eu gosto de tê-los por perto não só quando o meu chuveiro queima ou o meu ralo entope, como agora. Gosto porque sempre aprendo alguma coisa com eles. Quando jogam vídeo game até passarem de fase, por exemplo, demonstram como são perseverantes, e quando assistem futebol são as criaturas mais compenetradas do universo, já repararam? Acho tudo isso lindo, desde que eu não precise disputar atenção com uma televisão, é claro.

Adoro a praticidade deles, a ausência de modos, de frescuras e a maneira quase irritante como simplificam tudo. Acho admirável o senso de orientação que eles possuem, mas acho graça mesmo é do orgulho que sentem de pedir informação quando estão perdidos, e a maneira como mexem nos nossos cabelos sem nunca conseguirem mantê-los no lugar que gostaríamos que ficassem, levando em consideração o tempo que passamos arrumando-os diante do espelho.

Gosto de colocar os meus pés pequenos perto dos pés grandes de um homem e me sentir miúda, de deitar num peito cabeludo e aconchegante e de ter a sensação de que nada de mau pode me acontecer enquanto eu estiver envolvida no abraço daqueles braços compridos.

Admiro a postura segura e corajosa que costumam ter diante de alguma situação de risco, mesmo sabendo que eles estão tão apavorados quanto nós. Gosto de ver como se portam como herois em nossa defesa diante de uma barata.

Eu amo o cheiro deles mesmo quando não passam perfume. Sou viciada nas suas loções e desodorantes e seria capaz de viver morar numa axila masculina. Adoro barba por fazer, feita, mal feita, grande, curta… em suma: adoro o fato de terem barba, independente do estilo que adotam, desde que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma deixem de roçar na minha nuca. Mas não há nada que eu adore mais num homem do que as mãos e a maneira como eles manuseiam talheres, volantes, canetas, ferramentas e, principalmente, o meu quadril.

E quando se apaixonam? Homem apaixonado é coisa linda – e engraçada – de se assistir e de sentir. Viram poetas, fazem rima, prosa e amor até de madrugada. Ficam assustados quando se descobrem românticos, tentam disfarçar, mas raramente são bem sucedidos na tentativa. Ficam tolos, bobos, voltam a ser meninos. Deixam a gente fazer o que bem entender deles. Homens apaixonados resultam em homens apaixonantes, como esses Chicos, Tons e Vinícius.

Isso sem falar que eles têm a peça-chave do encaixe que, quando bem utilizada, nos fazem amá-los como se fossem dois seres independentes um do outro, mas que queremos sempre em um só.

Acho engraçado como quando, não raro, sou a única mulher numa roda de homens e, a certa altura, um deles se desculpa pelo vocabulário esdrúxulo, como se me ofendesse. Nunca me choquei com a liberdade da conversa masculina. Talvez porque mesmo tendo as unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa e usando sapatilhas de boneca, eu me sinta tão livre quanto eles, embora eu não seja.

Eu gosto do tato e da falta de tato masculina. Gosto mais do tato, é verdade. Verdade também que já reclamei e sigo reclamando da falta de sensibilidade deles. Que mal tem eu querer que o sujeito tenha pegada forte e seja delicado comigo ao mesmo tempo ou na mesma medida e proporção?

Nunca me esqueço de um dia em que eu estava chorando de soluçar por conta de um desafeto e um amigo me levantou, me puxando pelo braço, ergueu minha cabeça e me disse: “seja macho, engole o choro agora!”. E não é que eu engoli? E, antes que eu morresse desidratada, comecei a rir. Nós, mulheres, temos um talento nato para o drama e algumas vezes precisamos adotar uma postura mais pragmática pra controlar o instinto teatral, mesmo assim, ainda temos a TPM para colocar a culpa. Mas eles que não ousem colocar culpa na nossa TPM.

E essa é mais uma razão que me faz amar os homens: eles não têm TPM, embora alguns se comportem como se menstruassem mais vezes no mês do que eu. Mas eu tô falando de homem de verdade, do tipo que não sabe a diferença entre calçados scarpin e antonella, menos ainda entre culote e celulite; que não tá nem aí se o seu cabelo estiver encaracolado ou esticado com escova marroquina, japonesa ou uma estrangeira dessas qualquer; se suas unhas estiverem pintadas ou não; se suas calças estiverem passadas, engomadas ou amarrotadas. Ele sempre vai preferir que você esteja sem calças perto dele.

Eu amei verdadeiramente os homens que passaram pela minha vida, cada um a seu modo. O que ficou de cada relação (seja paternal, amorosa ou de amizade) foi uma enorme gratidão pelo amor que me deram, mesmo os que me amaram da maneira mais torta e equivocada. Decerto eles tentaram ser os Chicos, Tons e Vinícius da minha vida e, de certa forma, eles foram.

Mas, Bossa Nova à parte, continuo em apuros com o ralo do meu banheiro… homens?

Roberta Simoni

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Admirador à Nova Moda

Procura-se Admirador à Moda Antiga!

Hoje fui surpreendia por um “e-mail anônimo” de um suposto “admirador secreto” que se intitula como Mr. Big. Lembrei da primeira carta de amor que recebi na vida que, por sinal, também foi anônima. Tenho guardada até hoje, sem saber ao certo quem foi o remetente que desenhou aquele coração com dois pombinhos se beijando (bicando?) e escreveu um “Eu te amo” tremido do outro lado da folha. Brega. Mas meigo. Eu tinha 10 anos, e aquela carta me deixou furiosa. Depois vieram outras que só não me aborreceram mais graças à sabedoria da minha mãe que, vendo minha aflição diante daquelas ingênuas demonstrações de amor, me chamou para uma conversa séria, de mulher para “mulher”.

É muito bom ser amada, filha, não há nenhum mal nisso. E, acredite, um dia você vai desejar que isso aconteça com toda a sua força.” E acrescentou, cuidadosamente: “você precisa começar a aceitar que os meninos te admirem ao invés de chutá-los quando eles te elogiam, tá bom?” Tá bom. Já tem alguns anos que eu parei de bater neles, mamãe. Você já pode ficar orgulhosa da sua caçula! Mas e nos tarados, mamãe, eu posso bater? Só de leve… posso? Deixa, deixa…

Segue o e-mail do misterioso Mr. Big, com minhas observações em vermelho. Divirtam-se. 😉

“Eu não tenho blog. Na verdade tenho, mas só pra escrever bobeiras e ninguém lê (por isso ninguém lê…). Leio pouquíssimos blogs, pra não dizer que não leio nenhum. Escrevo há algum tempo e, essa informação vai ser importante, adoro mulheres que escrevem. Mas, assim como todo homem, gosto mais de mulher gostosa. E foi assim que cheguei até você. (devo me sentir lisonjeada?) Um amigo me mostrou uma foto sua no Facebook (tempos modernos, sinto saudades das cartas com com pombinhos bregas, corações mal desenhados e grafia ruim). E antes que me pergunte (acredite, eu teria medo de perguntar), meu amigo é seu amigo, e vi através do Facebook dele.

Depois de olhar suas fotos por alguns minutos, vasculhei e encontrei mais fotos e um blog. Pelas fotos descobri que você é mais gostosa do que eu pensava (essa é a parte em que eu deveria me sentir ainda mais lisonjeada, é? ah, ok…). E pelo blog, puta que pariu (ops, o rapaz se empolgou!), pelo blog descobri que você é a mulher da minha vida (ooooooooi???). Sem exageros, floreios ou galanteios (Aham Cláudia, senta lá…), até porque criei este email só pra te mandar este texto, e você não sabe quem eu sou (certeza?).

Você escreve maravilhosamente bem, mas é mais que isso. Você escreve com a alma (é, tenho mesmo esse péssimo hábito). Sei que é meio gay falar isso (é homofóbico o menino?), mas mesmo sabendo que é ficção, eu imagino você escrevendo. Dá pra ler você, dá pra conhecer você intimamente pelos seus textos (vai nessa…). E, quando você está lá, dentro de você (no bom sentido), vem você e desfila toda sua sensualidade nos textos. Você quer matar a gente? (eu não tenho intenção de matar ninguém, moço, só escrevo o que é natural pra mim, o que, para outras pessoas, dependendo de quem lê e de como lê, pode soar como provocação erótica… não me culpe por pensamentos pecaminosos alheios!)

Para um homem normal, digo, que gosta de mulher, não dá pra não imaginar você seminua escrevendo (ahhh, dá sim… pergunta só pro meu pai, que é um dos meus principais leitores!). Imaginar você contra a luz, só de blusinha, matando a gente pouco a pouco (Beta, A Assassina de Leitores Indefesos). Até porque, foto gostosa + textos sensuais é algo que nenhum homem consegue dissociar (a verdade é que vocês homens precisam de muito pouco ou nada para associarem tudo com sexo). Descobri depois que você é fotógrafa. Juro que não consegui não sonhar com você um dia sequer depois disso. Nem umzinho. (a hora do pesadelo 1, 2, 3, …)

Mas, ao mesmo tempo, percebi uma coisa nos seus textos: você é, na maioria das vezes, uma pessoa melancólica. Mesmo sendo “ficção”, dá pra perceber isso (sim, sim… praticamente uma maníaca-depressiva, me ajuda?). Uma mulher lindíssima, gostosíssima, que escreve sensacionalmente bem, fotografa igualmente bem, e por que não é a pessoa mais feliz do mundo? (Óhhhh mundo cruel!) Por que você não tem o homem que você quiser? Por que? Que homem em sã consciência não ia querer estar com você em qualquer momento? Na cama, escrevendo, fotografando, andando pela rua, sei lá. Que homem não ia querer isso? (Por que os dinossauros foram extintos da Terra? Por que Eva mordeu a maldita maçã? Por que eu nasci brasileira e pobre? Por que? Por que? “Óh vida, óh céus, óh azar!”)

Bem, Beta (com o perdão da intimidade), é isso. Só mandei este e-mail porque te achei meio triste nos últimos textos e quis que você soubesse que aqui, onde quer que seja, tem um cara que daria um braço para ter você, exatamente assim como você é. Exatamente. (Óuuun… isso foi bonitinho, de verdade!) E é sério. Então, continue escrevendo, continue fotografando, continue sendo gostosa (aí você tá pedindo demais, ô Seu Admirador, essa é a parte mais difícil e é a que os homens mais esperam de nós…) e continue sendo você. Que eu vou continuar sendo seu maior admirador – e acredite, I mean it. Beijos e me desculpe a intromissão.

p.s.: A parte de que eu daria um braço por você não é licença poética, DE VERDADE. Um dia espero que você possa descobrir que isso é verdade.” (Eu espero que não, Seu Mr. Big, pelo-amor-de-deus! Se um dia eu descubro que alguém perdeu um braço por minha causa, me jogo da ponte Rio-Niterói, e nós não queremos isso, certo? Então, agradeço por me oferecer seu braço, acredito na utilidade dele, mas acho que ele terá maior funcionalidade continuando exatamente onde está, ok?)

…Eis que eu me pego melancólica – como bem definiu o Seu Mr. Big – e nostálgica, sentindo saudades dos meninos de 12 anos que me mandavam cartinhas bregas de amor, me davam frascos de perfumes pela metade de presente (provavelmente roubados da mãe), bichinhos de pelúcia feiosos, que pegavam naquelas maquinas de jogos, como troféus dedicados à namoradinha. Deu saudade do primeiro pedido de namoro, logo depois do primeiro beijo às escondidas atrás da igreja, após a missa. Saudade dos amores puros e não idealizados em estereótipos.

Manhêêêê, sabe aquele dia que você falou? Chegou!

Roberta Simoni

O Beijo de Melancia

– Quer?

– Oi? Ah… não, obrigada!

– Tem certeza? É de melancia.

– Hummm, ahhh… tá bom, eu aceito. Adoro trident de melancia! É o meu preferido.

– O meu também! Viu? Já temos uma coisa em comum!

– Sei… e você é o…?

– Gustavo. E você?

– Regina.

– E então, Regina, você vem sempre aqui?

– Sempre. E você sempre anda com chicletes no bolso para se aproximar das mulheres?

– Na verdade, não. Só me sinto seguro de fazer isso quando o sabor do chiclete é de melancia. Sempre funciona.

– Infalível mesmo é quando eu digo que “seja-lá-qual-for” o sabor do chiclete que me oferecem é o meu preferido. Para falar a verdade, eu nem gosto de melancia.

– Bom, então posso ousar achar que você queria que eu me aproximasse?

– Ouse.

E foi assim, com gosto de melancia, o nosso primeiro beijo. Afinal, o que mais me restaria fazer a não ser beijar aquela mulher ali, diante de mim, me olhando dentro dos olhos e me dizendo “ouse”. Ousei.

Mas agora, pensando friamente, não sei se fui ousado ou covarde. A verdade – uma das quais nós, homens, nunca assumimos – é que mulheres que nos olham dentro dos olhos assim, num primeiro contato, parecem ser tão seguras que nos intimidam. A gente vive dizendo que não suporta mais se relacionar com mulher insegura, que gostaria que as nossas mulheres fossem mais independentes, que não aguenta mais os joguinhos e as frescuras do universo feminino, que gostaria de ter uma mulher decidida ao lado, e aí, quando ela aparece a gente simplesmente não sabe como agir. Virei garoto, garoto bobo, que não consegue controlar as próprias pernas bambas.

E antes que ela olhasse para baixo e visse os meus pés sambando, eu a beijei. Beijei porque não resisti àquela boca me induzindo a ousar, e porque eu não sabia o que fazer, e também porque tive medo de ser engolido por aqueles grandes olhos negros e não saber nadar tão fundo e tão escuro. Eu sempre tive medo de mergulhar no mar à noite. E ela era mar, e era noite.

Ledo engano acreditar que beijando-a eu estaria nadando no raso. Mergulhei nela. E mergulhamos fundo um no outro, num beijo que durou quase meia hora. A meia hora de silêncio mais barulhenta que eu já experimentei, de suspiros profundos, de palpitações fortes e batimentos cardíacos acelerados, findada com as nossas respirações ofegantes. É… parecia sexo, mas foi melhor: era beijo apaixonado.

E como quem não tivesse me dito – meia hora antes – que não gostava de melancia, ela tirou da bolsa um envelope de trident – adivinhem!!! – de melancia.

E, apesar de termos trocado olhares por dias seguidos antes que eu tomasse coragem de me aproximar dela com o meu chiclete tolo, eu juro, reparei tanto em cada detalhe dela, que não sobrou tempo nem espaço para observar se ela mascava chiclete ou não, quanto mais se era de melancia, menta, hortelã ou tuti-fruti. Mas aí, meus amigos, já era! Não importava o que eu dissesse, ela é mulher, e vai morrer achando que eu planejei tudo. Logo eu, que morria de medo de mergulhos noturnos…

– Mas, espera aí… você não gosta de melancia, esqueceu?

– Esqueci… quer?

– O que? Você ou o chiclete?

– Os dois. Juntos.

E aí vieram outros beijos, vários. Todos sem chicletes como pretextos, alguns com chicletes e sem pretextos, outros sem chicletes e sem pretextos.

… E eu ainda consigo sentir o sabor de melancia do primeiro beijo.

Roberta Simoni