Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada.

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa mais importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques de saia da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou que ela e Cristina estavam usando vestidos brancos, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas.

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além do bairro da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje só há poeira e silêncio. E a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete fazê-la girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas – há mais de 16 anos – tia Bernadete já estava muito debilitada e, enquanto os adultos discutiam as medidas que tomariam com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

Pra noite ficar um pouco mais…

Eu não falo nada pra ninguém que é pra não apanhar. Fico vendo e ouvindo todo mundo ao meu redor se queixar quando falta luz em casa, na rua, no bairro, na cidade inteira. Eu aproveito para olhar as estrelas.

Como devia ser viver sem eletricidade? Sem ventilador, ar-condicionado, chuveiro elétrico, geladeira. Difícil até de imaginar, mas-porém-contudo-entretanto-todavia, vivia-se. Do mesmo jeito que eu vivia, há 10 anos, sem internet e sobrevivia antes de ser devota do “Santo Google”.

Pouco mais de uma hora. Foi o tempo que durou o apagão aqui no bairro. O suficiente para deixar as pessoas aflitas, inconformadas com o calor e, principalmente com o tédio. Sem tevê e internet. Quase desesperador, eu sei. A luz distrai e o escuro torna tudo insuportavelmente claro e pertubardor. É por isso que todo mundo prefere a claridade gerada pela eletricidade. Só que no claro as estrelas ficam desligadas da tomada.

Não foi o caso de hoje porque eu estava no meio de uma leitura super prazerosa quando a luz apagou, foi quase como romper abruptamente um ato sexual no meio do clímax, mas a verdade é que eu gosto quando a luz acaba. Me sinto estranhamente à vontade e confortável com o breu. Só não falo nada na hora porque sou complacente à aflição alheia.

Imediatamente me lembrei da Hilda Hilst, musa inspiradora de um recente post aqui no blog. A diferença entre mim e Hilda é que, naquela ocasião, ela escreveu à luz de velas e eu finalmente descobri a utilidade da lanterna do meu celular.

Aproveitei a varanda enorme do apartamento, me estiquei na rede, respirei cheiro de noite, procurei o Cruzeiro do Sul e as Três Marias no céu, só achei o trio de Marias, li mais umas três dezenas de páginas do livro e após retomado o estágio de clímax literário me rendi à minha nostalgia preferida.

Voltei à casa pequena que mais parecia de boneca e, apesar das constantes reclamações que eu escutava do meus pais sobre a casa, proporcionalmente ao tamanho de boneca que eu tinha na época, aquele lugar me parecia perfeitamente compatível. Lá foi onde acumulei a maior parte da minha coleção de noites felizes, sempre acabava a luz e ninguém conseguia dormir e, excepcionalmente nessas madrugadas, me deixavam ficar acordada lendo, escrevendo, desenhando à luz de velas, sem hora pra dormir. Nada poderia ser mais legal e medieval.

Era um quintal com três casas, todas ocupadas pela mesma família: tios, tios-avós, filhos, netos, primos. A casa de cima era grande e era onde morava a maior parte da família, na casa de baixo morava minha tia com filhos e dois gatos pretos e, na casa dos fundos, nós com nossa cadela geniosa, a saudosa vira-latas que tinha nome de yorkshire, Hanna. Óbvio que essa união, em tempo algum, deu certo. Mas, nas noites de apagão era como se uma magia acontecesse. Meu tio-avô ia lá pra fora para ver se era só na rua de casa, papai ia acender um cigarro e em questão de minutos, estavam todos fora de suas respectivas casas, jogando conversa fora. Lá de dentro eu escutava a gargalhada escandalosa de tia Wilma. Sinal de que estava oficialmente começado uma noite mágica.

Meu Deus, como eu era feliz e sabia! Os adultos falavam alto e riam, as crianças corriam do lado de fora feito poodles que vivem em apartamento e meia hora depois estavam nos colos dos pais, completamente entregues à Morfeu. E eu lá, acordada, à base de encantamento puro, pedindo silenciosa e internamente para que a luz não voltasse tão cedo e que a noite durasse mais tempo.

Eu não falo nada pra ninguém que é pra não apanhar. Fico vendo e ouvindo histórias de infâncias tristes e traumáticas e juro que entendo quem sente medo do escuro, mas a verdade é que eu fui a criança mais feliz do mundo.

Roberta Simoni

Quando os sonhos eram de pelúcia

Um urso de pelúcia do meu tamanho. Era o que eu queria para colocar dentro de um quarto onde eu mal cabia. Mesmo assim, espaço era o de menos. Onde eu arrumaria dinheiro para comprar um daqueles eu não sabia, mas lugar para colocar o sonho eu tinha.

Hoje me lembrei dele, do urso que eu nunca tive. E só agora, tantos anos mais velha, é que me dou conta da absoluta falta que ele nunca me fez e da diferença que ele jamais teria feito na minha vida. Foi vontade que deu e passou, como tantas outras, daquelas que se a gente não tem como realizar, só resta sentar e esperar ir embora. Aí, um dia, de repente, você lembra de um desejo desbotado, que de tão infantil se vestia da arrogância que lhe parecia e que hoje só parece coisa à toa, vontade boba, tão simples de realizar.

E agora existem outras vontades, as que simulam ingenuidade escondendo prepotência. Um dia com 30 horas para caber tudo dentro? Tempo para respirar? Histórias de amor para acreditar? Alguém para confiar as estrelas do seu céu? Reconhecimento pelos seus esforços, por serviços prestados? Boa vontade desinteressada? Acordar ao meio dia? Sobrar dinheiro no fim do mês? O problema é que a gente sempre se excede nos devaneios.

E o que fazer com essa necessidade estupidamente humana de não caber dentro do que deseja e de ter sonhos que não cabem dentro da casa pequena que construíram pra gente morar?

A gente simplesmente aprende a viver numa casa minúscula e a conviver com os sonhos que não tem preço.

Quando o meu quarto aumentou e eu descobri – não muito bem até hoje – o jeito suado de ganhar o meu dinheiro, meu urso de pelúcia se desfez, virou cinza de um sonho que morreu ainda tão moço para dar lugar a desejos mais espaçosos, e mesmo aqueles mais razoáveis, de tão improváveis, os mais tolos.

… Vontade de desejar um ursão de pelúcia de novo, aquele que de gigante virou miniatura de colocar na estante.

Você acredita?

Eu nunca esperei que a fadinha do dente trocasse o meu dente de leite por dinheiro, sempre soube que eram os meus pais que compravam os ovos de páscoa e nunca entendi direito o que o coelho tem a ver com chocolate.

Com o bom velinho não foi diferente, sempre soube que Papai Noel era um homem comum fantasiado, por isso, nunca escrevi uma carta pra ele, nem esperei que ele entrasse pela chaminé da minha casa trazendo o meu presente. Até porque eu nunca morei numa casa que tivesse lareira.

Nasci no litoral de um país tropical, e Papai Noel com aquelas roupas todas de frio nunca fizeram muito sentido pra mim. Nossa! Como devem soar os “Papais Noéis” brasileiros, pobres coitados!

Meu pai passou a infância traumatizado, magoado com Papai Noel, que ano após anos não aparecia, o presente então… menos ainda. É compreensível que tenha vindo dele a decisão de não alimentar nenhuma ilusão nas filhas. Minha mãe concordou, e felizmente nunca usou o Papai Noel para fazer terrorismo comigo. Nunca me disse que se eu não me comportasse, o tal gorducho de barbicha branca não traria o meu presente. Ufa!

No entanto, na nossa última confraternização natalina eles se confessaram arrependidos por não terem alimentado a minha imaginação infantil.

Papy e Mamy: Não se preocupem! As fantasias que vocês não criaram na minha cabeça quando criança, eu compenso até hoje. Minha imaginação é, provavelmente, mais fértil que a de uma garota de cinco anos, e os meus devaneios são tão grandes que eu evito contar pra vocês porque, aí sim, vocês ficariam preocupados.

Ter tido consciência da verdade desde cedo não afetou a minha imaginação, tanto que hoje eu não só escrevo como crio histórias. E se teve algum lado negativo nisso tudo, os que sofreram com ele foram os pais das outras crianças. Explico:

“Sua boba, se você puxar a barba dele, vai ver que é de mentira!” “Papai Noel vai na sua casa entregar os presentes? Deve ser o seu pai fantasiado, menino! Procura só o seu pai pra ver se ele não some na hora que Papai Noel aparece!” “Você pediu isso de presente na cartinha pra Papai Noel? Se eu fosse você pediria alguma coisa que seus pais pudessem comprar, porque Papai Noel não pode ser rico se ele nem existe.” “Você não acha que tá muito grandinha pra acreditar em Papai Noel, não? O quê? Sua mãe não te contou a verdade até hoje?”

Não satisfeita em saber a verdade antes de todas as outras crianças da minha idade, eu fazia questão de desmistificar toda a farsa pra elas, consequentemente desmascarando os pais delas que, nada contentes, iam reclamar com os meus.

Criança é uma coisinha muito meiga e pura, mas pode ser a criatura mais cruel que existe. E eu, obviamente, passei longe de ser uma flor de candura desde bem novinha. Ora… aposto que se eu não falasse, ninguém jamais notaria!

Quando eu tiver os meus filhos (se eu os tiver), talvez eu os estimule a acreditarem em Papai Noel, ou talvez eu simplesmente deixe que sejam livres para acreditarem no que quiserem, como os meus pais fizeram. No fundo, ninguém precisa de estímulo para fantasiar. Uns fantasiam mais, outros menos. Há ainda os que só sabem viver o que é real, palpável.

Eu continuo com meus sonhos, vestindo as minhas fantasias coloridas e ousadas, confundindo o real com o imaginário, ultrapassando o limite do impensável.

Eu que sempre fui descrente do Papai Noel, coelhinho da páscoa, fadinha do dente, fada madrinha, duende e príncipe encantado, acredito em coisas bem menos prováveis, que gente grande e pequena é capaz de duvidar: no sorriso que pode transformar, na intuição que pode salvar, na palavra que pode acarinhar, na estrela que pode me ouvir, no amor que ainda pode ser mais forte e no sonho mais ousado que pode acontecer.

Pensando bem, seria mais fácil acreditar em Papai Noel…

Roberta Simoni

Filtro da sinceridade escangalhado

Desde cedo a vida começou a me mostrar que sinceridade não é uma coisa bonita. Mesmo assim, eu venho resistindo à essa ideia e, sem querer ser pleonástica (mas já sendo), a verdade é que, muitas vezes, a verdade é mesmo feia.

Na minha adolescência teve uma moda de “Caderno de Perguntas”, que circulava por todo o colégio. A brincadeira funcionava assim: cada um respondia a todas as perguntas feitas pelo dono do caderno, e depois passava adiante.

As perguntas variavam entre bobas e idiotas: “Qual a sua cor preferida? Quem você levaria para uma ilha deserta? Quais suas qualidades e defeitos?” e por aí vai…

Um dia, um caderno desses veio parar na minha mão. Comecei a responder… até que me deparei com uma pergunta um tanto quanto complexa: “Com quantos anos você deu o seu primeiro beijo?”

Bom, eu tinha 14 anos e nunca havia sido beijada. Olhei para as respostas dos outros, e o mais atrasado tinha beijado pela primeira vez aos 12 anos, mas isso não foi suficiente para me intimidar. Respondi sem pestanejar: “Ainda não beijei na boca.”

O caderno continuou circulando pelo colégio e, no dia seguinte, eu assistia à aula quando um grupo de alunos de outras turmas se amontoava do lado de fora da janela da minha sala. Eles apontavam lá pra dentro e riam. Aquela movimentação toda dispersou a aula e logo todos  fomos tomados por uma enorme curiosidade. A professora parou a aula, abriu a janela e perguntou a um dos meninos o que estava acontecendo…

O garoto respondeu com outra pergunta, às gargalhadas, apontando pra mim: “Professora, aquela ali que é a Roberta?”. Ela, ainda confusa, fez que sim com a cabeça, e o grupo começou a gritar, em coro: “BV, BV, BV, BV…” (pra quem não sabe, B.V. é abreviação para “Boca Virgem”.)

Pois é… a “coisa” que causou aquele reboliço todo, era eu. E tudo isso por causa de um beijo… um beijo que eu nunca havia dado.

A professora fechou a janela e tentou retomar a aula, mas aí já era tarde, porque o “vuco vuco” agora era dentro da sala. “Beta, isso é verdade?”, “Meu Deus, você nunca beijou na boca mesmo? Mas, por que, menina?”

Finalmente conseguiram me intimidar. Naquele momento eu era o próprio “ET”, que acabara de ser descoberto infiltrado entre os seres humanos !!! 😀

Episódios parecidos com esse eram frequentes, por razões diferentes, mas todos provocados pelo meu excesso de sinceridade, sempre.

A primeira vez que eu me lembro de ter achado a sinceridade feia foi quando ganhei um monte de roupas de presente de aniversário de uma amiga rica da minha avó, da qual eu esperava ganhar o melhor brinquedo, considerando seu poder aquisitivo. Eu rasguei a embalagem ávida e quando vi o que era, falei instantaneamente: “poxa, mas roupa não é presente!”

Minha mãe, envergonhadíssima, me repreendeu e me fez agradecer o presente. “Mas, mãe, eu não gostei!”, eu insisti. Só me lembro da tia dizendo: “Não tem problema, criança é assim mesmo!”.

Depois minha mãe me explicou que não é sempre que podemos dizer o que estamos pensando ou sentindo, porque isso pode desencadear numa série de problemas e pode, inclusive, magoar as pessoas, mas parece que eu não aprendi muito bem, até hoje… e comprovei isso ontem à noite.

Entrei no ônibus tensa, porque já era tarde e eu estava sozinha. Escolhi um dos muitos lugares vazios e me sentei. Dois minutos depois, um homem sentou-se ao meu lado. E ele não apenas sentou como quase se jogou em cima de mim, eu dei um pulo e falei sem pensar duas vezes: “Ei, precisa encostar tanto?”

O rapaz ficou surpreso e se defendeu: “Eu tô no limite do meu banco, moça!”

Eu rebati: “Ahhh, não está não!”

“Calma, eu não quero te assaltar não!” – ele falou, tentando descontrair.

“Tem certeza?” – perguntei e prossegui antes que ele pudesse voltar a falar – “Só não entendo porque você se sentou ao meu lado se o ônibus está vazio e, me desculpa, mas continuo achando que você está encostando muito em mim, moço!”

Normalmente, eu teria ficado incomodada, mas teria ficado quieta. Ou teria, no máximo, trocado de lugar, se o meu “filtro da sinceridade” não estivesse com defeito ontem.

Depois eu observei o rapaz e vi que ele tinha cara de “bom menino”, mesmo assim, aquela coisa toda de quase sentar no meu colo não foi legal, e se aquilo foi uma espécie de investida, ele precisa aprender a fazer uma abordagem mais inteligente. Mesmo assim, confesso que depois morri de vergonha pelo fora que dei no menino!

O que acontece comigo é que, às vezes, eu não consigo filtrar nem uma vírgula que sai do meu cérebro até chegar à minha boca e deixo passar tudinho o que penso. Acho que a minha válvula responsável por pensar antes de falar entra em curto constantemente e depois haja colhão para aguentar as consequências. Além do mais hoje ninguém vai poder dizer: “Ah, ela é só uma criança!”, até porque eu consigo disfarçar muito bem que sou adulta.

Hoje em dia, se eu fosse responder um Caderno de Perguntas, quando chegasse naquela parte de “Qual é o seu maior defeito?”, eu responderia: “Cuidado, eu sou sincera!”

(adoro essa foto, tinha que ser o Almodóvar, né?)

Roberta Simoni

A essencial essência

Livros

Hoje, sem querer, acabei descobrindo um sebo no meu bairro. Eu tinha algo em torno de vinte centavos no bolso, mas não resisti e entrei na loja. Sabia que não podia comprar nada com aquela quantia, mas sebos me atraem como se tivéssemos um imã.

Como todo sebo que se preze, este era perfeitamente desorganizado e tinha cheiro de coisa antiga. O perfume mofado daquele ambiente me despertou – além de alguns espirros alérgicos – doces e antigas recordações, que de tão antigas estavam se tornando desconhecidas. Retornei às “dezenas” de casas que morei com minha família durante a minha infância, lembrei do meu pai em suas madrugadas insones, acompanhado de cigarros e livros, e da minha mãe quase me implorando para que eu fosse dormir enquanto eu lia revistinhas em quadrinhos madrugada adentro. E isso me fez lembrar que a insônia e eu somos companheiras de longas datas…

Lembrei que a minha mãe sempre me seduzia com alguns cruzeiros que eu gastava na banca mais próxima à loja onde ela trabalhava, comprando gibis que me entretinham a tarde inteira.  Lembrei que eu levei anos até deixar que ela doasse aquelas revistas empilhadas numa cesta que ocupou um espaço no canto do meu quarto durante tanto tempo. Lembrei das prateleiras abarrotadas de livros da casa dos meus pais, que só fizeram crescer ao longo desses anos, e me dei conta de que estou criando o mesmo hábito.

O cheiro de passado entranhado em cada livro daquele sebo era mais do que familiar, era aroma palpável que dizia muito sobre mim. Era parte essencial das lembranças que estavam esquecidas em alguma prateleira antiga.

Folheei revistas e livros antigos e mexi nos discos de vinil da mesma forma que saboreio um pedaço de chocolate. Era a nostalgia que estava me atraindo e me seduzindo, era o passado pedindo para não ser esquecido, era a saudade carente de uma infância feliz e era também uma parte da minha essência querendo ser lembrada através de objetos, cheiros e lembranças.

Talvez não sejam só os livros do sebo que me atraiam, mas o passado que eu revivo quando entro lá, que sempre me seduz para que eu não ouse esquecer do que é importante ser lembrado.

Preciso urgentemente que alguém impeça a digitalização dos livros, por favor! Não duvido de sua praticidade e eficácia, mas livros eletrônicos não têm cheiro de poesia, não têm rabiscos nas páginas, e nem páginas de papel têm. Menos ainda têm o charme, o porte e a elegância de um senhor livro. Eu não me importo de usar objetos ultrapassados, afinal, também estou ficando ultrapassada, e não venha me dizer que perdi todo o meu charme por conta disso… 😉

E você, no que é ultrapassado? Quais são os cheiros que te trazem lembranças? E sua essência? Também anda esquecida em algum canto cheio de mofo por aí?

Roberta Simoni

Faz de Conta

MeninaEla que gostava de ser criança, e mesmo depois de ter tornado-se mulher, não queria deixar morrer a menina que existia nela. Que gostava de brincar de faz de conta, e fazia de conta que era uma princesa, que a casa em que morava era um castelo, e ficava perto das nuvens.

Às vezes ela cansava de ser princesa, e simplesmente fazia de conta que já era adulta, mãe, secretária, atriz, médica… Quando de castigo, aproveitava o tempo para planejar a sua fuga do próximo castigo, ou até mesmo de casa, ou da escola, quando se via muito contrariada.

Tinha medo de bruxas e fantasmas, mas nunca levou muita fé no bicho papão, achava até graça nele. Gostava de abrir a porta e sair andando sobre as nuvens, de colher algodão doce no jardim de casa, de conversar com as fadas, colecionava estrelas, e todo dia antes do sol ir embora ela pegava um pedacinho dele e guardava dentro de si, para não ficar no escuro, no caso dele não aparecer no dia seguinte.

Eram tantos desejos e sonhos que se fosse escrevê-los num papel, ela faria uma listinha, e mesmo assim não caberia. Ela que aprendeu a rezar todos os dias antes de dormir, hoje mal se lembra de de como são feitas as orações.

Hoje ela acordou e observou-se no espelho por alguns minutos, passou a mão pelos cabelos, lembrou da menina que foi, tocou-se nos seios, sorriu, mas achou novas rugas, procurou a menina e não mais a encontrou. Sentiu-se assassina de si mesma, afinal, o que ela havia feito com a garota colecionadora de estrelas?

Os sonhos que sequer cabiam numa folha de papel, nem na sua memória habitam mais, as novas metas e o planejamento financeiro ocuparam o lugar que foi deles um dia. Sem perceber, ela deixou de guardar dentro dela o pedacinho de sol que ela pegava todos os dias, e o espaço que a luz do sol ocupava ficou escuro, dando espaço às inseguranças e aos anseios. As fadas, coitadas, essas ficaram falando sozinhas por tanto tempo, que foram procurar outra amiga. Parou de comer doce porque engorda, e as dietas só serviram para secar os jardins de algodão doce que ela tinha.

Mas, os medos, ah… esses ela ainda tinha. Só que os fantasmas ganharam uma nova forma e as bruxas, bom, essas não eram tão feias quanto as que ela tinha medo quando pequena. Nada de chapéus pontiagudos, vassouras e narizes cheios de verrugas, em compensação, ela passou a conviver com bruxas de todos os sexos e aprendeu que elas sempre aparecem usando máscaras belíssimas.

Ser adulta não é, nem de longe, o que ela imaginou, mas, afinal, não é de todo mal. Ela não fica mais de castigo, nem precisa gastar energia tentando fugir, não deve obediência a mais ninguém, e, além do mais, tem uma coisa que não tinha quando menina, e nem sonhava que existia: orgasmos !!!

Nem tudo está perdido, e sabe do que mais? Ela ainda pode ser criança. Na verdade, a menina não morreu, é verdade que na maior parte do tempo, fica escondida, mas, é que ela gosta de brincar de “esconde-esconde”, porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, a mulher que ela habita sentirá falta da garotinha, da princesa que mora no castelo arranha-céu, e ela irá até lá procurá-la, e quando se encontrarem, vão brincar de faz de conta outra vez, e por algumas horas, vão fazer de conta que ela não é adulta, que não há horários, contas a pagar, nem compromissos, que fantasmas e bruxas não existem, vão comer muitos algodões doces e fazer de conta que não existem calorias , e depois vão correr pelas nuvens. Sim, elas têm pressa, pois precisam recuperar os sonhos que ficaram perdidos por lá…

Roberta Simoni