Sabor de fruta mordida (ou calcinha da sorte!)

Já é dezembro e outra vez a gente se pega pensando: mas, já?

O ano tá acabando de novo, e sempre rola um “momento retrospectiva” nessa época. Me lembro de, ao final da retrospectiva 2009 chegar a uma drástica – porém real – conclusão: tive um ano ruim. Ponto. Arrisco dizer que um dos mais difíceis da minha vida. Logo, as expectativas para 2010 não poderiam ser melhores, com perspectivas mais promissoras: eu simplesmente não esperava nada além de um ano melhor do que aquele que estava acabando. Moleza, né?

Não teve festa na virada, só uma longa caminhada na praia, sem pular as sete ondinhas, sem pedidos nem promessas, sem paixão, apreensão ou qualquer sentimento latente, sem indícios de alegria, nem vestígios de mim, usando aquela velha e confortável calcinha bege. Minha despedida daquela versão então triste, sem vida, sem graça, cor-de-pele-desbotada. Meu luto conformado, repleto de uma serenidade que só a maturidade sabe.

Aí veio 2010 e eu nem ouso contar a quantidade de coisas e de vezes que a minha vida e eu mudamos em um ano. Tem gente que diz que a minha vida daria um livro, acredito. Duvido que seria um Best-seller, mas diria que só o capítulo dos últimos meses daria uma enciclopédia, só que divertida, especialmente se resumida aos melhores e menos prováveis fatos, sublinhados de amarelo fluorescente nas minhas páginas favoritas.

2010 não foi um ano, foram 10 em um só. Exagerada? Quase nada… é que eu ando mesmo “meio Cazuza”, inventando amores para me distrair, (des)inventando ausências para me iludir, transformando o tédio em melodia, cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar, me cobrindo de sonhos numa tarde branca, interessada em mentiras sinceras, contando meus segredos de liquidificador às orelhas frias dos sete ventos, jogada aos pés da mais intensa paixão da última semana, mulher sem razão, de coração viciado em amar errado, sua flor, seu bebê…

Achando a vida muito louca, muito breve, forrando as paredes do meu quarto com as misérias das manchetes, pra lembrar que nada é tão sério, nadando contra a corrente só para exercitar, tentando algum trocado pra dar garantia, tomando meu trem para as estrelas, sendo artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, provando do meu próprio veneno antimonotonia que não me deixa pregar os olhos noite e dia, só na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva com aquele gosto bom de fruta mordida… doutra saliva já tão conhecida, do doce sabor amargo dessa famosa desconhecida tão cobiçada: a sorte de um amor tranquilo…

E em meio a todo o amor que há nessa vida, me aparece aquela que eu não quero levar para a festa, logo ela, bem no centro do meu universo: uma espinha gigante no meu rosto, que mais parece um segundo nariz, ou um terceiro olho. E só o que me resta é levá-la para dançar comigo, ou não ir à festa… vou dormir com a cara toda trabalhada na pomada, aí ele me olha e diz assim: “que coisa mais linda!”, com uma sinceridade quase comovente. Procuro minuciosamente em todos os cantos, mas não vejo nenhum sinal de ironia nele.

A senhora calcinha bege tão pouco formosa pode não ser milagrosa, mas tem lá o seu valor. E 2011 já vem chegando, vai que… 😉

Roberta Simoni

Mais uma intensa no mundo…

Tá bom gente, eu sei, vocês sabem, e qualquer um que não sabe, nem precisa ler muitas linhas da minha vida para perceber: sou emoção à flor da pele.

Já começou errado quando, ao nascer, eu senti falta de alguma coisa entre as minhas pernas. “Ihhhh, ferrou, nasci mulher” – pensei, instantaneamente. Depois compreendi: se eu nascesse homem e tivesse tamanha sensibilidade, teria minha sexualidade sendo posta à prova o tempo inteiro, coisa mais desagradável… Ok., fui poupada disso, thanks! Posso chorar em público, posso abrir o berreiro assistindo “Marley e Eu”, posso receber flores, posso falar livremente de amor, posso me derreter toda e falar – medonhamente – dengosa (e no dimunitivo, of course!) ao me deparar com bebês bochechudos e com criaturas peludas que abanam o rabo, não preciso me preocupar em ter que não “dar pinta”, posso usar a TPM como desculpa para surtos inesperados…

No entanto, tenho que aturar essas desgraças de hormônios descompensados, tenho que consultar o calendário para verificar a proximidade do período menstrual para tentar entender o porquê de eu ter começado a chorar, do nada, no meio de um restaurante lotado. Sou influenciada pela sociedade feminina a gastar meu tempo pensando em casamento, filhos e casa perfeita, enquanto poderia estar por aí, simplesmente tomando uma  loira gelada com os amigos, me divertindo vendo uma cambada de homens “coxudos” correndo atrás de uma bola, uma bolinha só. Tão mais simples!

“O quêêêê? Você não quer casar? Hã? Não se vê vestida de noiva? Como assim na praia? E a cerimônia na igreja?” Calma, eu posso explicar: não é que eu não queira casar, eu até acho que pode ser muito legal se acontecer, só não fico pensando nisso. Não me vejo vestida de noiva porque, sei lá, nunca fui pedida em casamento (tá tá… já fui, mas não oficialmente, então não conta, pedido de casamento de verdade incluí romantismo, ora, só assim vale!) então, gasto meu tempo imaginando coisas mais prováveis, mas ahhhhh… acho até que posso dar uma noiva ajeitadinha. Sim, sim… casar na praia, de sandálias havaianas, de short e camiseta, na beira do mar, quer coisa mais romântica? Topo, claro que eu topo casar na igreja se o suposto noivo fizer muuuuuuita questão, nada contra.

A verdade é que meus comportamentos se alternam entre completamente mulherzinha, e cabra macho (sim sinhô!). Aí, quando a mulherzinha que habita no meu âmago começa a se esvair em lágrimas, o cabra macho chega, olha nos olhos dela e diz, curto e grosso: “Seja homem, rapá!”

Eu adoro a praticidade dos homens, o jeito mais leve de levar a vida, a natureza livre deles… e não só aprecio, como pendo para esse mesmo lado da força masculina, só (me) espio pra não ficar prática, leve e livre demais, e não perder o ponto da sensibilidade, como muitos homens perdem, e deixam a receita do bolo desandar.

Aí, me vira uma moça querida e diz que não passa um dia sequer sem pensar em mim, porque olha para sua filha e me vê, todo dia. Sua intuição materna diz que a Júlia será “eu amanhã”. Acho lindo na hora, mas depois me preocupo, pergunto se isso, afinal, pode ser considerado bom e saudável (temerosa da resposta dela, claro!). Ela diz que no começo ficava bastante assustada, mas depois passou a achar muito bom…

A Júlia também bate com a cabeça na parede quando contrariada, tem gênio forte, não aceita não como resposta, é ativa e hiperativa e tudo nela é muito intenso. (ô gente… me descreveu, foi?). Tirando a parte de bater com a cabeça na parede, que parei de fazer tem um tempinho, depois de muito uso de psicologia infantil, todo o resto continua igualzinho.

E por que ela acha bom ser mãe de uma criatura assim, que esbandalha todo o resto da energia dela? Porque, segundo ela, prefere sua pequena desse jeito, pois assim, a Júlia é também intensamente feliz.

Pronto, né? Danei a chorar de emoção e alegria. E respirei aliviada: a receita do bolo está a salvo.

(e a pergunta que não quer calar: em que pé andará o meu ciclo menstrual, heim?!? tcham tcham tcham tchaaaaam…)

Roberta Simoni

Ano novo. Idade nova.

Meu Aniversário

Do meu pai puxei o gênio. Da minha mãe, a coragem. Dos dois eu puxei defeitos. Puxei também algumas qualidades. Características físicas não tenho muitas de ambos, mas as rugas que formam ao redor dos meus olhos entregam que sou mesmo filha de Beth.

Tudo bem que minha irmã dizia que eu era adotiva quando ficava brava comigo. E eu acreditava. Mas não tem como negar que meus olhos e os da minha mãe são idênticos quando estão sorrindo, e que eu sou uma versão atualizada do meu pai, mas nem tããão atualizada assim, e, além de tudo, outro dia percebi que a minha gargalhada é idêntica a da minha irmã que, por sinal, eu sempre achei engraçadíssima.

Sou rascunho de um, esboço de outro… sou sequência, sou versão e até repetição de outros sob alguns aspectos, mas sou única. E o peso da responsabilidade que existe ao se ter plena noção disso? Com 1/4 de século de vida, também pudera, né?

Sabe-se lá quantas outras pessoas também estão fazendo aniversário hoje por esse mundão afora? Eu mesma conheço mais umas três além de mim. Ainda assim, me permito dizer que hoje é o meu dia! Meu e de um monte de gente, eu sei… mesmo assim, o peso da responsabilidade de ser “única” continua, eu diria até que, hoje – especialmente hoje – pesa mais um tiquinho…

Cada abraço, cada sorriso, cada desejo de felicidade, cada telefonema, cada palavra escrita ou falada, cada gesto de carinho, cada lembrança daqueles que me dão os sinceros “parabéns” por mais este aniversário, reforçam um pensamento: parabéns pelo quê?

Por fazer parte de suas vidas, por amá-los, por permitir ser amada… por existir? A gente não escolhe existir, ou escolhe? Se escolhe, essa consciência se perde em algum lugar antes de chegarmos aqui… bom, de todo jeito, se eu escolhi, espero ter escolhido também fazer a diferença na vida de alguém, caso contrário, ser parabenizada perde um pouco do sentido.

Pensando bem, acho que mereço mesmo os parabéns, não por mim, mas pela sorte que tive por ter nascido na família que eu nasci, por ser fruto do amor de um casal iluminado que nunca me poupou educação, orientação, cuidado e amor, por ter ganhado uma irmã que é uma verdadeira amiga, e por ter escolhido amigos que são verdadeiros irmãos. Por ter a chance de ter gente tão especial participando da minha vida (isso inclui muitos de vocês que me lêem).

E aí, quando eu penso nisso, o peso do privilégio fica maior ainda (será que mereço tanto?). Talvez seja por isso que fazer aniversário costumava me doer tanto até agora. Só até agora! Sim, porque existir dói, e ser lembrado disso, mexia na ferida, sabe? Mas acho que a idade, aliada a maturidade, finalmente começam a tornar as coisas mais leves e sóbrias. É verdade que eu tenho sentido que outras coisas estão amadurecendo também, mas deixa isso pra lá, hoje não é dia de falar de seios e bumbum caindo…

Esse ano não estou apenas comemorando mais um aniversário, comemoro a dor que começa a ceder com o peso, a vida que se deixa renovar mais uma vez, o novo ano que acaba de começar para mim, a nova estória que estou começando a escrever, a nova Beta que já vejo nascer, que apesar de jovem, se sente cansada com o tal peso da existência, mas com uma carga de emoção que muita gente experiente certamente desconhece.

Comemoro as tantas vidas que já vivi nessa única vida, afinal, toda essa urgência de viver não me proporciona apenas esse peso insustentável, mas a leveza de existir plenamente e com totalidade. Coisa que só quem vive com intensidade é capaz de entender…

Roberta Simoni