Sobre obediência intuitiva

De certo que a Itália é fascinante. De certo que eu estou vivendo experiências neste país que italiano nenhum nunca viveu, porque os olhos deles enxergam com pluraridade o que, pra mim, é singular! E tudo é singularmente lindo para quem viaja sozinho pela primeira vez com uma mochila nas costas (especialmente quando se escolhe a Itália como destino), carregada de sonhos.

De certo que felicidade não é algo que se encontre na Itália, na China, na esquina ou num pacote de figurinhas sortidas. Não precisa ler livro de auto-ajuda para saber que a felicidade mora dentro da gente, tem endereço fixo e cep permanente, não importando onde a gente esteja ou para onde vá. Mas o que eu descobri vindo para cá é que quando eu me movimento fica mais fácil descobrir em qual corredor ela anda se escondendo, acanhada e encolhida em algum canto escuro e úmido, onde eu mesma a coloquei de castigo, porque, afinal, ser feliz é o maior dos insultos.

Tenho uma centena de coisas para contar e umas 40 páginas rabiscadas no meu diário de viagem (sim, eu fui lá no diário contar!), que me distraio escrevendo entre um trecho e outro de trem… mas o que eu tenho feito de mais importante desde que cheguei aqui, além de comer massas de todos os tipos, croissant de chocolate pela manhã, sorvete de nutella no fim da tarde (ok, parei!), me perder por todas as vias (ruas) possíveis e fazer amizades preciosas, é escutar a voz do meu coração, ou intuição, se preferirem um termo menos piegas.

Eu, que sempre me considerei extremamente intuitiva, depois de tantos anos aperfeiçoando a prática da auto-sabotagem, calei quase que completamente a voz mais doce e elucidativa que tenho…

Então, se você quiser saber o que eu vim fazer aqui, além de desafiar o meu medo e a minha coragem (na mesma sentença), eu digo que vim para escutar a voz do meu coração que, diante dos desafios que encontro viajando por terras que desconheço, sozinha e com as limitações da comunicação, escutar o que o meu coração diz e obedecer a escolha que ele faz diante de um cruzamento, sem um mapa, numa rua no meio da Bologna, por exemplo, é algo vital.

Intuir e confiar no que intuo, de certo, tem sido o exercício mais fascinante que já pratiquei na vida.

Não é o roteiro que improvisei poucas horas antes de sair do Brasil, não são os mapas das cidades por onde passo, nem a bússola do meu relógio que tem me orientado, é pura e simplesmente a minha intuição, desde o dia que eu decidi que viajaria, mesmo quando a racionalidade falava mais alto, me chamando de louca aos berros, como quase sempre faz…

Mas, desta vez, ao invés de matar, foi ela quem morreu afogada. Sem choro nem vela.

Roberta Simoni

E então ele me toca…

Toca-me

“Isso vai acabar logo. Não se preocupe tanto.” – ele me falou com a voz segura e suave, sem me olhar nos olhos, enquanto virava o copo, tomando o resto de alguma bebida que sobrava e se dissolvia com as pedras de gelo, depois de ouvir minhas queixas numa mesa de bar.

“Como você pode me dizer isso com tanta segurança?” – perguntei, curiosa.

“Não sei como. Eu só sei. É feeling. Tenho certeza que falta pouco para tudo isso acabar.” – ele falou, desta vez me olhando nos olhos, com a sabedoria de um velho experiente, num corpinho de trinta, com um olhar de garoto esperançoso e uma voz irresistivelmente confiante e masculina.

Dissesse o que fosse, contanto que falasse daquela maneira, eu acreditaria nele. E acreditei. Depois fiquei pensando no efeito que algumas pessoas são capazes de causar na gente…

Eu, por exemplo, tento me convencer todos os dias que coisas boas estão por vir, considerando que nem corro mais atrás, corro na frente disso. Forço-me a lembrar que a vida é cíclica, mas, mesmo assim, algumas vezes sou tomada por um desânimo de dar desgosto, fico descrente e seriamente desconfiada da lei do retorno.

Aí vem ele, despretensioso, e embora me conheça bem, não ousa falar o que preciso – ou quero – ouvir, e mal sabe o efeito que causa. Pega com delicadeza a minha ansiedade infantil e a convence que é hora de criança dormir. Depois beija a minha fé amarga e desperta e adoça a sua sensível existência.

Não é só o que e como é falado, mas quem fala. Tem gente que tem o dom de tocar os sentidos da gente, sem que toque necessariamente num fio de cabelo nosso.

Tem hora que eu me perco, mas aí aparece gente que me acha… gente que é dona de palavras que me beijam. Tem palavras que me tocam como se eu fosse um instrumento musical. Tem notas que eu não conheço, e me seduzem, porque o que eu desconheço também me deseja.

Tem intuição que me afeta, e me avisa que o desconhecido me espera.

Eu? Intimamente eu desejo que ele esteja certo, e intuitivamente acredito que esteja…

Roberta Simoni