Corre Loka, corre!

Corre Lola, corre!

Talvez eu seja uma pessoa horrível. Eu disse talvez. Explico:

Voltando do trabalho, passo por uma rua relativamente deserta. Hoje, na direção oposta, vinha um rapaz na mesma calçada. Por precaução, fui para o meio da rua. Sempre tenho a sensação (ou a ilusão) de que na rua fica mais fácil de fugir do que na calçada, onde posso ser facilmente imprensada no muro sem que ninguém perceba. Pois bem. No instante em que fui pro meio da rua, ele também foi, saltando na minha frente.

Há um pequeno detalhe, no entanto, que vale ressaltar: não há para onde atravessar, pois, do outro lado da rua, só existe um viaduto. Posto isso, concluí o óbvio: ele me abordaria. E abordou.

Quando ele começou a falar, antes que eu pudesse entender o que dizia, tive uma atitude muitíssimo digna e sensata: saí correndo feito uma louca desvairada. E ele ficou lá, me chamando de maluca, dizendo que era só um trabalhador, que não era ladrão…

Talvez não fosse mesmo. Mas aquilo de “a ocasião faz o ladrão” nunca me pareceu tão oportuno.

Depois que cheguei em casa e consegui fazer minhas pernas pararem de tremer, fiquei pensando no moço que se pôs a me chamar de maluca com toda razão. Adoraria ser dessas que não transforma qualquer coisa em reflexões profundíssimas, mas sou. O que se há de fazer com o que se é? Nada além de ser, quando não se está tentando ser outra coisa, é claro.

Mas… e o moço? Aquele cuja fisionomia não me recordo, só me lembro de ser bem maior e mais forte do que eu… como estaria agora? De duas, uma:

Se era um oportunista e me viu como presa fácil naquela situação, deve estar se sentindo como um leão frustrado na selva, depois de cercar sua refeição que, por muito pouco, conseguiu escapar. Agora, se ele de fato é um rapaz trabalhador e só queria me pedir uma informação, ou se queria saber onde eu comprei o vestido rosa que eu estava usando, bom… suponho que ele agora esteja, no mínimo, com muita raiva por ter sido confundido com um ladrão e confesso que me envergonho profundamente por isso. No entanto, me questiono: se ele viu que eu estava assustada, por que me cercou daquele jeito? Se queria uma informação, por que não perguntou de onde estava? Por que precisava me abordar tão efusivamente vendo meus olhos arregalados de medo?

Eu posso ser mesmo uma pessoa ruim e ele, tadinho, podia estar só querendo fazer amizade. Ou eu podia ter sido uma pessoa legal, ter parado para bater um papo com um estranho numa rua deserta e não estar escrevendo isso aqui agora. Trágica? Talvez. Esse é o tipo de situação que prefiro pagar de louca do que pagar pra ver.

Mas o que me traz aqui não é o peso na consciência que quase estou me permitindo sentir por ter cometido um possível terrível engano, nem tampouco para reclamar da violência na cidade do Rio de Janeiro, que o mundo todo tá careca de saber. Também não é para mostrar o efeito que o medo da violência causa na gente ou para contar que estive perto de perder os meus pertences hoje. Embora tudo isso seja verídico, o que me traz aqui, além do prazer de escrever, é a vontade de dar a minha cara a tapa em público, porque perdi a conta das vezes que falei sobre julgamentos precipitados nos meus textos e vejam só, lá estava eu hoje, correndo no meio da rua, de mãos dadas com meu maldito julgamento, tomando de assalto a minha coragem.

Se me arrependo? Na verdade, não. Na dúvida – e com medo – provavelmente faria tudo de novo. E você? Pagaria pra ver ou apostaria todas as suas fichas na velocidade que o seu julgamento é capaz de fazer suas pernas correrem?

Me julguem, pois eu julguei.

E talvez eu seja mesmo uma péssima pessoa por isso e por mais um monte de coisas que não cabem nesse texto. Ou não. Talvez esse seja só um daqueles episódios que acontecem na vida da gente pra esfregarem na nossa cara que, às vezes, fazemos exatamente aquilo que condenamos.

Esperar o pior do ser humano certamente não faz de mim a pessoa mais fofa do mundo, embora isso esteja começando a me trazer a sensação de estar aprendendo a viver nesse mundo perverso, ou pior: desaprendendo a ser gente.

Roberta Simoni

Ah… a vida alheia…

Tenho experimentado bastante essa coisa de viver. Ao acaso, é claro, porque eu quase não sei viver de outra forma. De todas as outras formas, cheias de normas e fórmulas, eu até sei, mas gosto de fingir que não sei.

Sei que vivendo, eu vejo mais coisas do que gostaria de ver. E me vejo em mais situações do que gostaria de estar e, por consequência, acabo voltando para casa todos os dias com uma reflexão nova, dessas que a gente leva junto pro banho, pra cama…

Então cá estamos mais uma vez: eu, vocês e meus devaneios… que dessa vez me transportaram para uma situação que vivi não faz muito tempo: eu estava numa festa onde a Cissa Guimarães também estava. Logo que ela chegou, surgiu atrás de mim, feito assombração, uma senhora que eu “nunca vi mais gorda” e que, sem rodeios, começou a me encher de perguntas:

– Essa não é aquela atriz?

– É.

– Cissa Guimarães o nome dela, não é?

– É.

– Não foi o filho dela que morreu?

– Foi.

– Nossa! Ela parece tão feliz para quem perdeu um filho há tão pouco tempo, né?

– …

Lancei um olhar tão indignado para a maldita que não sei como não perfurou aquela boca que ela anda usando de forma tão infeliz. Depois, comecei a explicar num tom hostil que, para começar, o acidente com o filho dela já tinha acontecido há uns dois anos e, além disso, ela não poderia passar a vida inteira trancada em casa, chorando. Depois, no meio do meu discurso revoltado, me dei conta do tempo e da saliva que eu estava desperdiçando, dei as costas e saí, deixando a mulher, no mínimo, arrependida de ter aberto a boca.

Parece óbvio que as pessoas só enxerguem aquilo que os olhos vêem mas, pra mim, o óbvio é que estamos falando de gente limitadíssima, que tem que ver pra crer. Gente que precisa ver dor em exposição, pendurada numa moldura bonita na parede.

Mas é claro que ela vai viver esse luto a vida inteira. Ela vai acordar todos os dias e vai pensar no filho, vai sentir um aperto no peito que medicina nenhuma nunca vai conseguir curar e não vai passar nenhum dia sequer sem sentir saudades dele. Mas, ainda que o luto seja eterno, ele tende a ser cada vez mais interno. Ela vai parar de usar o vestido preto, vai colocar um belo vestido florido e vai sair linda e colorida por aí, a garota que quebra o coco sem arrebentar a sapucaia.

E sempre vai ter um infeliz se ofendendo com a alegria alheia. Sempre.

Talvez mais detestável do que alguém que julga o seu estado te vendo em breves minutos, ignorando o que você passa e sente nas outras dezenas de horas com as quais os seus dias são preenchidos, só mesmo quem tenta te convencer do que você precisa superar ou de como deve se sentir ou reagir diante das suas dores e perdas.

Alguém que te empresta um ombro, te dá um lenço ou um rolo de papel higiênico pra você assoar o nariz quando tudo que você quer é chorar, ou que fica do seu lado no mais profundo silêncio quando palavra nenhuma é capaz de confortar, é infinitamente mais útil do que alguém que te diz que já está na hora de você superar, que você precisa sair dessa e blá blá blá Whiskas Sachê.

Ah… a vida alheia! Como é doce e terna a vida alheia, não é mesmo? Fácil de opinar e simples de resolver, ainda que ninguém seja capaz de imaginar ou mensurar.

Se eu abro o berreiro no meio da rua ou se choro baixinho no travesseiro quando ninguém está vendo, não é porque a minha dor muda de tamanho, o que muda, na verdade, é o meu tamanho quando eu sinto dor. E se eu volto a ser criança toda vez que a vida me dói, isso é tão alheio aos outros quanto deve ser.

Roberta Simoni