Pra caber no encaixe…

– Onde dói?

– Dói tudo, doutô!

– Aqui dói?

– Dói também. Dói até os ossinho da alma.

– Alma não tem osso, menina!

– Pois a minha tem sim, sinhô! Não tá vendo essas fraturas expostas aqui?

– Cadê?

– Aqui, doutô! Os sentimento tudo pulando pra fora. Faz eles voltarem pra dentro, doutô, faz?

– Filha, eu não posso tratar de alma fraturada. Como eu vou fazer para te engessar depois?

– Mas se o senhor que é o médico não sabe, como eu vou saber? Me disseram que o senhor podia dá um jeitinho de me ajustar no lugar.

– Mas eu não posso, criança!

– E de lego, pelo menos, o senhor entende?

– De lego???

– É! Aquele jogo de encaixar aquelas peças coloridinhas, sabe?

– Ah, sei…

– Sabe? Ah, então o senhor pode me curar! Mamãe disse que a gente é igual a peça de lego, uma encaixa na outra pra montar um brinquedo legal.

– E onde eu entro nisso?

– O sinhô entra me fazendo entrar, ora! É que me dói tudo porque eu não me encaixo nas outras pecinhas… eu forço daqui, me machuco de lá, mas não entro em nenhuma, nada me cabe e eu não caibo em nada, doutô! Me conserta pra eu caber em algum lugar, pufavô?

– Menina, você não é uma peça de brinquedo! Que ideia é essa?

– Também não sei de quem foi essa ideia de fazer a gente igual a essas pecinhas de montá. Mas isso me parece coisa de um tal de “Jerico”. O senhor conhece esse moço, doutô? Minha avó sempre fala que as coisas que eu faço se parecem com as ideias dele, mas eu juro pela minha mãe mortinha que nunca copiei a ideia de ninguém! O senhor acredita em mim?

– Criança, eu…

– … eu sei, doutô! O senhor também não acredita em mim, não é? Tudo bem, não precisa acreditar, só me conserta! Deve ter conserto para peças defeituosas assim, feito eu, não tem?

– Escuta aqui, criatura, você não está doente nem é defeituosa. O seu problema é imaginação fértil.

– Engraçado, o senhor pareceu até meu pai falando agora! Então como é que faz pra parar de fertilizar a cabeça da gente, doutô?

– Não existe anti-fertilizante cerebral para transformar alguém numa peça funcional.

– Ah, não? E se o senhor inventasse? Podia ficar rico com isso, já pensou?

– Rico eu não sei, mas talvez eu conseguisse fazer você caber dentro da realidade.

– Ah, então melhor deixar como tá, né doutô? Se existir já me dói todinha, imagina se eu tiver que caber nessa tal de realidade? Dizem que lá é úmido e apertado, eu vou acabar transbordando e depois vai dar um trabalho danado pra me juntar…

Roberta Simoni

Eu reinvento-me. Tu reinventa-se?

Acordei inventando cansaço. Tudo psicológico. Só porque eu passei a noite em claro? Só porque o moço que vende churrasquinho de gato na esquina resolveu, de uns tempos pra cá, atrair (espantar?) a clientela com o adorável forró da banda Calcinha Preta? Imagina… Só porque ele coloca o som nas últimas alturas até o dia amanhecer? Bobagem… Só porque, quando eu estava começando a desconfiar que vivo na terra-de-ninguém, inconformada por ser alguém impedida de dormir pelos gemidos (sim, porque aquilo não é voz, menos ainda melodia!) da vocalista da banda, a polícia chegou, botou a casa em ordem e, quando a viatura virou a esquina, o som ficou ainda mais alto? Frescura minha… olheiras minhas, cansaço meu… dormir? Sonho meu, sonho meu…

Mas, e aí que o dia foi chegando ao fim, e aí que eu ia para casa me acabar de tanto dormir, e aí que quando eu estava pegando a bolsa para ir embora, pintou uma matéria importante para divulgar de última hora, e aí que eu tive que trabalhar até mais tarde. E aí que só de raiva eu decidi que não estava cansada, e aí que eu reinventei o que sobrou do meu dia, inventando que estava super-hiper-mega-ultra disposta a sair, encontrar meus amigos para jogar conversa fora e tomarmos um café, porque apesar de sextas-feiras combinarem bem mais com cerveja, bastaria apenas uma para me fazer dormir na mesa do bar, e as minhas invenções podem até funcionar, mas não sem a ajuda de cafeína para me reanimar.

Além disso, eu me reinventei com dinheiro no bolso, apesar de ter acordado “pobre, pobre, pobre de marré de si” porque foi dia de pagar contas, fui ao meu cinema favorito e voltei para casa decidida a inventar que sou baiana, de saia rodada e mão na cintura, caso o moço do churrasquinho estivesse por lá, com calcinha preta, branca, amarela ou cor-de-rosa cantando ou gemendo, ameaçando meu sono, porque àquela altura eu já havia deixado de ser zumbi para me reinventar humana, e humanos precisam dormir. Mas, por sorte – dele e minha – ele não estava lá.

Reinventei também, pela milésima vez, que nem todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite e que domingo não é dia de sair, mas de ficar em casa, lendo Cortázar. E ainda agora fiz as duas invenções mais importantes da semana. A primeira: Saramago não morreu, só deixou de estar aqui para estar em outro lugar e tirou férias de escrever, só isso. A segunda: hoje tem jogo do Brasil e eu, meus tímpanos e meu humor estaremos imunes às malditas vuvuzelas-do-capeta, afinal, são só algumas mosquinhas varejeiras de nada…

E para representar dias surreais e reinventados como estes, ninguém melhor que Salvador Dali. E eu não consegui pensar em outra imagem para o post de hoje, senão a “Dali Atomicus”, tirada em 1948, uma das minhas favoritas, do fotógrafo russo Philippe Halsman, que costumava retratar o mestre do Surrealismo.

Essa foto é dona de um fascínio explicável: para conseguir esse registro foram 26 tentativas, durante cinco horas, com a ajuda de três assistentes para jogarem os gatos (pobres bichanos…), um outro jogando a água, e o outro a cadeira. Pois é, naquele tempo não existia Photoshop, mas já existiam mentes brilhantes e criativas. E para a minha feliz surpresa, elas ainda existem, e uma delas resolveu reinventar fotografias clássicas com a ajuda de peças de lego, e deu nisso:

E você, também anda se reinventando para sobreviver?

Roberta Simoni