Eu também queria querer a lua!

“Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundasConsegui não descobrir.” (Manoel de Barros)

Meu afilhado estica os bracinhos para o céu e tenta pegar a lua. Quando ele sai à rua com minha irmã, já olha direto para o alto à procura dela, quando a localiza, pronto, enlouquece! Pula de colo em colo, escala todos os adultos que estiverem ao seu alcance na tentativa de chegar mais perto da lua, vidrado, com o dedinho apontado para cima, chamando a “ua” sem parar, jogando beijos e “namorando” com pisadas galanteadoras em direção ao céu. Quando é hora de voltar para dentro de casa, ele abre o berreiro.

Arthur tem 1 ano e 2 meses e, além de ser alvo do meu mais puro amor, é também alvo da minha mais profunda inveja. Ele está apaixonado pela lua! E, vejam, ele pensa que pode tê-la. Não é lindo isso? Tudo se resume a olhar, se encantar e desejar pra si. Só isso! Não tem que ter a mínima lógica, não precisa fazer sentido. E ninguém precisa dizer pra ele que o que ele está tentando fazer é um absurdo, até porque não vai adiantar, ele não sabe o que é o absurdo. Quando souber não vai gostar, ou talvez goste se puxar a tia, que apesar de saber o que significa, é dada a absurdos, tal como a epopeias.

E se eu invejo o meu pequeno é só porque ele ainda não sabe que não pode ter a lua, não imagina que ela é infinitamente maior do que ele e que está há uma distância tão grande que escalada a gigante nenhum pode aproximá-los. Ele simplesmente quer. Sabe-se lá o quanto deve ser incrível poder desejar q-u-a-l-q-u-e-r coisa? Eu adoraria saber. Já soube um dia, mas já não me recordo…

Em teoria, quanto mais conhecimento você adquire, mais capacitado você se torna para crescer na vida. Na prática, quanto menos você sabe, mais você se sente capaz de alcançar a lua.

A mim resta sentar, observar e admirar minha criança querendo tirar a lua do céu e levar para casa. E isso é melhor até do que poesia do Manoel de Barros.

Roberta Simoni

Eu, minha mala e “ela”.

Perder-se

É quando eu penso que ela não virá tão cedo que ela chega sorrateira, de mansinho, no meio da madrugada, prendendo a respiração, andando na ponta dos pés, com os passos lentos como os de um astronauta em solo lunar.

Tanto esforço em vão. Eu já estou acordada. Sou amiga da madrugada, temos um caso e somos fiéis amantes. É com ela que eu penso na morte da bezerra – e na minha própria – contamos carneirinhos, vaquinhas e a fauna inteira, esperando o sono chegar, mas quem chega é ela. E chega sem avisar.

Patética de tão dissimulada com seus passos de astronauta tentando não me acordar. Eu acho até graça, mas não sorrio pra ela. E ela sabe o porquê. Paro de pensar na bezerra, na morte dela, na minha, nas vacas, nos carneiros, e penso agora no astronauta que nunca foi à Lua e até hoje se faz acreditar ter passado por lá. Ai ai… como somos tolos. Acreditamos no que queremos acreditar…

Ela também tem o direito de acreditar que pode entrar aqui sem que eu consiga notar. Deixa… deixa ela achar que não está fazendo barulho nenhum com seus passos desastrados e pesados, com sua respiração profunda e cansada. Me deixa também… deixa eu fingir que não a vi chegar. Ela vai fingir que acredita por alguns dias, até tomar coragem de me enfrentar. Ganho algum tempo inerte até lá.

Lá no fundo, eu sei… uma pequena fração de mim gosta de vê-la chegar e sente até saudade quando ela demora para voltar, enquanto todas as minhas outras milhares de particulas começam a se repelir só de ouvir falar o nome dela outra vez: MUDANÇA!

Passo dias e dias sem lhe dirigir a palavra. Ela, educada, me corteja, abre caminho para que eu possa passar, me leva até à porta de casa quando vou sair, e quando volto, ela está lá, me esperando com um sorriso irritantemente largo. Me lança um olhar desafiador e começa a apelar: ocupa o meu lugar preferido no sofá, se coloca à frente da tevê, deita na minha cama, me empurra durante a noite. Por fim, começa a me incomodar.

E eu sei que ela só vai embora quando eu mudar. Então eu me mudo… mudo de casa, de bairro, de cidade, de país, de planeta. Ela vem comigo, fiel. E garante que só vai embora depois que eu também mudar.

Eu, cansada, carregando uma mala pesada numa das mãos. Sem rumo, sem estrada e sem calçados nos pés, caminho descalça na chuva outra vez. Na outra mão, a mão dela, entrelaçada à minha. Seguimos de mãos dadas, esperando o tempo mudar, e esperamos que eu mude junto com o tempo. Para melhor. Sempre.

Roberta Simoni