E invento você

Não fala nada, não… chega assim como a brisa. Me beija o rosto como o sol beija o mar, ou como o Banderas beijou a Zeta Jones naquele filme… serve também. Não precisa ficar pra sempre, mas passa por aqui antes do próximo abril, antes do fim do inverno, antes do gelo derreter, da neve ferver. Chega depois que a lua aparecer, nova, cheia ou crescente, mas, por favor, não chega minguante.

Enrola meu cabelo nos teus dedos, depois me pede para eu deixar ele crescer outra vez, mas diz que eu fico bonita também de cabelo curto, que eu fico linda de qualquer jeito, até quando eu acordo de uma noite não dormida porque o barulho da minha inquietação me despertou e me arrancou do meu sono outra vez. Mente pra mim. Vez ou outra mente, por favor. Mas mente sinceramente. Não precisa ser todo dia, nem o tempo todo. O tempo todo só me engole.

Me entope de informação desimportante, de risada fora de hora, de cultura inútil. Me ensina todas essas coisas de utilidade pública e grande relevância para a humanidade, como erguer uma sobrancelha só ou encostar a língua na ponta do nariz. Me ajuda a montar um castelo de areia, outro de cartas. Me escreve uma carta? Não precisa dizer nada. Só desenha um coração bem grande no meio da folha. Dentro do coração, coloca as iniciais dos nossos nomes. Eu vou achar bonitinho, cafona, mas bonitinho. As palavras você pode espalhar no tapete da sala, na cama do nosso quarto, no pé do meu ouvido…

Me beija na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, sobretudo na chuva. A casinha não precisa ser de sapê, pode ser de tijolo mesmo. Me faz correr para entrar na internet só pra ver se o seu signo combina com o meu. Preenche as minhas reticências, ocupa os meus espaços, rouba as minhas horas. Me faz perder a hora. Do trabalho, do dentista, do oculista. Me deixa enxergar mal, eu não quero corrigir o grau das minhas lentes agora.

Não tem problema se você vier de camisa velha, mas vem. Só faz a barba se você quiser. Mas eu vou gostar se você não fizer. E se você fizer é provável que eu goste também. Tá, eu não vou nem notar. Mas se você esquecer de propósito a sua escova de dentes na pia do meu banheiro eu vou perceber. E pior: vou gostar. Vou adorar ter minha liberdade ameaçada por um objeto inanimado.

Trinca os dentes com vontade de me apertar até me sufocar. Me afoga nos teus beijos, mas depois faz respiração boca-a-boca para me salvar. Me leva pro mar, me atira aos tubarões. Se atira comigo. Mergulha fundo até perder o ar. Seja estúpido. Tolo. Menino. Seja faminto. Instinto. Tubarão. Sinta fome de mim no café da manhã que eu me sirvo de você na mesa do jantar. Depois a louça é sua… tá na sua vez de lavar. Eu te ajudo a secar, mas só amanhã, quando eu acordar pra sonhar.

Fica pra sempre até eu terminar de te inventar.

Roberta Simoni

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A simplicidade de ser/estar viva!

E era simples. Bastava dar literatura a ela e lançá-la à beira-mar antes que o sol desse lugar à noite. De nada mais ela se queixava e até duvidava se você ousasse dizer que ela tinha problemas tantos a resolver. E corajoso do sujeito que tentasse lembrá-la de seus afazeres, que estivesse preparado para ser sumariamente ignorado ao alertá-la da casa e da vida bagunçadas para arrumar, o barulho das ondas quebrando era estrategicamente ensurdecedor.

E era paz. A moça tagarela se calava para ouvir, só assim. E tudo ao redor falava, o livro, o mar, a maresia, as conchas, os grãos minúsculos de areia quando a tocavam. Era o “Deus” dela que conversava quando a calmaria chegava. E ela se escutava. E confidenciava seus segredos ao pé do ouvido do vento, que soprava mansinho para ela não perceber que cochichava com as aves.

E era real. Tocava os pés na água salgada e fria e se encharcava da sensação  maravilhosa que era ter um corpo com sentidos. Sentia-se deleitamente viva e conectada com o mundo bom. E não se envergonhava do prazer exposto ao sol, quando a pele arrepiava seus pêlos com a brisa fria que o fim da tarde trazia e o sol ameno a envolvia num abraço que a aquecia em puro gozo. Depois sorria largo, sem se importar, sem direção, mas com todas as razões que lhe cabiam. E também ria solto pelo que desconhecia, mas sentia. E  ela bem sabia o que sentia.

Roberta Simoni

(Recebi essa foto do Marcelo, lá de Brasília, novo amigo que fiz bem aí, nessa praia, enquanto eu lia meu livrinho. Ele teve a feliz ideia de tirar essa fotografia antes mesmo de me conhecer, e depois teve a coragem de me contar seu feito arteiro, e agora, por fim, me mandou a foto de presente, que me encantou por ser um retrato espontaneamente poético. ;))

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.

“(…) Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.

Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,- para dizer alguma coisa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.

– Você?

– Eu mesmo.

– Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.

– Se embaraçar, você desembaraça depois.

– Vamos ver.

(Machado de Assis)

E não desembaraçaram ainda, nem os meus cabelos, nem meus pensamentos. E eu continuo de ressaca, mesmo sem ter ingerido uma gota de álcool sequer. Fui lá na praia, vi o mar revolto, testemunhei a altura que as ondas alcançaram, me certifiquei do exagero contado pelos outros, não chegaram a 10 metros, como disseram, mas talvez tenham tido a grandeza e a beleza devastadora de ondas de 5 metros de altura.

O mar e eu de ressaca, juntos. Parceiros de vida. E os surfistas se aproveitaram da fúria das águas da mesma forma que os pensamentos tortuosos se aproveitaram da minha embriaguez para deslizarem soltos, brincando de equilibristas. E por mais que eu balançasse a cabeça, eles não saiam, agarravam-se às partes vizinhas, orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos meus ombros.

E aí ficou tudo tão embaraçoso que, assim como o mar faz com as suas ondas, eu também deixei rolar, e me deixei ser levada pelo mar, e se a ressaca me embolou nas águas e não me deixou boiar, ela também não me deixou afogar, e não foi água salgada que eu bebi, foi inquietude necessária para tratar de viver, e me deixar puxar pra dentro, de mim e do mar.

E submersa, mesmo com toda a nossa volubilidade (minha e do mar), meus olhos de ressaca contemplaram o fluxo e o refluxo da maré cheia e eu me esvaziei de novo, para assim como a maré, me encher outra vez.

E eis que na minha frente, de repente, o que vejo? O pente, querendo me desembaraçar.

Fotos que meus olhos de ressaca registraram da Praia do Flamengo – RJ, também sob efeito do dia seguinte de embriaguez de chuva:

   

Roberta Simoni

Então eu sento e espero.

Espera

Eu sentei e esperei, esperei, esperei e, cansada de esperar, esperei o cansaço passar. Mas a única coisa que passou foi a minha paciência, desfilando na minha frente, provocativa, batendo a mão e dizendo: “bye bye, baby!”.

Aí eu sentei aqui, abri o meu blog e comecei a escrever, para dividir com você que me lê, essa minha urgência de viver. E olha, tenho pressa aqui pra dar e vender!

Sabe o que é cômico? Pensar que temos controle sobre a nossas vidas, enquanto está tudo mudando o tempo todo e somos afetados por outros fatores, pessoas e circunstâncias, e lá vamos nós, levados pela correnteza do rio, que não para de correr…

Mas aí, um dia, o rio se revolta e avisa: hoje não vou correr. E ele simplesmente não sai do lugar.

Mais engraçado ainda é que isso acontece, normalmente, quando a gente deseja muito seguir, descer rio abaixo ou ser levado pelas correntes marítimas, mas a água resolve descansar e não nos resta nada, a não ser esperar.

Se não partir de você a iniciativa de esperar o tempo certo de tudo acontecer, a vida se encarrega disso, e te faz parar de qualquer jeito.

Já tem algum tempo que as águas onde eu nado ficaram calmas, mansinhas, mansinhas… e eu lá, ainda me debatendo para não afogar, como se estivesse lutando contra uma correnteza feroz. Só que, na verdade, eu luto contra a ordem natural das coisas.

Então, só por isso, pelo menos nos próximos instantes eu não vou me debater, não vou desperdiçar energias, nem tentar enfrentar a força da minha própria natureza, já que é só esta que hesita em descansar. Vou ficar sentadinha aqui, imóvel, quieta, apreciando a beleza que a calmaria é capaz de revelar.

Vem comigo?

Roberta Simoni