O Blues é blue… ♫ ♪ ♫ ♪

Porque, às vezes, você precisa simplesmente ignorar o mundo, parar tudo o que está fazendo e ouvir a música. Precisa usar mais os fones de ouvido à seu favor. Precisa tirar a poeira do vinil e botar o seu disco preferido para tocar. Precisa escutar o ruído da vitrola. Precisa sair de casa para ouvir música boa. Precisa ir num show de blues em plena segunda-feira. Precisa tocar sua guitarra imaginária e dedilhar as notas que você nunca aprendeu. Precisa cantar num microfone, mesmo que a sua escova de cabelos ou de dentes não emitam qualquer som. Precisa sentir vontade de aprender a tocar violão de novo, depois de já ter desistido outras dezenas de vezes. Precisa ignorar sua voz desafinada e o seu inglês ruim e… cantar, cantar e cantar. Precisa deixar a música balançar o seu corpo. Precisa acreditar, por um momento, que a melodia é capaz de te transportar para um mundo muito bom, e entrar em transe. Precisa voltar a compor com o seu amigo violeiro. Você não precisa conhecer as cifras para saber os acordes, nem o tom, para sentir a harmonia da canção. Precisa fechar os olhos e sentir a música te tocar. Precisa ver as cores do blues. Você vê? O blues é blue

Roberta Simoni

Hoje eu acordei assim, meio Bossa Nova, sabe?

Música

Eu adoro ouvir a minha mãe cantarolando, não importa a canção, nem o tom. É a voz dela e o efeito que ela causa em mim.

Nessas manhãs em que eu acordo com receio de abrir os olhos e encarar as horas que se seguirão pelo resto do dia, ouví-la cantar tem sido como ouvir o assobio alegre dos pássaros na minha janela numa manhã ensolarada, ainda que a cortina esteja fechada e o quarto esteja escuro e melancólico, cheio de desânimo e preguiça, feixes de luz conseguem penetrar através da cortina, enquanto os pássaros saúdam o dia, fazendo o meu medo de despertar se dissipar no meio da melodia…

Nesses dias poucas coisas têm feito sentido, mas nenhuma delas têm pouco sentido. Meus sentidos estão todos apurados, os anseios tão inflamados e as feridas tão expostas que tentar camuflagem é puro desperdício de energia, e ludibriar a dor com palavras bonitas e consoladoras não tem nada de poético. Chega a ser patético.

E eu penso na menina de outrora e acho graça porque lembro que sempre fui mesmo muito melancólica, como as manhãs de agora.

Nessas manhãs eu acordo assim, meio “Bossa Nova”, sabe? Ouvindo Bebel Gilberto precisando dizer que te ama, vendo o barquinho do Bôscoli deslizando no azul do mar, a garota desfilando na praia de Ipanema do Tom e do Vinícius e fazendo coro com eles, cantando “chega de saudade”…

Contando vil metal como os nossos pais e os da Elis, lembrando de coisas nossas do Noel Rosa e das tardes bucólicas e preguiçosas em Itapuã com Toquinho e Vinícius… e aí dá vontade de pegar aquela velha viola e tocar Bossa Nova, com o perdão dos desafinados de Tom e João Gilberto, para acompanhar as cantorias na voz doce da minha mãe.

Isso, é claro, se eu soubesse tocar violão…