O Descobridor de uma paixão…

Todo mundo sempre diz: “Notícia ruim chega depressa”. Chega mesmo, e digo mais: independente da hora que chega, chega doendo. 

Dias atrás fui avisada sobre a morte de um professor dos tempos da faculdade de Jornalismo, e fui avisada por meia dúzia de pessoas ao mesmo tempo. E lamentei seis e mais algumas centenas de vezes, porque não se tratava apenas de um educador, mas de um mestre que, pra mim, algum dia foi simplesmente um professor, que me causava até um certo asco quando falava, porque falava muito e acumulava uma quantidade significativa de saliva no canto da boca. Afe!

Mas, de professor, ele passou a ser o meu “príncipe”, como já era de muitos. Um pouco caquético, talvez muito fora de forma, e com cabelos brancos demais para um príncipe, mas era de uma aura tão encantadora, que fazia a gente acreditar que ele era mesmo encantado.

Beta RadialistaEu estava numa daquelas semanas cansativas de trabalho dobrado, e só não faltava a faculdade quando ia arrastada pela minha consciência. Era dia de aula de rádio e, eu não sabia, mas era dia de apresentação de trabalhos também, o que eu sabia menos ainda é que era o dia da apresentação do meu grupo. Que grupo? Ninguém foi à aula naquele dia. Será por que todo mundo – a não ser eu – tinha conhecimento do trabalho que, por sinal, não havia sido feito?

Já era tarde demais, só eu estava lá, e precisava representar o meu grupo. Pedi, implorei, choraminguei, aleguei que eu não tinha condições de apresentar sozinha,  mas ele não se comoveu. Mandou eu preparar outro trabalho durante a aula, mas permitiu que eu fosse a última a fazer a apresentação. Só eu sei como eu me arrependi por ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei…

Lembrei de uma crônica que eu havia escrito naquela mesma semana e publicado no meu antigo blog. Ele concordou que eu aproveitasse aquele texto, mas lembrou que uma das exigências da tarefa era criar um debate acerca do tema abordado. Ufa! Eu não tinha com quem debater, estava no grupo do “eu sozinho”, acreditei que ele finalmente fosse me liberar. Doce ilusão! Ele arrumou voluntários para o debate… vários. E lá estava eu, no estúdio de gravação, com uma folha de papel impresso às presas, com algumas alterações feitas à mão e com a mesa cheia de colegas prontos para colaborar com o meu trabalho, sem receber nenhum décimo a mais por isso em suas avaliações. O Professor Dylmo tinha o dom de conseguir o que quisesse com os seus alunos, tinha vários seguidores, e eu não conseguia entender como aquilo acontecia. Só mais tarde eu compreendi que o que ele formava, na verdade, não eram alunos, mas, verdadeiras equipes.

Beta e Victor na RádioEu nunca fui muito boa em apresentações, sejam elas quais fossem, e eu sempre achei a minha voz horripilante ao microfone, quero dizer, pior do que já é naturalmente. Mas, não tinha para onde correr. Comecei a falar, tremi, gaguejei e pedi para começar de novo. Na segunda tentativa,  magicamente, li aquele texto como se estivesse conversando. O fato de ter sido escrito por mim, me possibilitou criar uma intimidade maior com as palavras, as pontuações e a sonoridade na hora da narração. Consegui relaxar e quando desviei meus olhos  – que estavam fixados no  papel – e dei uma olhada ao redor, observei a cara de admiração de todo mundo, ouvi muitas risadas (a crônica tinha uma tendência um tanto cômica, confesso), e por fim, parei nos olhos do professor Dylmo. Poucas vezes na vida vi um olhar tão brilhante voltado para mim. Entendi na mesma hora de onde vinha aquela luz que eu sentia me iluminando a medida que eu me entrosava com as palavras, com o microfone, com aquele ambiente…

Durante o debate, o clima estava tão descontraído quanto à de uma roda de amigos num boteco. Naquele momento eu havia descoberto a minha paixão por Radiojornalismo. Na verdade, quem descobriu foi o Dylmo Elias, aquele homem de 80 anos, das aulas de rádio na faculdade, da Rádio MEC, das peças de teatro que escrevia e dirigia nos palcos da vida. Foi ele… ele quem descobriu a paixão pela rádio em mim. E no fim da aula, comentou sobre a grata surpresa que teve durante a minha apresentação descontraída, e falou com tanta paixão sobre a magia que existe na profissão de radialista que se eu ainda não tivesse sido mordida pelo bichinho da rádio, eu teria me apaixonado instantaneamente.

Poucos dias depois, eu recebia a ligação da radialista Eliete, da extinta Rádio Haroldo de Andrade, que através da indicação do Dylmo, me convidava para participar do seu programa. E lá estava eu, de gaga à debadetora do programa “Papo Cabeça”, onde era possível ouvir as minhas gafes ao vivo, especialmente quando o assunto era o Presidente Lula, de quem eu reclamava a torto e a direito. Isso até eu ser chamada a atenção durante o intervalo, é claro.

Agora, lembrando com carinho das minhas apresentações na rádio, só eu sei o quanto foi importante ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei… e a falta que o Dylmo já está fazendo, muita gente sabe, muita gente…

PS: As fotos foram tiradas pelo fotógrafo André Muzzel, durante uma das nossas apresentações na Rádio Haroldo de Andrade, onde acabei me tornando estagiária, ao lado do amigo Victor Grinbaum (ao meu lado na foto) e uma equipe fantástica, que comandava a programa Agitando a Galera, que ia ao ar todo domingo.

Tesouro dos Mestres

Eu sei que hoje não é comemorado o Dia do Professor, mesmo assim é deles que eu quero falar hoje.

Estava com o pensamento longe, nem Deus sabe onde (como de costume, por sinal), quando me encontrei e parei onde estava: na minha professora de português da sétima série. Pois é, a minha cabeça estava uns 12 anos longe do presente. Quem diz que voltar no tempo é impossível, definitivamente não têm recordações.

Lembro com carinho de todos os bons professores que tive, desde a minha infância. Nessa fase, antes mesmo da alfabetização, tive uma professora – tia Edna – que cresci com saudades, um dia ela me deu um coelho de presente e me disse que era pra eu olhar pra ele e me lembrar sempre dela. Eu adorava aquele coelho, vivia com ele pra cima e pra baixo, só que a nossa relação rendeu muita “sarna para se coçar”, literalmente, para todos lá em casa. Tivemos que ficar de “quarentena” por uns bons dias para não espalhar o vírus, até melhorarmos. Já o coelhinho piorou e não resistiu. Mas, ele e a tia Edna se eternizaram assim mesmo.

Teve também o Guto, o único professor de matemática que recordo com saudades e emoção, tive aulas com ele na quinta série, depois disso, não me lembro mais de ter entendido alguma coisa, além do básico, sobre matemática na vida. Ele percebia a minha dificuldade, e tinha uma paciência sem igual, e ia além. Quando notou a minha timidez de perguntar, e percebeu que eu me sentia a pior das criaturas por não entender o que parecia ser – e devia ser mesmo – óbvio para todo o resto da turma, parou de me fazer perguntas diante dos outros e não mais me chamava para resolver as equações no quadro de giz, me poupando de sentir vergonha.

Certa vez ele me pegou chorando baixinho durante uma prova, e, discretamente, se abaixou ao meu lado, levantou meu queixo, limpou as minhas lágrimas e disse em voz baixa que não havia motivos para eu chorar, que eu não precisava me preocupar com nada porque ele estava ali para me ajudar. Ninguém mais percebeu o que se passava, e dali em diante, durante todas as aulas, depois de passar a matéria, ele ia até mim e perguntava discretamente se eu havia entendido, e caso a resposta fosse negativa, ele ficava o tempo que fosse preciso comigo, até ter certeza que eu aprendi. Foi assim durante todo o ano letivo, e no amigo oculto de fim de ano, adivinhem quem me tirou? Ele mesmo. Na hora de entregar o presente, ele fez um discurso emocionado diante da turma, e descreveu a menina baixinha, gordinha e de braço quebrado (essas eram minhas referências na época) de maneira tão bela que ninguém conseguiu descobrir quem era, até ele falar o meu nome.

Junto do anjinho que me deu de presente, ele escreveu um cartão, do qual ainda me recordo das palavras. Tenho guardado e preservado até hoje tanto o cartão quanto o anjinho, mas nada é tão precioso quanto essa lembrança, que se transformou em lição de vida e sensibilidade para mim.

No segundo grau a professora de artes, Cacilda, homossexual e motivo de chacota entre os alunos, era séria, e talvez por isso, muito ríspida também. Sabia como ninguém impor respeito e era extremamente crítica, mas nem percebia como se derretia ao ver um trabalho bem feito por um aluno. Na época, eu e mais três amigos inseparáveis – até hoje – adorávamos criar e desenhar, e acabávamos nos destacando do restante da turma, ela adorava tudo o que fazíamos. Lembro que uma vez tive um desenho exposto num museu da cidade, e também tivemos um trabalho transformado em capa de livro de poesias da escola. (Lembra Igor?)

Ela me fazia sentir vontade de criar, me estimulava a libertar todas as minhas idéias. Eu desenhava o tempo todo e comecei até a pintar quadros. Um dia, tomei coragem e levei as minhas fotografias para ela dar uma olhada depois da aula. Ela arregalou os olhos e disse: “Roberta, você nasceu pra isso, você precisa se profissionalizar.” Eu achava graça da empolgação dela, mas, para mim tudo aquilo era puro devaneio. Na semana seguinte, antes de terminar a aula, na frente de todos, ela me pediu que esperasse até o final da aula porque ela queria me entregar uma coisa.

Na mesma hora já começaram as risadas e o ti-ti-ti na classe, todo mundo  fazendo piadinha, e eu realmente não dava a mínima importância, sempre fui completamente despida desse tipo de preconceito. No final da aula ela me chamou para ir até a casa dela (duas casas depois do colégio), para buscarmos um presente que ela queria me dar. Saí da escola e fui até lá com ela, sem me preocupar com os olhares maldosos. Logo que entrei, ela me apresentou para a mãe dela, que foi logo dizendo – “Ahhhh, essa é a futura fotógrafa!” Fiquei toda boba, é claro. Aí ela veio com a coleção completa de revistas sobre fotografia, e me deu todas. Eu fiquei boquiaberta, e não quis aceitar, ela insistiu e me disse que era pra eu acreditar no meu talento, porque ela acreditava, e queria colaborar de alguma forma para eu me tornar uma a profissional de sucesso, que ela tinha certeza que eu seria. Mais tarde, quando e eu me vi tendo que decidir o meu futuro profissional, com medo de ir embora da cidade para fazer uma faculdade, o estímulo que ela me deu àquela época foi essencial, só lembrava dela dizendo: “Esse lugar é pequeno para você, vá conquistar o mundo, menina…”

Pode ser que eu nunca conquiste o meu bairro, o que dirá o mundo, mas só o fato de ter tido uma mestra como ela acreditando e apostando em mim, foi como se eu tivesse conquistado.

Por fim, voltando à professora de português da sétima série – Andreia – que há 12 anos é minha amiga, a quem chamo carinhosamente de “Tia Dequinha” e sou chamada de “bonequinha”, apesar da nossa diferença de idade nem chegar a uma década e dela estar muuuito longe se ser “tia”, é assim que a considero, minha tia, mestra e amiga, e me sinto mesmo a sua bonequinha.

Fui aluna da primeira turma que ela deu aula. E, pelo menos comigo, ela deu um pouco mais de sorte do que o professor Guto, de matemática, coitado… santo homem. Sempre me dei melhor com as letras do que com os números, e de repente me deparei com uma professora cheia de idéias inovadoras e com muito entusiasmo de ensinar (peculiar aos principiantes).

Eu nunca vi nada parecido com a sintonia que existia entre nós, alunos, e ela, professora de primeira viagem. Talvez pela pouca diferença de idade, talvez pela mesma troca de energia, ou porque falávamos a mesma língua, o fato é que rolou química, apesar de estarmos aprendendo português. E como aprendemos!

A Marca de Uma Lágrima. Esse foi o nome do primeiro livro que eu li – e senti – na vida. Tudo que eu havia lido até então, tinha sido pela metade, ou só por exigência escolar. Pois é, ela me colocou no caminho sem volta da leitura, felizmente.

Um dia eu a encontrei triste na escola, o que não era nada comum. Perguntei o que havia acontecido, e ela chorou de imediato, e mal conseguiu falar que a sua cadelinha havia falecido naquele dia. Senti como se fosse comigo, quem gosta de bichos, sabe como é doloroso perdê-los. Chorei junto com ela, depois fui pra casa, escrevi uma carta, comprei, com uma amiga, um cachorrinho de pelúcia para ela, e o batizamos de “Ro-beta” (junção de Rosângela – nome da minha amiga – com Beta). Fomos até sua casa e entregamos o presente, choramos mais um pouco, e começamos ali uma amizade que, tenho certeza, vai até as nossas próximas vidas, se elas existirem.

Antes do segundo semestre terminar, recebemos a notícia de que a escola fecharia as portas. Sobrevivemos naturalmente à despedida com os demais professores, até a aula dela. Que aula? Nós só chorávamos, todos juntos, abraçados à ela. Algum tempo depois, ela me deu uma foto que tiramos neste dia, que é, ao mesmo tempo, linda, terrível e cômica. Todos chorando de cara inchada, até os meninos mais broncos da turma de boca aberta, se acabando de chorar.

Infelizmente cada um foi parar numa escola diferente, e por conta dessa mudança repentina, ainda por cima no fim do ano letivo, muitos acabaram sendo reprovados. Perdi o contato com a maioria dos meus colegas, mas não com ela. Frequentávamos a casa uma da outra, e ela conquistou toda a minha família, o que era absolutamente previsível. E, um dia, no meu aniversário, ela chegou com dois presentes: um diário lindíssimo e uma singela carta de cinco páginas. Uma das mais criativas e emocionantes que já recebi na vida.

E toda vez que preciso me lembrar do quanto a vida foi e é generosa comigo, abro o meu baú de tesouros, onde guardo não só esses preciosos presentes, mas principalemente, as melhores lembranças de cada momento ao lado dos professores que foram mais do que mestres para mim, que reforçaram o meu caráter e me ensinaram muito mais do que português, matemática, artes, ou qualquer outra disciplina. As lições que eu aprendi com eles me acompanharão por toda a vida e, certamente, me ajudarão a ensinar a outros um pouco do que aprendi, ainda que eu não tenha o menor talento para ser professora, sei que posso fazê-lo de infinitas formas.

Observação 1: este é o texto que me referi há alguns dias, que ficou longo demais e eu ainda estava pensando se publicaria ou não. Eu decidi publicar, como pode ver. Se você leu até aqui, parabéns, e me perdoe por ter me extendido tanto. Eu avisei, eu avisei… (risos)

Observação 2: estou aqui pensando sobre quando eu escrever um texto contando dos piores professores que tive, e já me veio à mente uma lista deles. Já vou logo avisando que provavelmente o texto será o dobro deste, pois assumo que não fui benquista pela maioria dos professores que tive. E, sinceramente, nem imagino os motivos.

Roberta Simoni