É disso que eu tô falando!

É daquele beijo com sabor de café que eu tô falando. Do café com sete gotas de adoçante que você preparou pra mim de manhã.

Eu tô falando daquela alegria condicional provocada por aqueles amores incondicionais que a gente tem na vida, poucos, mas tem.

Daquela madrugada que nós deitamos no chão de concreto do terraço lá no alto da cidade pra ver a lua e planejamos o que faríamos quando ficássemos ricos depois de ganhar na loteria, isso, é claro, se a gente lembrasse de jogar.

E daquele dia que eu tinha desistido de viajar para acampar porque estava chovendo e aí vocês apareceram na porta da minha casa com barraca e mochila nas costas e não me deram outra alternativa senão partir pro meio do mato…

Do cheiro de amaciante no lençol. Da roupa de cama limpinha que eu acabei de trocar.

Daquela chuvinha fina que cai no fim da tarde e a gente fica da sala assistindo as gotas caindo no quintal, sentindo o cheiro da terra molhando aos poucos. Desses dias de verão dentro e fora da gente, que você liga o ventilador em cima de mim e eu me jogo semi-nua no piso de madeira da sua sala e você ri, dizendo que um dia ainda vai me levar pra morar numa casa com uma piscina bem grande.

Daquela música que a gente compôs junto. Da filha linda que você batizou com o mesmo nome que o meu e agora você vem reclamar comigo que o nome acabou influenciando na hiperatividade da menina.

Eu tô falando é dos longos silêncios que não incomodam, da confortável ausência de palavras, da vontade de ficar perto sem fazer nada, dos carinhos que se comunicam sozinhos, sem a nossa ajuda.

Daquele dia que a gente parou o carro alugado numa estrada escura e completamente deserta em algum lugar entre São Paulo e Minas Gerais, apagou os faróis para ver o céu mais estrelado que eu já contemplei na vida e uma estrela cadente despencou bem na nossa frente e aí a gente começou a pular e se abraçar, até que, no meio da euforia, alguém lembrou que devíamos fazer um pedido… e então, ficamos lá, parados, num abraço mudo, olhando pro céu e sentindo nossos pés desgrudando da terra.

Das vésperas. De viagens, feriados, fins de semana, fins de saudades…

Eu tô falando de pés enroscados, beijos na nuca e sexo preguiçoso de manhãzinha.

Daquela Coca-Cola gelada e com pouco gás que eu vou tomar no gargalo assim que eu terminar isso aqui que eu tô escrevendo pra falar disso aqui que eu tô falando…

É disso que eu tô falando!!!

Vocês me entendem???

Roberta Simoni

Não dormi e acordei poesia.

Sabe quando você vive um momento especial, na hora nem desconfia da grandeza daquele instante e só muito tempo depois é que se dá conta do quão foi feliz? Eu não. Eu não sei como é ter essa sensação. Tenho a exata noção da proporção da felicidade que tenho nas mãos enquanto a tenho, antes que ela se dissolva e escorra entre os meus dedos finos.

Eu era feliz e sabia. Sempre soube, desde sempre. E escondia os meus seios dentro de uma camiseta larga, tentando camuflar a evidência de que virava mulher. Queria me agarrar àquela infância que eu já sabia doce, e não queria me mudar da casa pequena porque gostava de não caber dentro de tanta alegria infantil. Eu queria prolongar viagens, passeios, o sabor do chocolate, e os dias, as horas… Queria que a felicidade ficasse um pouco mais, que o dia não amanhecesse agora. Queria que você não fosse embora. Sabia que fecharia os olhos no dia seguinte para te ver nas lembranças mais lindas e te encontraria na minha saudade.

Não ensinaram a gente a ser feliz porque não tem como aprender. Não existe ser, mas eu sei quando estou, eu sinto, farejo no ar, como o anúncio da chuva de verão que vem e vai embora tal qual, depressa, ainda que eu a deseje eterna. A gente aprende, ao menos, a identificar quando ela vem, cheia de graça, sinuosa ou articuladamente, invadindo o ambiente, encharcando a gente, ou pingando de pouquinho, molhando só aqui dentro, me fazendo chuva no céu de sol que brilha, aliviando o corpo do calor, matando a sede da alma.

Solto o cabelo, passo perfume e me enfeito toda para me molhar. Tem dia novo nascendo. Tem gente acordando e a gente ainda nem pensa em dormir. Tem pássaro assoviando ao fundo, tem sol saindo de dentro do mar, tem voz cantando, tem acorde de violão tocando, tem melodia encantando, tem amigos sorrindo… olha lá… tem gente se emocionando… é a felicidade chegando, sentando na nossa roda e cantando afinada, fazendo coro com a nossa alegria de estar… com ela.

Não durmo há dias e acordo pura poesia, encharcada do bom da vida.

(… e era isso que cantávamos com o Kiari, virando chuva com ele… obrigada, querido, por molhar a gente!)

Roberta Simoni