Morrer só um pouquinho…

Preguiça

– Alguém tem notícias da Beta?

– Ah, ela me disse que estava pensando em morrer um pouquinho por esses dias…

– Ah, tá! Então é por isso que anda sumida!

Não seria bom se a gente pudesse morrer só um pouquinho, de vez em quando? Eu sei que esse parece um pensamento suicida, mas não é. Aliás, de suicida eu não tenho nada. Gosto muito de viver, apesar de tantos pesares. Gosto mesmo!

Pode ser que a segunda-feira esteja me influenciando a dizer isso, ainda que aqui no Rio de Janeiro a chuva tenha dado uma trégua e esteja fazendo um sol convidativo, o dia está tão letárgico…

Parece que tudo quer dormir, o elevador enguiçou, a fatura do cartão de crédito que vence hoje não chegou, o relógio não despertou, o cheque ainda não compensou, minha cara de sono ainda não desinchou e a cafeteira pifou…

E logo hoje que eu vislumbrei uma xícara de café como uma tábua de salvação.

Com tanto trabalho acumulado, cobranças, prazos, pendências incontáveis, e sem cafeína para despertar, só mesmo morrendo (no sentido não-literal) um pouquinho e depois voltando. Sim, porque dormir, obviamente, não basta.

Quando eu durmo, eu me preocupo sonhando. Quando eu não durmo, eu vivo o pesadelo acordada. É um ciclo vicioso que, para ser quebrado, só se eu for desligada ou, pelo menos, reinicializada. O problema é não ter aquele famoso botãozinho de “liga e desliga”… aaaaiii, que inveja que eu sinto do meu computador nessas horas!

A morte não deveria ser algo definitivo. Poderia ser como férias: você tem direito a tirar (por lei, pelo menos) uma vez por ano, e aí decide o que fazer com ela. Nós deveríamos ter o direito de sermos desligados por um período determinado, sem precisar fazer o menor esforço (isso inclui pensar, falar, ouvir, comer, fazer xixi, etc.).

Viver tudo assim, de uma vez só, às vezes cansa… e em dias sonolentos e apáticos como o de hoje, o mundo parece estar bocejando, numa preguiça coletiva. Dá vontade de ignorar os compromissos, principalmente os prazos, botar o corpo  – e o cérebro – para dormir e morrer só um bocadinho. Ai ai… que preguiça de existir!

Dá pra parar o mundo, que eu quero dormir?!?

Dormir

Roberta Simoni