Alô, Palolito?

20140305-115543.jpgVô, amanhã faz 5 meses que você foi dessa para melhor, cantou para subir, empacotou, foi ter com as estrelas. Ainda choro semanalmente. Mas é da minha avó a maior cota de lágrimas. Justo! Afinal, foram 56 anos de casados. Ela anda tinhosa e melancólica sem você por aqui. Mas vamos levando. E ela, por enquanto, vai sendo levada pela saudade que sente de você.

Esses dias eu fui ao Patronato para entregar uns documentos seus que precisavam ser enviados para a Itália. Só quando eu estava chegando lá é que me toquei de que eu tinha a sua certidão de óbito nas mãos. Chorei feito criança perdida no meio da rua.

Uma amiga me ensinou que a consciência da morte vem em ondas como o mar. Tipo aquela música, sabe? Ela tem razão. A ficha vai caindo aos poucos mesmo.

Você precisava ter visto o seu velório, vô! De todos os caixões que já vi na vida, o seu foi o mais sofrível. Culpa do auxílio funeral furreca que você escolheu pagar. A única coroa de flores que tinha na sua capela era feita de flores de plástico. Eu estava quase ficando chateada quando te vi dentro daquela caixa que, se não era de papelão, era feita de alguma coisa parecida, muito frágil, coberta de papel madeira, quando me dei conta de que, em vida, se você pudesse ter escolhido todos os detalhes do seu funeral, não teria feito nada diferente. Meu velho pão duro!

Pão duro e bonito. Você foi o morto mais lindo que eu já vi. Juro! Com seus 87 anos, a cabeça grisalha, ainda repleta de cabelos, a pele branquinha, com poucas manchas, as sobrancelhas perfeitas e aquele seu nariz lindo de galã dos anos 60 de pôr inveja em muito vivo por aí.

Você ficaria surpreso de ver quantas pessoas compareceram ao seu ritual de despedida que, cá pra nós, foi tão macabro quanto qualquer outro. Aquelas horas intermináveis velando seu corpo para, no fim, te ver entrando numa cova.

Voce viu quanta gente chorou por você? Bom, se você chegou a aparecer por lá, aposto que foi embora cedo, cansado e entediado. Eventos sociais nunca foram o seu forte. Nem o meu.

Aliás, não sei se você sabe, mas é carnaval aqui embaixo. E quando eu digo “embaixo”, não é só porque eu gosto da ideia infantil de que você está no céu, ou em qualquer lugar acima desse aqui, de onde estou te escrevendo, mas também – e principalmente – porque aqui tá cada vez mais baixo, quente e parecido com o que dizem sobre o inferno.

Esse ano, como de praxe, eu tentei fugir da cidade durante o carnaval. Teria fugido do planeta se pudesse. Mas, na impossibilidade de fuga, fui obrigada a andar pela minha cidade desviando dos montes de lixos e baratas que tomaram conta das ruas. Os garis entraram em greve num momento bastante apropriado. Achei mais do que digno. Mas, como sempre, vai acabar em samba.

Ontem tinha um rapaz comendo uma menina aqui na rua de casa. Você se envergonharia dessa geração. Não só porque a garotada chegou ao ponto de trepar no portão da casa dos outros, mas porque, além de tudo, ele, brocha depois de tantas cervejas, não conseguia nem sequer comer a menina. Só enfiava a mão nela que, de tão bêbada, tentava se equilibrar e levantar a cabeça para não vomitar em cima dele. Imagine você, que se manteve viril, tentando arduamente dar um trato na vó até o último segundo, se prestando a um papelão desses? Não sei se senti mais vergonha por ela ou por ele que, diante da plateia, não conseguiu nem dar no couro. Uma lástima, vô!

Lembra daquilo que eu falava sobre o carnaval e você ria? Então, me diz se eu não estava certa? O que não é o carnaval senão um monte de zumbis fantasiados pelas ruas? Aquele monte de gente anencefálica andando trôpega por aí tentando comer gente. Eu disse tentando.

Roubaram a minha bicicleta hoje. Aquela que eu suei para pagar, lembra? Não, não… não fizeram nada comigo. Eu nem vi a cara do ladrão. Eu estava dentro de casa, e a bicicleta, na minha porta, dentro do condomínio “tranquilo e seguro” onde estou morando. Tranquilo e seguro, vô! Entende? Não existe mais lugar assim no mundo.

Desculpa, mas no momento, não tenho disposição alguma para vestir a minha fantasia de feliz, especialmente no carnaval, que seria todo ano igual se não estivesse pior a cada ano. Também não consigo achar motivos para comemorar coisa alguma agora. Acabo de perceber, inclusive, que não escolhi o melhor dia, tampouco, meu melhor humor, para te escrever. Mas eu precisava te escrever, já adiei demais.

Afora o mundo que parece já ter acabado e ninguém se deu conta, venho travando minhas lutas íntimas que, você sabe, não têm sido poucas nem pequenas. Ao menos, me sinto mais resignada e menos reclamona do que de costume. Estaria eu, finalmente amadurecendo?

Seu bisneto ainda nem completou 3 anos e já fala pelos cotovelos. Tá levado de doer! Ontem eu o vi se estabacando no chão, levantando sozinho e dizendo: “Opa! Caí de maduro!”. Agora, veja você…

É mais ou menos assim que tô me sentindo nessa fase. Caindo de madura. Vendo o mundo com os olhos cansados e caminhando com dificuldade. Só que, pela lógica da vida (se é que ela tem alguma), eu ainda tenho muitos anos e muitos passos pela frente. Preciso encontrar disposição para continuar andando. Aceito sugestões, mas vou fingir que não estou te ouvindo se você também me sugerir entrar para uma academia, combinado? Você sabe muito bem que não é disso que estamos falando aqui. Então não me provoque!

Dia desses, uma de suas sobrinhas italianas me encontrou por essas bandas da internet. Queria saber de você. Como não fui uma boa aluna e enriqueci muito pouco meu vocabulário italiano enquanto podia aprender com você, não encontrei outra maneira de dar a notícia da sua morte senão de forma direta, com as poucas palavras que sei usar: “Scusa, il nonno è morto”.

Ela deve ter me achado uma desalmada mas, você sabe, eu sou só uma ignorante.

Quando precisei dar essa notícia, meses depois da sua morte, foi só mais uma onda. Quando tive que levar seus documentos até o Patronato, outra onda. Agora, enquanto te escrevo, outra. Às vezes, levo uns caixotes quando a onda é muito grande, mas vou sobrevivendo à saudade que sinto de você.

Quando – e se – você puder, mande notícias suas. E caso você tenha a oportunidade de voltar pra cá, por favor, pense bem. Eu não faria isso se fosse você!

Com todo meu amor, receba o meu beijo mais saudoso. Sua neta,

Roberta Simoni

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Os dias andam tristonhos

Dias tristonhos

Os dias estão tristes, os dias estão tristes. Os dias estão se recusando a sorrir.

Minha mãe liga para avisar que meu avô foi entubado, já não respira sem a ajuda dos aparelhos. Olho para a janela e penso que hoje deveria ser um dia de chuva. Hoje, especialmente, eu gostaria de ver minha janela chorando, solidária. Mas ela permanece seca, intrépida.

O telefone toca de novo, dessa vez é minha tia. Minha tia preferida, vale ressaltar. Tia Eza anda tendo fortes dores na coluna. Cuida do meu outro avô que ainda não precisa dos aparelhos para respirar. Mas precisa dela. E ela respira ele todo o tempo e ainda me diz – sem a menor desconfiança do tamanho do disparate – que é pra eu ir pra lá pra ela cuidar de mim também. Agradeço, mas não vou, claro. Me comovo profundamente com pessoas como a minha tia.

Já é madrugada. Eu não sei o que é dormir direito faz algumas semanas. Não haveria de dormir agora, depois de passar dois dias no hospital por conta de uma reação alérgica violenta no meu rosto e, principalmente, depois de sentir de forma tão clara o prelúdio da partida do meu avô preferido.

O meu amor se deita ao meu lado e me faz um carinho no rosto. Dormimos abraçados, enlaçados. Porque a dor, eu descobri agora há pouco, é uma forma poderosa de unir duas pessoas. Antes de pegar no sono, ele diz que dói me ver sentir dor. Depois me pergunta quando as coisas vão, finalmente, começar a dar certo. Eu também quero saber, meu bem, eu também quero saber…

Eu gostaria de entender que mal é esse que afeta os meus prediletos.

Os dias estão tristonhos. Os dias se recusam a sorrir e o que é ainda pior: se recusam a chorar. Faz tempo que não chove no Rio de Janeiro e o noticiário avisa que hoje é o dia mais quente do inverno.

Os aparelhos dele ainda estão ligados, mas minha mãe confessa, como quem fala cochichando para não ouvir o som da própria voz, que a casa dos seus pais já começa a ter um cheiro diferente, uma atmosfera estranha. Ela sabe o que vem a seguir, eu sei, todos sabemos, mas nem por isso dói menos.

Recebo mensagens de condolência de uma prima querida da Itália pelo estado do meu avô. Meus olhos ficam marejados de emoção enquanto leio, menos pelo teor das mensagens e mais pelas palavras escritas em italiano. Lembro do meu avô me ajudando a falar sua língua e das histórias que ele me contava de lá. Depois sorrio com o gosto doce da lembrança da nossa última conversa por telefone:

– Ô Nono, como você tá?

– Tô bem, tenho 3 namoradas. Sua avó e as duas enfermeiras.

– Mas, vô, é muita mulher pra você dar conta sozinho!

– E você?

– O que tem eu?

– Por que não se junta a elas?

– Mas eu sou sua neta!

– Não tem problema. Se você quiser ser a minha namorada, eu deixo você ser a principal delas.

E eu, a namorada principal do meu avô, evito escrever quando os dias estão tristes porque sou, naturalmente, influenciada por eles. Não quero que você aí, do outro lado, termine de ler esse texto com vontade de cortar os pulsos. Mas, convenhamos… o que seria do escritor e do leitor sem uma dose de realidade?

Já é tarde quando chega a chuva fina junto com a notícia da morte de uma amiga muito, muito querida. É o céu chorando, penso. E paro de escrever. Me permito, enfim, largar meu corpo à beira da cama, abaixar a cabeça e chorar de soluçar.

O discurso do pastor ao lado do corpo da minha amiga não me comove, pessoas com bíblias embaixo do braço oferecendo consolo em frascos de orações escandalosas não me consolam. Me afasto dos outros e passeio sozinha pelo maior cemitério que já vi na vida. Diante de centenas de túmulos de desconhecidos não sinto nenhum medo, nenhum estranhamento, não sinto nada. Estou vazia.

Minha amiga morreu no dia do próprio aniversário. É a primeira vez que eu vejo alguém morrer no mesmo dia que nasceu. Ela sofreu e adoeceu por amor e o amor por lá nem apareceu para um último adeus. Descubro mais uma coisa nesses dias doloridos: não tenho medo de gente morta, tenho medo de gente viva.

Os dias estão tristes. Os dias estão tristes. E eu tenho visitado bem mais hospitais e cemitérios do que gostaria.

Roberta Simoni

Sobre expectativa de vida, miojo e medo de dentista

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Minha vida não é mais a mesma desde o último domingo, quando, durante uma trilha no alto da Serra, eu caminhava feliz e faceira, admirando as árvores, sentindo o cheiro da vegetação, curtindo o clima ameno de outono, acabei me empolgando com essa coisa toda de contato com a natureza e comecei a cantarolar umas músicas (quase a Chapeuzinho Vermelho, só que não), entre elas, um clássico do Cazuza me veio à cabeça e eu, inspiradíssima, tratei de cantar para o meu namorado, que seguia comigo na trilha:

“(…) Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar. Hum… meu bem, você tem tudo, tudo pra me conquistar…”

Retribuindo minha singela declaração de amor, ele responde:

“Quero viver um milhão de horas com você…”

Silêncio na trilha.

Confuso com aquele silêncio repentino, ele me pergunta se disse alguma coisa errada e eu, me sentindo ligeiramente rejeitada, respondo: “só um milhão de horas, é???”

“Mas, Beta, um milhão de horas é mais do que uma vida inteira. Isso dá mais de 100 anos. A gente vive, em média, umas 600 mil horas.”

Oi? Momento Maysa: “Meu muuuuuundo caiu!

Perplexa e chocada com essa nova perspectiva de contagem do tempo, passei o resto da trilha cheia de questionamentos profundos e filosóficos sobre a efemeridade da vida, o tempo que me resta e blá blá blá. Questionamentos esses que eu trouxe para casa, para cama e agora para o blog.

(Pausa para duas informações relevantes e esclarecedoras: 1- só é capaz de se chocar com tal perspectiva quem, assim como eu, não tem a m-e-n-o-r noção de matemática lógica e não é capaz de fazer pequenos cálculos mentalmente, o que dirá lidar com números de maior escala. 2- Ficar de recuperação nas disciplinas de ciências exatas foi algo recorrente na minha vida e isso, certamente, deve significar alguma coisa.)

Pelos meus cálculos (mentira, os cálculos são desse site aqui) eu vivi até agora 252.408 horas. Se a expectativa de vida de um ser humano é de 600.000 horas, isso significa que eu já gastei quase a metade do meu cartucho. E, com sorte – se nenhum raio cair na minha cabeça ou qualquer tragédia de outra natureza não me atingir até lá – me restam, em média, umas 340.000 horas de vida.

Só eu acho muito mais assustador encarar o tempo por esse prisma?

Quantas horas eu já não devo ter perdido entediada? Quantas vezes eu já fiquei contando os segundos para o dia acabar? Quantos dias eu já passei na companhia da Laura (minha habitual depressão)? Quanto tempo eu já gastei (e ainda vou gastar) me alienando diante de uma tela (de televisão ou computador)?

De repente, cada minuto desperdiçado começou a parecer uma falta gravíssima, quase uma ofensa.

Em contrapartida, numa conversa que tive hoje com a Gabs sobre “a vida, o universo e tudo mais”, ela me alertou para a existência de um artigo de engenharia genética, que diz que num futuro próximo, talvez seja possível viver 800 anos. Cruzes! Pra quê tanto? Dispenso.

Enquanto isso, a água do miojo fervia e eu, à beira do fogão, continuei tentando fazer contas: se já tem quase 10 anos que eu moro sozinha e nessa década de vida eu já devo ter ingerido muito mais miojos do que meu estômago supõe, imagina isso multiplicado por 80?

Ah não… não quero passar 800 anos comendo macarrão instantâneo, não!

A verdade é que imaginar que a vida pode ser mais longa do que o previsto me assusta bem mais do que ter a noção de que falta “pouco” para acabar.

Ainda mais aterrorizante do que passar centenas de anos vivendo de miojo foi pensar em quantas vezes seria preciso ir ao dentista nesse período. Nas últimas semanas eu venho lidando com o pavor de encarar o dentista para extrair um siso que vem me tirando noites e noites de sono (se houverem dentistas lendo isso agora, me perdoem, não é nada pessoal, eu só tenho muito, muito medo de vocês. E de sentar na cadeira do consultório de vocês. E do barulhinho que fazem essas ferramentas de tortura que vocês usam na boca da gente). Horror é a palavra. Horror!

Conclusão: diante de um medo tão paralisador (e injustificável, eu sei), é capaz de eu ter uma crise de pânico até amanhã, quando a cirurgia no “torturador” está marcada. Também é provável que a minha gastrite piore consideravelmente se eu continuar me alimentando mal desse jeito, com a velha desculpa do excesso de trabalho não me permitir ter uma alimentação saudável.

Sendo assim, se eu chegar aos 30 já tô no lucro, né não? 🙂

Dramática? Eu???

Roberta Simoni

Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni

(Des)construção

Imagine que você está vivenciando aqueles instantes de “quase morte” e me diga: no que você acha que pensaria?

Quem já passou por isso e ficou só no quase, sempre volta com alguma história para contar. Há quem diga que viu uma luz, um anjo, Jesus… outros contam que viram o filme de suas vidas passando diante dos seus olhos. Foi mais ou menos assim que aconteceu comigo da primeira vez, quando meu equipamento de mergulho pifou há 22 metros de profundidade e eu fiquei lá, no fundo do mar, sem ar, durante segundos que pareceram horas, assistindo aquele filme sem lógica. Parecia até obra do David Lynch: era bom, mas difícil de acompanhar.

Dessa vez foi diferente… também não vi a luz ou Jesus, mas nem tive a chance de assistir filme surrealista como antes.

Quando você vê seu corpo voando feito um cartoon, não imagina em quantos pedaços ele se partirá ao encontrar o chão novamente, mas torce para que o estrago seja o menor possível. Tudo acontece tão rápido que seu cérebro não consegue acompanhar a velocidade do impacto provocado pela colisão, ele fica flutuando até reencontrar seu corpo e voltar pra ele, te devolvendo os sentidos, o que é bom por um lado, porque significa que sua cabeça não foi atingida, mas é péssimo por outro, porque junto com os sentidos, você recupera a noção de tudo: tempo, espaço, situação e, principalmente, dor.

E aí você se vê atirada no chão, rodeada por curiosos anônimos se perguntando: ela tá viva? quebrou o que? tá sangrando? bateu a cabeça?

90% daquelas pessoas querem saber o que aconteceu com você para chegarem em casa contando sobre o acidente que presenciaram, e – sendo bem otimista com a humanidade – 10% está ali porque realmente quer ajudar de alguma forma.

Um moço apareceu gritando para ninguém mexer em mim e ficou segurando a minha mão até a ambulância chegar. Se é desses anjos que as pessoas se referem, então eu também vi um.

Uma mulher insistia para que eu desse o número de algum parente para ela poder ligar e avisar. E eu insistia em negar. Imaginava meus pais recebendo a notícia, coitados… capaz de eu sobreviver ao acidente e eles morrerem de susto. Nem pensar! Como eu não bati com a cabeça, continuei teimosa como sempre. Só avisaria a alguém caso eu tivesse que ser internada.

Saí de casa para pedalar e, de repente, me vi protagonizando uma cena que sempre me apavorou: atropelamento com direito a platéia lotada. Penso que se, um dia, um público tão interessado quanto aquele que me assistiu agonizar no meio da rua, lotar minhas peças de teatro, eu ficarei muito lisonjeada. Não naquela hora, quando tudo que senti foi medo e vontade de levantar e sair andando normalmente.

Mas não consegui, a pancada foi forte, tive que esperar a ambulância e passar a noite inteira no Miguel Couto em cima de uma maca, tirando chapa até da alma e, à certa altura, assistindo um diálogo insólito entre dois jovens Doutores:

– O que aconteceu com essa moça?

– Atropelamento. Pernas, lombar e costelas atingidas.

– Putz! Logo agora no final do meu plantão!

– É sempre assim… os piores casos chegam quando a gente tá doido pra ir embora.

Me percebendo assustada, enfim, um deles perguntou:

– E aí, moça, tudo bem?

Não contive o sarcasmo:

– Ah, tudo ótimo. Só vim aqui ver o movimento mesmo…

Mais tarde, na sala da radiografia, ainda conseguindo preservar algum senso de humor, apesar da dor, outros dois sujeitos discutiam sobre o que deveriam fazer comigo, reclamando da calça que eu estava vestindo. Resolvi me pronunciar:

– Oi. Eu tô aqui. É só vocês me perguntarem se eu não me importo de vocês abrirem a minha calça. E, não, eu não me importo.

– A senhora não tem um acompanhante?

– Não. Mas eu estou consciente e estou dizendo que tá tudo bem, podem abrir!

– É que o botão e o ziper da calça jeans atrapalham na radiografia…

– Eu entendo e juro que se eu soubesse que me acidentaria ao sair de casa, teria colocado um vestido para facilitar o trabalho de vocês…

Por fim, de volta ao corredor do hospital, depois de 5 longas horas, enquanto eu esperava para receber alta, um bandido algemado e esfaqueado esperava para ser atendido na maca ao lado, um rapaz espancado durante uma briga acabava de chegar desacordado (bem que o plantonista disse…) e o motorista que ultrapassou o sinal vermelho e me atingiu, aparecia se desculpando e perguntando se podia fazer alguma coisa por mim. Deixei que me trouxesse para casa.

Resumo da ópera: nenhuma fratura, uma costela deslocada, uma banda da bunda roxa, um joelho que não quer dobrar, minha lombar que não me deixa dormir, nem sentar ou respirar sem sentir dor há quase uma semana, um corpo inteiro dolorido, revelando regiões que eu sequer sabia que existiam, uma chance de renascer às vésperas do meu aniversário e uma música que não sai da minha cabeça desde então…

Pois. No instante em que fui atingida por um carro, bem na hora do rush, no meio de uma avenida movimentada de uma grande cidade, eu não pensei nas pessoas que amo, no meu cachorro, nas coisas que deixei de fazer e dizer, nos lugares que não tive tempo de conhecer, em Deus, no céu ou no inferno, eu me peguei pensando no Chico cantando: “(…) morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. 

É, eu sou estranha. Quase dissonante até na hora de quase morrer.

Teria sido, no mínimo, frustrante se, além de tudo que não vivi, eu tivesse morrido atrapalhando um monte de gente que ficou presa no trânsito, deixando também de viver um monte de coisa. Além de morta, inconveniente. Francamente…

“(…) E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.” (Chico Buarque)

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada.

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa mais importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques de saia da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou que ela e Cristina estavam usando vestidos brancos, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas.

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além do bairro da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje só há poeira e silêncio. E a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete fazê-la girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas – há mais de 16 anos – tia Bernadete já estava muito debilitada e, enquanto os adultos discutiam as medidas que tomariam com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

It’s over.

– Roberta, tem uma planta seca na sua varanda.

– É, eu sei.

E não adianta regar, porque ela já morreu. Mas é que dói toda vez que tento jogar fora. E nem precisa ser Freud para explicar que se eu faço isso é porque não sei lidar com a morte. Não sei mesmo. E você, sabe? Alguém sabe?

Amy Winehouse morreu. Tá todo mundo fazendo piada em torno disso, nada contra, só não consegui, até agora, achar graça. Não sei nada a respeito dela, se era uma pessoa bacana, se escovava os dentes antes de dormir, se acordava de mau humor, se preferia cachorro a gato, se desejava bom dia ao caixa do supermercado, se tinha medo de altura, se era uma boa amiga. Só sei o que todo mundo sabe: era drogada. Triste, né? Com tantas curiosidades e características que uma pessoa pode ter, só se fala nas drogas que ela usava.

No mais, sei que tinha a mesma idade que eu, e penso que morrer aos 27 é deixar de se surpreender cedo demais com a vida. É nunca mais sentir frio na barriga ou vontade de fazer xixi de tanto rir, é deixar de se emocionar, de criar, de experimentar, de conhecer gente, de escutar histórias novas, de ter mais músicas para compor, ou cantar, mais episódios para escrever, ou atuar. Ou os dois. It’s over.

Num mundo cheio de pessoas igualmente previsíveis, era bom saber que havia uma Amy por aí. Autêntica, ousada, extravagante, compatível com a sua voz, com a sua música, que os meus ouvidos particularmente adoram. Dane-se as drogas. Eu não me importo muito com o que uma pessoa consome, interessa-me mais o que ela tem a oferecer. E ainda que o consumo diga muito sobre o fornecimento, ela era muito boa na arte que se propôs a fazer, e ainda hoje os bons morrem jovens. Mais uma para as estatísticas do Renato, que também entrou para as estatísticas.

Mas nem todo luto é sofrido. Nem todo fim é perda, pode ser que seja recomeço. Por aqui eu ando cometendo meus minúsculos assassinatos necessários, ora conformada, ora nem tanto. Vide a planta morta ainda lá, na varanda.

Morte não-literal ninguém vê, ninguém sabe. Só você. Muita coisa que nasce na gente, só a gente vê morrer e é assim que tem que ser.

Um sentimento, assim como um desejo ou uma expectativa, respeita o ciclo da vida. Em suma: um dia nasce, no outro morre. E a vida segue sem que – na maior parte das vezes – ninguém perceba nada. De quando em quando nem a gente nota, nem que nasceu, tampouco que morreu.

A diferença é que a planta tá ali, todo mundo vê. E isso incomoda.

Roberta Simoni

O paradoxo da calcinha exposta!

Eu não tenho medo de morrer. Se a morte me assombra e amedronta de alguma forma é quando eu penso na morte dos meus amores. Mas morreremos todos, tão logo ou não, morreremos. Mas, por favor, se eu morrer sem aviso prévio, como normalmente acontece com a maior parte da humanidade, que as minhas calcinhas estejam todas limpinhas, guardadinhas na gaveta, que a minha geladeira não esteja repleta de frutas estragadas e embalagens vencidas, que não haja flores secas e murchas espalhadas pela minha casa, nem livros do Paulo Coelho nas prateleiras ou CDs do Belo na estante.

Sim, porque alguém vai precisar fazer o serviço sujo de entrar na casa desta mulher que mora só para cuidar dos objetos pessoais… e qual seria a última imagem que esse sujeito teria de mim caso encontrasse uma calcinha usada? Porca. E a comida estragada? Relaxada e egoísta, com tanta gente passando fome, tsc tsc… E flores mortas? Não conseguia nem cuidar de plantas, e ainda queria ter filhos. E como eu poderia explicar que o livro do Paulo Coelho foi presente de um amigo querido, e que não tive coragem de me desfazer dele porque a dedicatória era linda? E o CD do Belo? Meu Deus! Como eu explicaria uma atrocidade dessas? Quem acreditaria que era de uma amiga que me pediu para fazer uma cópia? Porca, relaxada, egoísta, relapsa e ainda por cima tinha um péssimo gosto musical e literário?

Normalmente quando eu viajo, me preocupo em deixar a casa, no mínimo ajeitadinha… nunca se sabe, né? Mas esta semana eu sequer tive tempo de lavar a louça. Que louça, sua louca? Um prato, três talheres, um copo e uma panela? Pobrezinha, ainda por cima era solitária…

No meu apartamento eu só tenho o básico, primeiro porque é temporário, segundo porque eu raramente paro em casa, terceiro porque toda a mobília que me resta está em outro Estado e eu só vou trazer tudo quando me mudar para um fixo. Além disso, só esta semana eu quebrei dois copos. Mas isso eu também não teria oportunidade de explicar… e no caminho para o aeroporto fui pensando nessas tolices e me deu um calafrio. “Ui… aviãozinho, seja bonzinho!”

Dia desses eu recebi uma visita rápida que precisou usar meu banheiro, só lembrei quando ela já estava lá dentro que havia uma calcinha pendurada no chuveiro. Tarde demais… Outro dia estava no apartamento de um casal de conhecidos, fui usar o banheiro deles e quando joguei o papel na lixeira, foi inevitável perceber as camisinhas usadas que estavam lá dentro. Ok, ok… toda finalidade de um casal, felizmente, é o sexo, e é normal lavar a calcinha no banho e esquecê-la pendurada lá dentro vez ou outra, mas, ahhh… nem por isso pessoas com quem você não tem a menor intimidade precisam saber a quantas anda sua vida sexual, muito menos qual o tipo de lingerie que você usa.

E, ainda assim, apesar de tudo isso, eu gosto de escrever num blog, de falar sobre as minhas impressões do mundo, divagar sobre o que sinto. E, vejam só, exponho minhas ideias e opiniões para um monte de gente que eu desconheço… quer coisa mais paradoxal do que essa ????

E você, pensa rápido e me conta: o que você esconderia debaixo do tapete se soubesse agora que nunca mais voltaria para casa?

Roberta Simoni

Drama Poético

Mulher Poesia

Eu tento, juro que tento. Mas estou inevitavelmente poética. Até os meus relatos estão. E é sem querer, mas adoro rimar poético com patético. E eu sei que nem tudo que é poético é também patético, muito pelo contrário. Patética é apenas como me sinto quando me percebo poética. E faço rima besta. E a rima é outra coisa patética, poética, lírica e… irresistível.

… Enquanto questionava a mim própria, pensava em como tudo o que me move vem do sentimento: do amor, da dor, do medo, do entusiasmo. Do mesmo jeito como acontece como o que me mantém inerte. E lembrei que com todo mundo é assim também, acontece do mesmo jeito com qualquer um. E aí me senti igual, e ser igual é tão comum, tão chato, tão banal.

Mas eis que um desastre pessoal aconteceu, e não é que até dele eu fiz poesia? Era dor e drama, que virou emoção poética. Quando a gente está diante de algum problema, sempre aparece alguém para dizer: “há males que vem para o bem.”, pode esperar! Na hora é difícil ver qualquer bem diante do mal que uma situação e/ou uma pessoa te causam, mas depois, só depois, você começa a entender como funciona esse “mecanismo”…

Não faz muito tempo, eu chorava de soluçar, feito criança, por uma amizade que morreu. Não adianta… acho que nunca vou aprender a lidar com a morte, seja de que espécie for. Mesmo assim, mandei flores para o velório e enterrei tudo o que sobrou no meu coração.

Enterrar relações humanas é quase tão difícil quanto enterrar sentimentos, mas, às vezes, é chegada a hora.

Já sentiu que você podia sair do seu corpo e se ver do lado de fora, como se fosse expectador de si mesmo? Senti isso poucas vezes na vida, sempre em situações carregadas de adrenalina, e, normalmente eu não gostava do que via. Sempre esperava mais de mim e ficava desapontada, mas dessa vez, ahhhh, dessa vez foi diferente…

De repente aquela amizade pareceu ter a face completamente desfigurada por um ódio que eu não consegui desvendar até hoje de onde vinha, só consegui ver para onde ia: diretamente para mim, e gratuitamente. E a mim só cabia negar aquele “brinde”. E foi o que eu fiz. Rejeitei o ódio com a mesma veemência e educação que recuso um pedaço de jiló. Afinal, nem tudo que é de graça é, necessariamente, bom. 

Ouvi palavras duras e foi como se eu tivesse o meu coração apunhalado, como naqueles filmes de guerra, naquelas cenas dramáticas quando o oponente enfia a espada no coração do inimigo enquanto olha nos seus olhos sem a menor culpa. Naquele momento morria uma amizade. Mais um amor era, lamentavelmente, desperdiçado.

A minha maior surpresa foi ver que quanto mais o clima se tornava desarmonioso e denso, mais o meu tom de voz diminuía e a minha calma eu mantinha, antes era tão raro quando isso acontecia… Contrariando o efeito “ação x reação“, não briguei, não gritei, não xinguei, na verdade, eu mal falei, apenas olhei incrédula o que acontecia, com a certeza absoluta de que fazer qualquer coisa senão assistir aquela cena lamentável e respeitar a decisão que estava sendo tomada naquele momento era a única coisa que o meu bom senso e a minha educação permitiam.

Fui embora com aquela espada cravada no coração, que, por sua vez, batia no ritmo de música dramática de novela mexicana. Fazer o que se era assim que eu me sentia? É claro que depois chorei, chorei de soluçar, parecia uma menina, mas ao mesmo tempo me sentia mulher, cheia de orgulho por me enxergar tão madura.

Me emocionou constatar que, de alguma forma, em algum momento que eu ainda não consegui identificar, eu evolui, e não que isso me faça sentir superior, apenas melhor, não melhor do que ninguém, mas melhor do que eu era. Sentir orgulho de mim mesma me fez sentir diferente.

E é bom, apesar de raro, me permitir sentir especialmente diferente, mata a banalidade de ser igual, de fazer como quase todo mundo faz, de agir como a maioria – por defesa, naturalmente  – agiria, se estivesse no meu lugar.

E aí, eu entendi: às vezes a gente sente igual, sofre igual, pensa igual, mas pode muito bem agir diferente.

Roberta Simoni

E o tempo levou…

“O tempo leva um bocado de coisas, mas tem coisas que só o tempo trás.”

Tempo Perdido

Não lembro onde li essa frase, ou talvez eu tenha escutado alguém dizer, de qualquer maneira não recordo sequer quem disse, mas as palavras ficaram guardadas…

Tá bom, tá bom… eu confesso que anotei, pronto! É que tem muita coisa interessante que leio e/ou ouço por aí, mas como nunca tive uma memória confiável, prefiro contar com uma folha de papel e uma caneta, tanto que se eu não tivesse anotado, não teria essa grata surpresa ao abrir o meu velho caderninho de anotações, aliás, esse é um que o tempo ainda não levou, apenas sujou as folhas com tinta de caneta, gastou e envelheceu…

Mais ou menos o mesmo que vem acontecendo comigo, embora isso não seja novidade, já que o tempo passa pra todo mundo (ainda que de maneiras diferentes para cada um). O problema é quando a gente começa a sentir o efeito do tempo, e não estou me referindo só aos fios de cabelos brancos, às rugas ou à saúde que começa a apresentar sintomas de DNA (“Data de Nascimento Avançada”… Afe, que piadinha mais cretina!). Me refiro aos sinais invisíveis.

Quando você é criança, pode contar nos dedos quantas pessoas conheceu que já morreram. Um dia você cresce, e, durante a vida adulta perde a conta de quantas vezes precisou e ainda precisará lidar com a morte, considerando o tempo que lhe será dado de vida.

Me refiro a morte porque não consigo pensar em nada mais doloroso, mas não são só as pessoas que morrem, e não é só a morte que nos faz perder. E, mesmo perdendo, muitas vezes, a gente ganha.

Hoje eu senti falta de tantas das minhas coisas, coisas pequenas que fizeram parte do meu dia-a-dia. Mas eu deveria saber que quando se vive com uma mochila nas costas – carregando, basicamente, minha vida “resumida” dentro – , não se deve apegar à lugares, bens materiais ou costumes, porque se o tempo não os leva, você acaba partindo e deixando-os para trás de qualquer jeito.

Só que às vezes eu acordo assim, melancólica, pensando no que eu tive e não tenho mais, e aí bate uma vontade incontrolável de reviver um monte de coisas, mas já foi, passou… o tempo levou e não vai trazer de volta, e, no fundo, é bom que não traga, porque ele passa ligeiro, corre mais depressa  que o ponteiro que marca os segundos e, por isso mesmo, é tolice viver preso ao passado que, como o próprio nome diz: passou.

Eu falo isso para que eu mesma consiga assimilar e, quando isso funciona, a melancolia se inibe e dá espaço a uma euforia que eu mal consigo conter, uma vontade louca de descobrir o que o tempo vai me trazer desta vez. Aí eu cruzo os dedos feito criança pequena, torcendo para que sejam agradáveis surpresas, mesmo que me rendam futuros dias de nostalgia. Afinal, tudo o que é bom se torna nostálgico.

Roberta Simoni