Mutável

Borboleta Azul

Quem nunca mudou não vai me entender. Já aviso antes de começar a “me” ler: quem não se considera mutável não será capaz de me compreender.

O tempo todo me deparo com as minhas mudanças. Esbarro nelas, tropeço sem querer. Encontro-as sempre nas esquinas da minha vida. E não são só as mudanças de casas, de cidades, de amores ou de empregos, mas as mudanças de atitudes, de gostos, preferências e personalidade. O que é essencial não se transforma, de resto tudo é transitório.

Eu já fui do samba para o rock até chegar ao blues. Isso para não citar os outros trocentos estilos musicais que embalaram a minha vida até onde consigo me lembrar. E ainda tem os discos de vinil do Balão Mágico e da Xuxa, que me entregam. Sim, eu fui uma “baixinha da Xuxa“. Não tenho culpa se nasci na época errada, ok?!

E o paladar? Esse mudou consideravelmente nos últimos anos, mas ainda tem muito que evoluir. Está sempre disposto a aprender a saborear tudo que é coberto – ou recheado – de calorias. O olfato se aprimorou bastante, feliz ou infelizmente, dependendo de cada momento – e cheiro. A visão se tornou profissão (fotografia). A audição ficou aguçada, sensível, fresca e seletiva. A voz cada vez mais desafinada na opinião dos meus ouvidos! O tato… ah, esse ganhou forma, gosto, cheiro e arrepio, tudo ao mesmo tempo, uma delícia!  Já a memória segue em processo de decadência, coitada! Enquanto a intuição só melhora a cada dia, já é quase uma “Mãe Dinah” a danadinha!

Meu cabelo apesar de ter mudado pouco, mudou. De grande para pequeno. De curto para longo. Por enquanto, basicamente isso. A cor já anda querendo mudar de castanho para branco, e a cada dia muda mais. O que meu cabelo não sabe ainda é que existe uma coisa chamada tinta. E eu não devo demorar nada para apresentá-los. Há quem diga que o meu cheiro é o mesmo, mas eu mudo sempre de perfume!

Minha rotina mudou, meus costumes e meus gostos. Minhas atitudes mudaram na marra, mas apenas algumas, outras se conservaram no erro.

Mudaram os meus planos, moldaram os meus sonhos, maquiaram o meu rosto, despentearam o meu cabelo, colocaram rugas ao redor dos meus olhos e olheiras embaixo deles, enroscaram pneus em torno da minha cintura, me fizeram usar absorventes, aparelho nos dentes, vestiram meus pés com salto alto e meu corpo com adoráveis trapos.

Olhando fotos antigas e me vendo cada hora de um jeito, de um tamanho (de altura ou largura) e com uma expressão diferente, descobri que sou mutante. Afinal, todos somos. Só não sabemos, ou sabemos, mas, às vezes, não aceitamos, ou simplesmente esquecemos. Menos os versáteis, esses se orgulham de ser mutantes.

Mutação não é coisa só de novela horrível da Record, ou de cinema. Tudo é mutável, eu sou, você é, as espécies, a natureza, o clima, os sentidos. Tudo é cíclico.

janela borboletaNa praia onde eu cresci tinha uma duna enorme, uma não… várias, que hoje não passam de morrinhos.  E o mar onde aprendi a nadar? Agora nem peixe consegue mais respirar lá. Na rua que eu brinquei descalça não tem mais criança brincando. Essas mudanças ferem a alma da gente profundamente, porque acompanham o processo de degradação mundial. E isto é apenas o que enxergamos sem a ajuda de lentes de aumento.

Mas nem tudo está perdido. A gente ainda pode mudar de ideia, de opinião, de partido ou religião. Pode trocar de lente, de roupa, de estilo. Pode mudar de casa, de bairro, de cidade ou país. Pode mudar de estado de espírito também, de companhia, de solidão. Pode trocar de amor, de caminho, de destino. A gente pode “brincar de Deus”, de morrer e nascer diferente todo dia e reinventar nossa própria vida.

Mas deixa isso pra lá, só me entende quem já foi lagarto. Ou quem ainda é, tentando virar borboleta a cada dia…

Roberta Simoni