Escrever é como despir-se

Nudez

Nascemos nús e nos vestimos apenas de pele, pêlos e restos de placenta quando chegamos ao mundo, nem por isso nos envergonhamos por não estarmos usando nenhuma peça de roupa, ou por estarmos “sujos” de parto. Mas trememos de frio e choramos de medo.

A nudez é pura na sua essência, mas não é comum, e quase sempre é inapropriada. Livrar-se de roupas é um ato tão corriqueiro e, ao mesmo tempo, tão simbólico, poético e, acima de tudo, tão raro. Ficar nú diante do espelho ou diante de alguém é algo que parece simples, mas não é. Não para todos. O frio e o medo que as pessoas sentem no primeiro contato com o mundo é o mesmo que sentem ao se despirem de si próprias, quando deixam seus corações expostos, quando são demasiadamente transparentes, sinceras, espontâneas e autênticas. E elas têm razão de sentirem medo, porque esse tipo de nudez costuma chocar mais do que a nudez física, espalhada por todos os cantos.

É claro que é preciso ter coragem e estar bem resolvido com o seu próprio corpo para ficar completamente nú diante de um público ou de uma câmera fotográfica. Sou fotógrafa e, apesar de estar do outro lado da câmera, sei o quanto é difícil até que se acostume com a sua nudez sendo vista e explorada por pessoas que estão, ao contrário de você, em situação mais confortável: cobertas de roupas.

A nudez humana exige ainda mais coragem que a física, porque o que vão julgar não é o seu corpo, se você está magra ou gorda, se tem uma ou muitas celulites, até porque, depois que inventaram o photoshop, e outros programas similares, esse tipo de avaliação se tornou bem mais difícil de ser feita. O que fica exposto quando se permite ser vista sem máscaras é muito mais do que cicatrizes, marcas de nascença ou tatuagens por trás dos panos.

A exposição que é feita de um corpo nú é a mesma de uma alma transparente – e entregue. É você ali, vestida dos pés a cabeça, mas completamente pelada para quem consegue te enxergar além da roupa que você veste, dos acessórios que você usa, do seu estilo ou da moda que você segue, ou não segue. O que fica a vista para quem quiser ver é a sua opinião. São as suas verdades nuas e cruas. Seus gostos, costumes e opções. E o que saltam aos olhos são os seus deslizes, suas fraquezas, suas falhas, seu jeito de ser por opção e/ou por essência. E tudo isso poderia ficar escondido se você quisesse, confortavelmente acomodado entre várias camadas espessas de panos, mas não… quem opta por dar voz e tonalidade sonora às próprias palavras, prefere se expor ao vento frio, ao sol, ao calor, ao clima úmido e seco, que provocam todo tipo de reação, menos a de proteção.

Escrever é como despir-se. É impossível querer que as minhas palavras não me exponham, é inevitável que elas me arranquem peça por peça de roupa, e é muita ingenuidade achar que elas gerarão reações idênticas. As mesmas palavras que emocionam ou fazem rir, causam repulsa e contrariam. Geram polêmica e desconforto, da mesma maneira que confortam. E, de uma forma ou de outra, me tornam vulnerável. Escrever num blog tem sido, para mim, um exercício fascinante de nudez e de descoberta de partes de mim que estavam tão cobertas e protegidas que eu mesma desconhecia.

É como pegar um espelho e colocar entre as pernas pela primeira vez e tocar-se, descobrindo variadas sensações. É como ter um corpo visto sem edições. É como ser tocada com ternura, com amor, com tesão, com admiração, com malícia, com maldade. É sentir a reação que cada toque causa em mim. É como tocar no que não é apalpável e mesmo assim, sentir que toquei profundamente.

FaceMas descobertas também doem, e os toques maldosos ferem. Por isso é tão difícil ficar nú diante de tanta gente que se recusa a tirar a roupa ou que considera a nudez insolente, desaforada e grosseira, mas eu continuo me sentindo cada vez mais à vontade sem vestir nada.

Um vez que você tira sua roupa diante do mundo, fica difícil sentir vontade de voltar a usar vestimentas, elas te fazem transpirar, incomodam e apertam. Palavras que sufocam causam a mesma sensação, por isso, eu deixo as minhas palavras experimentarem o gosto doce e amargo da liberdade. Elas podem até chocar, mas são de uma beleza tão libertina e dissoluta que se tornam cada vez mais puras, mesmo no auge de suas maiores orgias.

Roberta Simoni