Não quero ter razão…

Resolvo começar a fatiar o meu ano em estações. A quantidade de meses é maior que o número de estações, mas quem disse que quantidade é mais importante do que qualidade? Meses acabam muito depressa, e tantas vezes passam sem que eu sequer os perceba. Mas as estações não… essas são anunciadas pelo céu, pelo mar, pelos ventos e  chuvas, pelas cores, sabores, aromas e termômetros. E elas são, cada uma a seu modo, todas uma delícia.

Eu, que gosto especialmente da luz do outono, acordo hoje com vontade de ficar bonita para a luz dessa estação me encontrar na esquina de casa e realçar a minha alegria de estar viva. Eu, que não sou chegada a combinações, visto meu corpo de acordo com as cores da minha alma, e saio por aí, colorida.

Vou ao encontro de uma amiga querida, decidida a ceder aos encantos gastronômicos da cidade, na nossa livraria preferida. Me dou ao luxo de incluir na conta do almoço mais um livro. E depois compro uma saia rodada de bolinhas, porque não dou ouvidos ao meu senso de ridículo que tenta argumentar comigo. No crédito, por favor !!!

E no meio do dia eu lembro do Dudu e, mais uma vez, penso no quanto eu gostaria que ele não tivesse partido tão cedo. E toda vez que lamento sua ausência, eu levo um susto enorme, como da primeira vez que anunciaram sua morte. Não é como se eu tivesse esquecido, é como se eu simplesmente não soubesse. Já faz quase três anos e eu ainda não entendi direito. Era o nosso artista maior, nosso amigo mais inconsequente, que tinha o perdão de cada loucura só por ser dono do sorriso mais franco, e nós sempre o perdoávamos desde que ele viesse com aquela cara de moleque alegre, com aquele queixo charmoso furado ao meio, de sorriso largo e escandaloso. E com a imagem dele na cabeça, de repente, me pego rindo sozinha…

No caminho de volta para casa cumprimento com sorriros quem por mim passa, mas não perco muito tempo olhando para frente, ando com passos lentos olhando para o topo das árvores da minha rua que já amo profundamente como se tivessem sido, desde sempre, parte da minha vida. Qualquer dia eu acabo caindo, mas tudo bem, meus olhos confirmam que vale o risco.

As nuvens cobrindo o Corcovado anunciam a chuva que está por vir, e a minha casa se enche do cheiro premonitório de terra molhada. Da janela escancarada vejo os pássaros fazendo balé no céu cinza. Descubro que tenho algum vizinho que toca violino e compreendo que não preciso agora de nenhum outro ruído. Só o som do violino, o burburinho da cidade lá embaixo e a calmaria dos meus pensamentos, no ritmo harmonioso dos meus batimentos cardíacos.

Enquanto eu transformo o meu dia nesse cotidiano poético – que, sem causa ou justificativa, escrevo – sou induzida a olhar outra vez pela janela, e lá estão eles, se exibindo: pássaros fazendo questão de me lembrar que sou uma invejosa.

Mente quem diz que não sente inveja. Mente feio. Porque, ainda assim, a mentira não consegue ser tão horrorosa quanto a inveja, que não existe para ser admitida, tampouco assumida. E eu adoro as criaturas que voam, mas também as invejo. E por querer e não poder fazer o que só elas são capazes de fazer no céu é que eu jamais desejaria que elas não pudessem voar ou tentaria impedi-las de tal feito. Gaiola é abuso de poder, e a minha inveja é branca, clara feito neve, dessa cor serena que não é capaz de ser destrutiva, nem jamais pretenderia. Só quero voar com elas, mais nada.

E você quer saber como foi o sonho mais lindo que eu já tive na vida. E chora enquanto eu te conto, e os meus olhos se enchem d’água quando eu agradeço ao universo por me rodear de gente que ainda se emociona, e aí eu penso na inveja preta que muita gente de alma escura sente de mim por viver numa atmosfera tão generosa, e lembro das gaiolas e das mordaças que essa gente me oferece o todo o tempo. E sigo negando todas, com veemência.

E já não vejo mais pássaros, nem nuvens. Já é noite. E eu também gosto do escuro, porque aprendi a conviver com ele. E com o silêncio, e com os sentimentos que não são brancos, nem brandos. Eu vivo em vários mundos simultaneamente, e neles eu descubro do que gosto, do que não suporto, do que preciso, do que dispenso e do que aceito de bom grado. Nos meus vários mundos, eu misturo as estações e consigo viver em todas ao mesmo tempo, e desvendo mais do que vontades ou desgostos, descubro todas as minhas vertentes.

E entendo, finalmente: eu não quero ter razão, prefiro ser feliz.

“Já que sou, o jeito é ser.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni

Ruas de Outono

Outono

Andei sumida, eu sei… juntou viagem no feriado, com carro quebrado na estrada, no meio da madrugada – e no meio do nada – , debaixo de muita chuva e frio. Eu e minhas roupas ensopadas tentando empurrar o carro, depois congeladas e cheias de lama, esperando o reboque chegar, batendo o queixo.

É claro que não podia dar em outra: voltei completamente “gribada”. O que eu não contava era receber aquela visita mensal uma semana antes do esperado. Já não basta ser desagradável, ela também faz questão de ser inconveniente, porque nunca vem sozinha, está sempre acompanhada de muita cólica e um tiquinho de mau-humor… um tiquinho só, claro!

E esse frio que tem feito? Gente… carioca não está acostumado a sentir frio de verdade, não! Carioca nem sabe o que é inverno direito, e sabe menos ainda o que é inverno em pleno outono! Apesar de gostar mais do verão, eu não desgosto do inverno ou, pelo menos, não desgostava. Confesso que ultimamente não tenho curtido, só faço espirrar da hora que levanto até a hora que vou dormir. E tenho tido tempo demais para sentir frio e pensar…

E eu tenho pensado muito nesses tempos frios, tanto que talvez os meus pensamentos estejam tão gelados a ponto de resfriarem não só a mim, mas ao meu coração. Não é só o corpo que nunca se sente suficientemente aquecido, independente da quantidade de pano que eu vista, o coração também anda precisando de um aquecimento mais eficaz.

Nessa época do ano eu ando pelas ruas mais distraída do que o normal, observando o alto das árvores com enormes galhos vazios e as calçadas que mais parecem um tapete de folhas secas. Acho lindo. O outono tem uma tristeza poética que me fascina: o céu melancólico, com seus tons de cinza, sem a companhia das graciosas nuvens, soprando um vento frio, espalhando folhas mortas pelas ruas, despindo os galhos das árvores, assoviando o silêncio…

Mas eu, graveto que sou, sinto falta das minhas folhas verdes, das minhas flores coloridas. Elas que me aqueceram e me enfeitaram durante todas as outras estações, agora estão caídas pelo chão, esperando o vento frio assoprá-las para longe de mim. Eu, nostálgica que sou, queria poder me desgrudar dessa árvore e resgatar as folhas de volta pra mim, mesmo secas, mesmo mortas. Eu, medrosa que sou, queria me esconder do frio atrás delas como fazia antes. E eu, esquecida que também sou, preciso do outono para me fazer lembrar que as folhas não são eternas, e que precisam morrer para dar lugar às folhas novas.

O outono tem a difícil tarefa de “limpar a casa”. Ele sai varrendo tudo, jogando tudo fora, deixando a casa vazia e tão espaçosa a ponto de sobrar espaço para a solidão. Pega as flores que marcharam e as folhas ressecadas que ainda estavam presas ao galho, e arranca uma por uma. E os galhos sentem, lamentam porque já estavam apegados, mas sobrevivem… mesmo no frio.

Eu venho preparando meus galhos para uma nova folhagem, o frio é só uma parte desse processo… e é nas “ruas de outono que os meus passos vão ficar…”

Roberta Simoni