Durmam, seus trombadinhas!

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

Roberta Simoni

Daqui da minha janela…

Janela de Cima

Hoje eu comecei a escrever sobre vários temas e depois apaguei todos, nada parecia bom o suficiente para poder fluir. Mas, aqui estou eu, por pura insistência. Ficar sem escrever ultimamente tem sido como passar um dia inteiro sem escovar os dentes, simplesmente não dá. Impossível. Está longe de ser uma obrigação, é só algo que não tem mais como ser arrancado da minha rotina.

A escrita tem sido o meu canal de comunicação comigo mesma e com o mundo externo. Estou sempre escrevendo alguma coisa, em algum lugar. Se não é aqui, é no caderninho que não sai da minha bolsa, ou num pedaço de papel qualquer que eu encontro num canto qualquer. Hoje eu fui juntando alguns deles que encontrei espalhados por esses cantos, e percebi que tem tanta coisa distinta escrita que eu já não consigo mais me lembrar o porquê de certas anotações, e as palavras vão se perdendo e perdendo o sentido, assim como as ideias que eu tive quando as rabisquei…

Sabe-se lá quanta coisa eu já não devo ter desperdiçado por essa falta de organização que eu tenho com os papeis e com a minha cabeça? Tadinha… tão nova, tão nova…

Eu não sei como cabe tanta coisa numa cabeça tão pequena, mas cabe. E está tudo uma zona tão grande que consigo visualizar as palavras se estapiando para se organizarem de tal forma que possam me ajudar a formular um pensamento. Vocês tentam, não posso negar, mas tá difícil minhas amigas, tá difícil, eu sei…

Eu fico daqui da minha janela, escrevendo para tentar libertar algumas dessas palavras que ficam se espremendo dentro da minha cabeça… Para me divertir, me distrair, e, provavelmente, para distrair um bando de pensamentos perversos e inconvenientes que sempre dão um jeito de subir até aqui, arrombando a minha janela mais alta só para fazer barulho.

Talvez eu esteja começando a aprender a lidar com essa barulheira toda. Se antes eu falava sem parar a troco de explulsá-los com o tom agudo da minha voz, agora eu ouço calada e apenas os observo. Alguns pensamentos se cansam e vão embora, alguns se transformam em palavras escritas, pois são tão incansáveis que parece impossível fazê-los desistir. Alguns, no entanto, são apenas absorvidos e tratados como filhos pequenos que precisam dos cuidados da mãe até que amadureçam e queiram partir para o mundo por conta própria.

Enquanto isso, eu vou tentando colocar em prática – começando com os meus próprios pensamentos  – o exercício mais difícil que já me deram um dia: ouvir mais e falar menos. Eu os tenho escutado, mas pouco tenho falado deles. Esse também é um conselho que eu peguei para criar como filho e que, certamente, um dia, vou poder ver crescendo e se transformando num grande homem, que encherá de orgulho essa mãe coruja que eu sou.

Roberta Simoni