A alegria dos prazeres inofensivos

Love

Respirar cheiro de gasolina. Pisar em folhas secas nas ruas de outono. Ver a primavera florindo. Dormir sem roupa no verão. Nadar pelado. Comer chocolate, tomar sorvete no inverno. Mergulhar no mar à noite. Ver o pôr-do-sol. Ouvir o silêncio da madrugada. Sentir o cheiro da terra molhada. Caminhar na beira da praia. Compor uma música. Tocar uma viola. Escrever uma poesia. Dar um beijo apaixonado. Acordar ao meio dia. Viajar sem comprar passagem de volta. Dar presentes. Receber presentes. Escrever uma carta. Receber uma carta. Ler um livro. Escrever um livro.

Ter um sonho bom, dormindo ou acordado. Brincar de pique-se-esconde. Tomar banho de água quente. Cantar debaixo do chuveiro. Ser acordado com beijos na nuca. Entrar numa calça que antes não cabia. Andar descalço. Tomar chocolate quente no frio. Ter uma mangueira no quintal de casa. Ter um quintal. Ter uma casa.

Jogar baralho. Ganhar uma aposta. Abraçar um amigo. Se embriagar com um amigo. Ter um amigo. Rir sem motivo. Sentir frio no umbigo. Fazer uma surpresa. Ser surpreendido. Ganhar dinheiro. Trabalhar com o que se gosta. Viajar o mundo. Se perder no mundo. Se encontrar sem estar perdido. Banho de chuva. Paixão de verão. Cinema com pipoca. Amizade canina. Espera no portão. Cheiro que trás lembrança. Colo de mãe. Gargalhada de filho.

Um brinde à alegria dos prazeres inofensivos, esses que costumam ser tão pequenos que, às vezes, não passam de detalhes. Detalhes que dão cheiro, cor , sabor e, principalmente, sentido à vida.

É impossível falar de pequenos prazeres e não pensar em Amélie Poulain, por isso, aqui vai o vídeo dessa fábula que sabe perfeitamente como alegrar os meus prazeres…

Roberta Simoni

Sobre prazeres e desprazeres

Prazeres Amelie Poulain

Eu penso que descontar no próprio corpo frustrações pessoais e universais não seja a atitude mais sábia. Mas eu só penso depois que faço. E hoje, especialmente, eu meti o pé na jaca “di-cum-força”, e o fiz no mercado mais próximo de casa, e, aproveitando que já estava lá, além da jaca, meti o pé numa caixa de Amanditas e em outras porcarias deliciosas.

O que o mundo tem a ver com isso? Tudo. Eu vivo em estado de choque por causa dele. Por mais que a violência e a falta de respeito estejam em crescente banalização, eu não consigo me acostumar. Vocês viram o inovador sistema de segurança e organização que foi criado na minha cidade “maravilhosa”? Funciona assim: O trem tá lotado? Não cabe todo mundo? É só socar e chutar as pessoas porta adentro. Um método bem parecido com o que fazemos quando queremos colocar mais peças de roupas numa mala lotada. Espremendo bem cabe tudo. A única e sutil diferença é que são seres humanos tomando o trem a caminho dos seus trabalhos e, ao contrário das roupas na mala, que  ficam apenas amarrotados, eles ficam feridos e humilhados.

Se o método não for eficaz, não há com o que se preocupar. Os seguranças (auxiliados por PMs) da linha de trem da SuperVia são bem treinados e estão preparados para enfrentar qualquer tipo de situação, por isso, possuem chicotes (isso mesmo: CHI-CO-TES!!!) ultra-eficazes para combater a desordem humana. É só chicotear os infelizes e pronto.

E pronto mesmo, considerando que estamos no Brasil, e no “país do carnaval” tudo pode, e quando não pode é só jogar a sujeira debaixo do tapete. E se o tapete não for grande o suficiente para tapar toda a imundice é aplicado um castigo bem brando nos delinquentes (ai ai ai, meninos feios, não, não e não!). Daqui a pouco tem outro carnaval aí, e ninguém mais vai lembrar deste triste episódio. Simples assim.

Clique aqui para ver a matéria na íntegra.

Não seria nada mal se descobrissem vida extraterrestre por aí. Será que eles me aceitariam lá? Ou será que uma humana só já seria suficiente para fazer um estrago completo em outro planeta? Não duvido…

Enquanto espero ansiosamente ser abduzida, vou vivendo a minha vidinha mundana cheia de pequenos prazeres e desprazeres, e hoje eu tive o prazer de substituir um miojo por uma refeição que me tiraria horas preciosas de preparo. Fiquei sabendo do falecimento do pai de um amigo querido, o que me deixou com o coração tão apertado quanto alguém que esteve naquele trem em Madureira hoje. Distraí a minha vaidade e roí todas as minhas unhas, uma por uma. Recebi duas respostas negativas para duas tentativas frustradas. Reencontrei um antigo amigo no orkut. Ouvi pessoas dizendo que lugares e e músicas fizeram elas lembrarem-se de mim. Tive dores de cabeça. Uma amiga me contou que apaixonou-se novamente, depois de ter saído de um relacionamento turbulento. Outra amiga me contou que ontem sofreu uma tentativa de assalto por uma senhorinha, que depois de pedi-la uma informação, anunciou o assalto – “Perdeu, perdeu!”. Tomei um banho quente e beeeeem demorado. Comi Amanditas.

Mas o que me impulsionou mesmo a ir até o supermercado foi o noticiário. Por isso que eu insisto em dizer que um pouco de alienação ajuda a manter a minha sanidade psíquica e física. E tenho dito.

Roberta Simoni