Preconceito está em um relacionamento sério com Ignorância

Ironia

“Ele é homossexual mas é um cara inteligente”. Li essa frase no Facebook de alguém que não se julga de maneira alguma preconceituoso.

Não foi a primeira vez que li ou ouvi isso por aí. E não consigo enxergar esse comentário por outra perspectiva senão a do preconceito. Pra mim é como dizer, por exemplo, que alguém “é pobre, mas é limpinho”, como se o fato de ser pobre anulasse a possibilidade dessa mesma pessoa possuir a qualidade de limpa, porque é contraditória à sua característica destacada, no caso, a pobreza.

Ser pobre ou homossexual não é defeito, tampouco escolha. Imagine alguém dizendo “ah, meu sonho é ser pobre” ou “a partir de agora quero ser gay porque acho cool”. Além disso, apontar essas características (ou condições) seguidas de qualidades torna tudo ainda mais sofrível. Na verdade, o que está sendo dito é: “ele é gay, mas para compensar essa enorme falha, ao menos é inteligente.”

Quando alguém diz que fulano é gay, mas é inteligente parece que a qualidade não está presente no adjetivo. Ele é gay, portanto está implícito que não é inteligente. Como se a inteligência fosse uma característica exclusiva de heterossexuais e aquele cara ali – que se relaciona com pessoas do mesmo sexo e apesar disso é não é burro – é apenas uma exceção à regra.

O mesmo exemplo se aplica para qualquer outra qualidade que vem depois da conjunção adversativa MAS, que indica clara oposição entre ideias.

“Ele é gay, mas tem um coração enorme”, “ela é lésbica, mas é gente boa”. Os exemplos são inesgotáveis, tais como os absurdos que as pessoas verbalizam, muitas vezes sem se darem conta do preconceito embutido nessas afirmações.

É como se o fato de homossexuais possuírem qualidades fosse um grande consolo para esse tremendo deslize, não de caráter, mas de orientação sexual.

O mais lamentável é alguém achar que está elogiando ou enaltecendo a qualidade do outro desse jeito sem perceber que o preconceito está presente ali, inerente ao adjetivo.

Ninguém se refere aos heterossexuais dessa maneira, mesmo porque se um homem faz sexo com uma mulher e vice-versa, são consideradas pessoas normais. É senso comum. Mas se homens transam com homens e mulheres transam com mulheres… bom, aí tem alguma coisa muito errada, a começar pela anatomia humana, que não foi projetada para esses fins, isso sem entrar no mérito religioso, que julga relacionamentos homossexuais como algo que vai absolutamente contra as leis divinas.

Leis? Meu corpo, minhas regras. Seu corpo, suas regras.

Divinas? Todas as manifestações de amor são.

Refira-se a um homossexual como você se refere a um hetero. Apenas diga o que ele é, sem precisar destacar sua sexualidade como sua caraterística proeminente, sobretudo esqueça o que ele faz ou deixa de fazer entre quatro paredes, isso não te diz respeito, muito menos influencia na personalidade nem nas ações dele enquanto indivíduo. Ou então arrume um defeito de verdade para identificá-lo. Homossexualidade não é desvio de caráter, não é problema, não é doença e passa muito, muito longe de ser um defeito.

Mais do que superar seus preconceitos, você precisa se livrar da sua ignorância.

Roberta Simoni

O que fazer com os tijolos?

Loucura

Lúcia veio correndo me abraçar e me pediu para tirarmos uma foto juntas. Depois da foto, perguntei a idade dela. 18, disse. Uma das enfermeiras se aproximou e desmentiu, contou que ela tinha acabado de completar 41 .

– Ora ora, mocinha, mentiu pra mim por que, hein?

– Eu não menti. Se eu gosto de ter 18, eu tenho 18.

Justo!

– Onde estão os maracujás? Onde estão os maracujás? Os loucos precisam é de maracujás!

Quem dizia isso, aos berros, era um senhor parecidíssimo com Albert Einstein. Perguntei do que se tratavam os maracujás e ele me explicou que tinha levado muitos maracujás para fazerem suco para os malucos mas que, ao invés disso, estavam oferecendo refrigerante.

– Como podem querer que a gente fique curado tomando guaraná?

Eu, com o copo de guaraná na mão, fui obrigada a concordar.

Enquanto o Einstein dos maracujás me mostrava seu livro de poesias (impresso e vendido por ele mesmo), um moço parecido com o Jorge Ben Jor se aproximou de nós e perguntou meu nome.

– Roberta? Já compus uma música chamada Roberta, para uma moça chamada Roberta, sabia Roberta?

Nesse instante, passou por nós um rapaz vestindo uma camisa de forças e o Ben Jor disse:

– Eu já usei aquilo ali um monte de vezes. É horrível. Coça muito e a gente fica com as mãos presas se roçando no muro para aliviar. Pior do que a coceira, só o choque elétrico. Tá vendo aquele cara ali? Ele já foi um grande matemático, tomou choque um monte de vezes e você pode ver, óh… ele não ficou sequelado nem nada. Eu também não, tá vendo?

Eu ali, entre a Lúcia de 18 anos, o Einsten dos maracujás e o Ben Jor não-sequelado tentando entender o universo deles, fazendo perguntas que eles disputavam para responder primeiro e conseguir mais tempo da minha atenção. Tão fascinante quanto assustador foi perceber que todos eles possuem, em sua essência, alguma genialidade. Escritores, compositores, artistas, matemáticos…

E eu – que estou longe de ser um gênio – o que eu fazia num sanatório? Poderia estar, tranquilamente, buscando tratamento mas, naquela ocasião, estava cobrindo as ações sociais que uma empresa promovia no hospital. O cliente não era meu, mas de outro fotógrafo que meia volta me passava alguns trabalhos pela impossibilidade de ser onipresente e, por felicidade do destino, acabou precisando de mim naquele local, naquele dia.

Acabei voltando lá outras vezes por conta própria no ano passado para visitar Lúcia e cia e, recentemente, por outras razões, finalmente conheci o Instituto Philippe Pinel. Nessa ocasião, tive a chance de passar algum tempo com um ex-militar chamado Alberto, com quem tive uma conversa esclarecedora acerca da realidade dos portadores de distúrbios mentais. Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se como ignorância.

Provavelmente você não sabe disso (eu também não sabia), mas hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o que, em outras palavras, significa que temos um dia oficial para reivindicar o respeito e reconhecimento dos direitos dos portadores de transtornos mentais, como também, a humanização do tratamento psiquiátrico no nosso país.

O que me assusta é ver como esse assunto é abafado numa sociedade onde todos nós conhecemos, convivemos (ou somos) uma dessas pessoas que sofre algum tipo de distúrbio mental. “Fulano é maluco” e pronto, o rótulo está formado, definido e o assunto está encerrado.

Ser portador de uma doença mental como a esquizofrenia, por exemplo, é tão ou mais grave do que ter um câncer, mas ninguém fala, ninguém vê, ninguém ouve, porque fomos acostumados a criar muros que nos separam, delimitam e nos isolam de pessoas com doenças mentais (a primeira vista em nome do tratamento, mas também e principalmente em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar).

Mas aí, se você se propõe a conhecer de perto a realidade de pessoas com qualquer tipo de deficiência mental, acaba descobrindo que, ao se arriscar entender melhor suas formas de pensar, sentir e enxergar o mundo, você não vai ficar mais louco, talvez mais sóbrio, o que pode ser, de fato, comprometedor.

Eles nos dão tijolos e nós decidimos o que fazer com eles. E só há duas possibilidades:

Ou continuamos levantando muros ou começamos a construir pontes.

Lúcia, aos 18.

Lúcia, aos 18.

(entenda mais sobre o Dia Nacional da Luta Antimanicomial lendo esse artigo aqui)

Roberta Simoni