A vida real para qual eu não sirvo

Uma vez recebi uma mensagem anônima de alguém que nutria sentimentos poucos nobres por mim. A mensagem chegou através de um extinto site de fotos onde eu tinha uma conta, anos atrás. A foto que provocou a ira do “odiador anônimo” em questão era uma foto comum, onde eu aparecia feliz e radiante, num inofensivo passeio ao zoológico. Eu não lembro mais as ofensas destiladas e, felizmente, esqueci todos os xingamentos, mas um trecho daquela mensagem me marcaria para sempre: “você brinca de faz-de-conta, pensa que a vida é um conto de fadas, mas você é uma mentira…”. Puxa! E eu achando que disfarçava bem…

Sou obrigada a concordar: eu sou uma farsa. E dessas bem fajutas. Quantas vezes eu penso e ajo como se a vida fosse um conto de fadas? Verdade seja dita: eu me encaixo muito melhor no meu mundo imaginário do que no mundo real. Não sou tão boa em viver quanto sou em fantasiar e uma parcela dessa culpa eu deposito na conta da Disney, mas é uma parcela pequena, a maior parte eu invisto no meu fundo de rendimento imaginário fixo, pessoal e intransferível.

Gabi e Kathe, minhas amigas que, assim como eu, leram muitas histórias e assistiram a muitos filmes da Disney na infância, defendem a teoria de que todas as desgraças que vivemos hoje é culpa da Disney, com suas histórias de amor envolvendo principes desencantados e sofredoras princesas passivas. Pensamos até em mover um processo contra eles num futuro bem próximo. Enquanto isso, vamos tentando nos livrar da Síndrome da Disney que nos acompanha até hoje, na vida adulta.

Adulta? Se for parar para avaliar bem, eu só brinco de ter uma, porque eu basicamente não presto pra nada que envolva a vida adulta, ainda que eu desempenhe com louvor minhas tarefas de provedora da casa, embora eu more sozinha e não tenha nenhum dependente, nem mesmo de espécie animal ou vegetal. Pago meu aluguel, minha luz, minha internet e o meu gás (para o caso de precisar fritar um ovo ou ferver uma água para fazer um miojo semestralmente…), ainda coloco comida em casa, compro a roupa que visto e saio para trabalhar, mesmo quando doente. Sou uma exímia dona de mim mesma. Ou, pelo menos é o que tento me convencer, até que uma dor de cabeça aguda me persegue por 3 dias seguidos e eu me nego a procurar um médico e só percebo que estou tomando remédio vencido 48 horas depois, ou quando a minha geladeira pifa, meu chuveiro queima e o meu ralo entope e eu fico completamente perdida.

Conclusão: minhas habilidades práticas são nulas, especialmente quando há questões burocráticas envolvidas. Assumo minha completa falta de talento para lidar com qualquer coisa que requeira ir à prefeitura ou a qualquer outro órgão público, consultar um advogado, recorrer à justiça, agilizar um documento, falar com o meu gerente do banco, conseguir uma assinatura. Todas essas expressões, inclusive, sempre que proferidas, me fazem agonizar como se eu estivesse diante de um monstro gigante cheio dentes e  tentáculos enormes tentando me engolir viva.

E mesmo quando é menos, vira mais, eu travo… fazer um simples telefonema, por exemplo, pode se transformar num drama equivalente a um parto normal. De gêmeos. Se escrever uma carta ou enviar um e-mail forem opções viáveis, eu jamais chegarei perto de um telefone. J-a-m-a-i-s. A palavra escrita sempre foi minha melhor forma de expressão e isso também demonstra minha total falta de tato para lidar com determinadas pessoas em determinadas situações, especialmente se o contato for feito por razão de qualquer tipo de pedido de ajuda ou favor.

Meu banheiro está esperando uma obra que nunca vem, minha descarga quebrada está à espera do encanador que eu prometi que viria na semana que vem… que já veio há 3 semanas. E minha mãe, toda vez que me liga, me cobra o telefonema que eu ainda não fiz para a secretária daquela médica para tentar me encaixar num horário da agenda super disputada dela.

Aliás, eu também não presto para nada que seja disputado: médicos, mesas de restaurantes, festas, homens…

E o pior dessa minha total falta de serventia para o mundo real e para a vida adulta é que eu não sei fingir que sirvo, e mais: não quero fingir. Eu também não presto para isso: fingir. E eu estaria sendo leviana se dissesse que gostaria de prestar para qualquer uma dessas coisas que envolvem o mundo real, cheio dessas inconvenientes Realidades que começam com a letra “R” de Ruim.

Eu queria mesmo era que não prestar para nada disso prestasse para alguma coisa.

Roberta Simoni

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Somos mais.

No primeiro sonho eu usava um vestido tomara-que-caia branco, dançava e ria numa festa que acontecia no seu apartamento, que era o único que parmanecia intacto sobre a estrutura de um prédio em pleno desmoronamento. No segundo sonho o cenário era uma festa de gente elegante, e, segundo você, eu estava deslumbrante, num vestido escuro de veludo, que você não sabe se era verde musgo, azul marinho ou preto, tinha um decote bem cavado nas costas, minha cabeleira quase toda presa, com alguns cachos soltos, brincos enormes e brilhantes, uma gargantilha combinando, e eu sorria tanto, mas tanto… e girava e girava…

Eu era quase tão escandalosamente feliz quanto uma gargalhada. E você ficava em estado de êxtase puro, enquanto sonhava e, depois ainda, quando acordava.

Seu corpo que ainda teima em girar com o meu, feito criança que gosta da brincadeira e não quer nunca mais parar. Meu corpo que reage com gargalhadas gostosas e falta de ar. De olhos fechados, dá a impressão de que os nossos pés vão sair do chão e alçar vôo a qualquer instante. E a gente brinca. Brinca que a vida é uma festa, no seu apartamento entre ruínas, na minha cabana, numa festa de granfinos com brilhantes que ninguém diria que são falsos, ou na padaria da esquina, comendo o melhor pão com manteiga que existe.

Fico tonta, mas você continua a me rodar. Tenho medo, mas não dá vontade de parar. Você diz que não cabe dentro de tanta felicidade, e me falta fôlego para te responder que você é maior do que pode imaginar. O lustre do teto do quarto ainda está rodando, meu corpo está imóvel e silencioso, coberto com um tecido macio que não é o vestido de veludo do seu sonho, é só o lençol da minha cama que me envolve enquanto assisto aquelas duas criaturas divinas dançando, rodando e rindo alto, sem parar. O lustre cai, o teto some, e só o que existe é o céu da gente.

Que ousadia sua achar que eu existo além dos seus sonhos. E corajosa de mim acreditar que você é real. Não somos palpáveis. Somos mais.

Roberta Simoni

Tarde demais, baby…

Ela estava aí, do seu lado, todo o tempo, e só agora que ela foi embora você percebeu o quanto a ama e que não pode viver sem ela, aí você saiu feito um louco pela rua, pegou um táxi, mandou o motorista acelerar o máximo que pudesse, mas o trânsito estava  completamente congestionado, então você abandonou o táxi e foi correndo mesmo, entrou no aeroporto empurrando as pessoas, se desculpando, tropeçando e derrubando as bagagens que estavam pelo caminho, mas quando chegou no portão de embarque, ela já tinha entrado no avião, que decolaria nos próximos minutos. Você tentou ultrapassar o portão mesmo assim, mas, obviamente, foi barrado pelos seguranças porque estava sem o bilhete de embarque. Aí você pediu – na verdade você implorou – para que deixassem você passar, argumentou que o amor da sua vida estava dentro daquele avião e que se você não a impedisse, ela partiria para nunca mais voltar. Ficaram comovidos e, com alguma resistência, deixaram você entrar. Quando você alcançou o avião, a tripulação já havia sido avisada e estava à sua espera, a aeromoça (particularmente emocionada) comunicou aos passageiros o motivo do atraso do vôo e chamou sua amada pelo nome, que se levantou, sem entender nada, até o momento em que te viu vindo ao encontro dela. Vocês trocaram olhares apaixonados. Ela quis que você explicasse o que estava fazendo ali, e você finalmente disse, em alto e bom tom, que não conseguia imaginar sua vida sem ela e a pediu em casamento. Ouviu-se um coro de “Óhhhhhh” de comoção dentro do avião. Ela disse sim e vocês se beijaram demoradamente, enquanto os passageiros aplaudiam entusiasmados àquela cena de amor. A aeromoça suspirou, desejando viver um amor assim algum dia, e…

The End. Começaram a subir os créditos do filme, música do Roxette tocando ao fundo, as luzes do cinema se acenderam e as pessoas começaram a se levantar. Alguns casais ainda resistiam sentados, aos beijos, envolvidos pelo clima de romantismo cinematográfico, mas cedo ou tarde teriam que levantar, dar ao mãos e ir embora viver a vida real…

Eu não satirizo o amor romântico, só acho que, certas coisas, só funcionam bem nas telas do cinema, isto é, quando funcionam. Esse roteiro onde o mocinho passa o filme inteiro sem notar o amor platônico da mocinha e só no final descobre o seu amor por ela, ou da fulaninha que durante toda a estória não dá o devido valor ao fulaninho e no fim, decide ficar com ele e os dois são felizes para sempre não cola… não mais.

Pode ser que um dia eu entenda, mas acho pouco provável… se tem uma dúvida que levo comigo dessa vida é essa: por que as pessoas só dão valor depois que perdem?

Teoricamente não seria mais simples valorizar o que está ao alcance das mãos, diante dos olhos do coração? Então, por que na prática é tão diferente? É como se alguma coisa encobrisse a visão enquanto você ainda tem ao seu dispor e depois, ao perder, como num passe de mágica, você passasse a enxergar o que antes, misteriosamente, não via.

Por que só agora que eu não te quero mais? – foi a pergunta que eu fiz, anos atrás, para um ex-namorado. Não sei… – foi o que ele me respondeu com sinceridade. Pois é, nem eu sabia, e ainda não sei e, provavelmente, nunca vou saber, tampouco entender. Porque os anos passam e eu vejo as pessoas cometendo os mesmos erros tolos, de olhos vendados, perdendo de vista grandes amores, deixando escapar a magia do relacionamento construído no cotidiano a dois, para depois terem tristes estórias de amor para – não – contar. Sim, porque, me desculpem, mas, eu não tenho interesse em escutar.

E eu espero que as chances tão logo se esgotem, porque é puro desperdício de tempo e desgaste do amor que, se ainda não se esgotou, pouco sobrou para gastar. E eu não quero que ele termine com ela. Eu quero que ele entre no avião e, por conta do atraso do vôo, os passageiros estejam esbravejando contra ele, que irá encontrá-la acompanhada de um cara bem mais gato que ele – e apaixonado por ela agora! Exatamente agora, quando ela também está apaixonada por ele, e não amanhã, quando ela, cansada de amar por dois, for embora. Eu quero é ver gente se amando “tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora”, não em tempos e mundos distintos. Quero escutar falar de estórias de amor que começam e terminam juntas, embora, fatalmente, tantos acabem separados antes do fim. Mesmo assim, o que eu quero é ver recíprocos começos, meios e fins de amor mútuo, independente do desfecho, um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.

E você, meu bem, trate de se engraçar com a aeromoça que se derreteu toda com seu romantismo descartável e seu amor tardio, porque dessa vez (confesso que sinto um prazer cretino em dizer isso) você até alcançou o avião, mas chegou tarde demais, baby

Na foto do post, a escandinava Greta Garbo, que rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos com John Gilbert em A Carne e o Diabo, na da década de 1920. E no vídeo, Deborah Kerr, ao lado de Burt Lancaster, protagonizado o mais exuberante dos beijos cinematográficos de todos os tempos em A Um Passo da Eternidade. Porque suspiros e um pouco de romance de cinema não fazem mal a ninguém… 😉

Roberta Simoni

Em dias de fantasia

É verdade que às vezes eu me tranco num casulo de preocupações e aborrecimentos, esqueço da minha promessa de carnaval e visto a fantasia da realidade involuntariamente.

É verdade que grandes mudanças estão para acontecer. É verdade que eu preciso tomar decisões difíceis.

E a verdade maior de todas é que, mais do que nunca – ou mais do que sempre – eu serei chamada de louca, maluca, doida varrida… tudo muito familiar pra mim (e isso também é verdade).

E pensando nas minhas loucuras voluntárias e ainda não anunciadas, eu me aproveitei do carnaval para vestir a minha fantasia insana sem ser taxada de maluca. Porque no carnaval, tudo pode. Tudo é festa. E toda insanidade é perdoada.

… E acabei indo parar na página da Uol.

Na legenda: “Roberta Simoni se diverte no bloco das Carmelitas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.”

E depois na página da IG:

“Cariocas e estrangeiros se misturaram no bloco, com fantasias criativas como um dominó humano.”

E até no O Globo:

Isso porque eu não tive metade da energia desse povo aí para ir atrás dos blocos todos os dias. E se alguém estivesse lá escondido, tava era lascado, porque nem o RJ TV e o Jornal Hoje nos deixaram passar batidos. Evaristo que o diga… 😀

“Betaaaaaaaa, acabei de te ver na Globo, pulei aqui na frente da tevê: é ela, é ela, é ela!” (minha irmã, ao telefone, empolgada com meus 5 segundos de estrelato, vestida de peça de dominó… uó!).

Mas gente… eu juro: não vou deixar a fama subir à cabeça. =P

O carnaval termina hoje e eu ainda estou pensando se visto ou não aquela fantasia desbotada e ordinária da realidade.

A loucura me cai tão bem, afinal.

Vai dizer que não? 😉

Roberta Simoni

A fantasia desbotada da Realidade

Se neste país o ano só começa depois do carnaval, e de fato tudo na minha vida parece só querer começar a acontecer depois da quarta-feira de cinzas próxima, tudo bem. Se o Brasil para, eu paro junto. Aqui a gente dança conforme a música, ou no batuque do samba.

Ouvi uma frase do amigo Gabriel que ficou ecoando na minha cabeça hoje: “A minha fantasia é a realidade.”. Achei linda. Daria um belíssimo texto se eu não estivesse vestindo a fantasia da realidade às avessas.

Neste carnaval, “A minha realidade é a fantasia”. E o meu lado “mulherzinha” se sente profundamente ofendido de repetir a mesma roupa por tantos dias consecutivos e eu já começo a enjoar desse uniforme. Então tá decidido: guardo a realidade no fundo do armário (ou, no meu caso, no fundo da mala) e só volto a vestir depois do carnaval. Pronto.

Se o que é real, palpável e concreto não é colorido o suficiente, o carnaval taí pra isso: descombinar as cores, misturar as estampas, desordenar a rotina, esticar os prazos e adiar os compromissos inadiáveis.

Eu quero listras com bolinhas, cores estampadas num tecido prateado de lantejoulas douradas. Quero a cor púrpura das paixões no meu cabelo, embaraçado com confetes e serpentinas. Quero o brilho do suor da minha pele se confundindo com a purpurina.

As máscaras? Quero todas possíveis. Menos a minha de todo dia.

E, por favor, abram alas, que eu quero passar… ♪ ♫ ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪ ♫ ♪

Quem vem comigo?

(a foto eu tirei daqui óh!)

Roberta Simoni

Você acredita?

Eu nunca esperei que a fadinha do dente trocasse o meu dente de leite por dinheiro, sempre soube que eram os meus pais que compravam os ovos de páscoa e nunca entendi direito o que o coelho tem a ver com chocolate.

Com o bom velinho não foi diferente, sempre soube que Papai Noel era um homem comum fantasiado, por isso, nunca escrevi uma carta pra ele, nem esperei que ele entrasse pela chaminé da minha casa trazendo o meu presente. Até porque eu nunca morei numa casa que tivesse lareira.

Nasci no litoral de um país tropical, e Papai Noel com aquelas roupas todas de frio nunca fizeram muito sentido pra mim. Nossa! Como devem soar os “Papais Noéis” brasileiros, pobres coitados!

Meu pai passou a infância traumatizado, magoado com Papai Noel, que ano após anos não aparecia, o presente então… menos ainda. É compreensível que tenha vindo dele a decisão de não alimentar nenhuma ilusão nas filhas. Minha mãe concordou, e felizmente nunca usou o Papai Noel para fazer terrorismo comigo. Nunca me disse que se eu não me comportasse, o tal gorducho de barbicha branca não traria o meu presente. Ufa!

No entanto, na nossa última confraternização natalina eles se confessaram arrependidos por não terem alimentado a minha imaginação infantil.

Papy e Mamy: Não se preocupem! As fantasias que vocês não criaram na minha cabeça quando criança, eu compenso até hoje. Minha imaginação é, provavelmente, mais fértil que a de uma garota de cinco anos, e os meus devaneios são tão grandes que eu evito contar pra vocês porque, aí sim, vocês ficariam preocupados.

Ter tido consciência da verdade desde cedo não afetou a minha imaginação, tanto que hoje eu não só escrevo como crio histórias. E se teve algum lado negativo nisso tudo, os que sofreram com ele foram os pais das outras crianças. Explico:

“Sua boba, se você puxar a barba dele, vai ver que é de mentira!” “Papai Noel vai na sua casa entregar os presentes? Deve ser o seu pai fantasiado, menino! Procura só o seu pai pra ver se ele não some na hora que Papai Noel aparece!” “Você pediu isso de presente na cartinha pra Papai Noel? Se eu fosse você pediria alguma coisa que seus pais pudessem comprar, porque Papai Noel não pode ser rico se ele nem existe.” “Você não acha que tá muito grandinha pra acreditar em Papai Noel, não? O quê? Sua mãe não te contou a verdade até hoje?”

Não satisfeita em saber a verdade antes de todas as outras crianças da minha idade, eu fazia questão de desmistificar toda a farsa pra elas, consequentemente desmascarando os pais delas que, nada contentes, iam reclamar com os meus.

Criança é uma coisinha muito meiga e pura, mas pode ser a criatura mais cruel que existe. E eu, obviamente, passei longe de ser uma flor de candura desde bem novinha. Ora… aposto que se eu não falasse, ninguém jamais notaria!

Quando eu tiver os meus filhos (se eu os tiver), talvez eu os estimule a acreditarem em Papai Noel, ou talvez eu simplesmente deixe que sejam livres para acreditarem no que quiserem, como os meus pais fizeram. No fundo, ninguém precisa de estímulo para fantasiar. Uns fantasiam mais, outros menos. Há ainda os que só sabem viver o que é real, palpável.

Eu continuo com meus sonhos, vestindo as minhas fantasias coloridas e ousadas, confundindo o real com o imaginário, ultrapassando o limite do impensável.

Eu que sempre fui descrente do Papai Noel, coelhinho da páscoa, fadinha do dente, fada madrinha, duende e príncipe encantado, acredito em coisas bem menos prováveis, que gente grande e pequena é capaz de duvidar: no sorriso que pode transformar, na intuição que pode salvar, na palavra que pode acarinhar, na estrela que pode me ouvir, no amor que ainda pode ser mais forte e no sonho mais ousado que pode acontecer.

Pensando bem, seria mais fácil acreditar em Papai Noel…

Roberta Simoni

A alegria do pecado

Foi Eva quem começou, comendo aquela bendita maçã, e desde então nunca mais pararam de fazer sexo por aí, e não sou eu quem vai dar fim a uma atividade clássica, histórica – e até bíblica – como essa. Então, só me resta dar continuidade com o máximo de afinco que me cabe.

Mas, eu preciso dizer que essa noite eu me superei! Não, eu não passei a noite fazendo sexo, ainda que esse tipo de programa não me cause qualquer contrariedade, eu fui dormir sozinha. Mas tive uma noite de orgias…

Seria normal se eu tivesse sonhado com alguém ou com algum fetiche, mas não… no meu sonho, eu sequer sabia com quem eu estava transando, eu simplesmente queria gozar, e gozar, e gozar… simples assim.

Na vida real sexo pra mim tem nome, RG, CPF e tudo mais que um ser humano costuma ter para se apresentar perante a sociedade, e orgia não é a minha praia. Pelo menos não enquanto estou acordada…

Como esses sonhos são recorrentes, começo a desconfiar que possa ser uma espécie de “tarada enrustida na calada da noite”.

Eu também sonho constantemente que estou batendo em algumas pessoas. E essa é outra prática que não faz parte da minha rotina, por mais que eu sinta vontade de praticá-la diversas vezes, principalmente quando estou na TPM.

Aqui temos dois exemplos clássicos de “pecados”: sexo e violência. E se vocês me perguntarem se eu acordo me sentindo mal quando tenho um desses sonhos, a resposta é não. Não, não e não.

“Uau, que isso, garota?!?” – isso é tudo o que eu consigo pensar! Well well… não posso me culpar pelos sonhos que tenho, afinal.

Dizem que os sonhos são reflexos da realidade, ou de desejos guardados no subconsciente, não se sabe… eu só sei que já aceitei a condição humana de pecadora faz tempo, e se não bastam os pecados que cometo acordada, eu ainda insisto em pecar enquanto durmo, que seja… como impedir?

Se bater em alguém que atiça os meus instintos mais selvagens for tão bom quanto é nos meus sonhos, que, pelo menos, eu possa aproveitar enquanto durmo, já que na vida real eu sou covarde demais para levantar a mão para alguém.

E gozar, bom… gozar não tem como ser uma coisa ruim sob qualquer circunstância, com ou sem distinção, sonhando ou acordada, e já que dormindo eu me revelo essa  mulher promíscua da qual eu não tenho o menor controle, benditos sejam esses “orgasmos sonhadores”.

Eu deixo que a alegria do pecado tome conta de mim… porque, às vezes é muito bom não ser divina!

“Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso.”

(Carne e Osso – Zélia Duncan e Moska)

Roberta Simoni 

Marketing é tudo!

Em meio a tantas notícias trágicas e medonhas que a mídia expõe diariamente, uma matéria exibida há poucos dias nos principais veículos de comunicação me chamou a atenção:

“Anúncio oferece R$ 40 mil para vaga de zelador de ilha paradisíaca.”

Island

O governo do Estado de Queensland, na Austrália, está oferecendo o que considera “o melhor emprego do mundo”: o de zelador de uma ilha paradisíaca. A vaga é para um contrato de seis meses e o salário é de 150 mil dólares australianos (R$ 235 mil) pelo semestre – o que representa pouco menos de R$ 40 mil mensais.

Entre as responsabilidades está a coleta das correspondências, alimentar tartarugas marinhas e peixes, limpar as piscinas, observar baleias e mergulhar.  O governo esclarece que o candidato não precisa de qualificações acadêmicas, mas saber mergulhar, nadar e ter espírito aventureiro.

Na ilha de Hamilton, o governo oferece acomodação em uma casa de três quartos e sacadas com vista para o mar, e um buggy para transporte na ilha.  Além de cuidar das tarefas rotineiras, o empregado também deverá manter blogs, diário de fotos e vídeos sobre o trabalho. (Fonte: g1.globo.com)

Eu, como boa aventureira que sou, além de mergulhadora de carteirinha, falei logo de cara: “Opaaaaaa… é pra lá que eu vou!”

Eu e toda a população mundial, não é? Afinal, quem não quer ter o emprego que é considerado o melhor do mundo? Tanto que mais de 200 mil pessoas já se candidataram a vaga num curto espaço de 24 horas.

Faça um exercício: visualize uma ilha verdadeiramente paradisíaca, águas cristalinas, belezas naturais, num dos países mais lindos do Planeta, e você lá… mergulhando todos os dias, tirando fotografias, morando numa casa em frente ao mar com tudo pago e um carro à sua disposição. Nada de escritório, chefe, engarrafamentos, poluíção, estresse, ai ai…

Agora, faça outro exercício: volte para a Terra e coloque seus pés de volta no chão, porque nem só de sonhos vive o homem, tampouco de ilusão. Isso mesmo: ilusão, ou você não ficou com uma pulga atrás da orelha depois de ver/ler essa notícia? Pois é, eu também.

Uma das exigências do anúncio é que o candidato não tenha medo de viver sozinho e isolado, pois será o único morador da ilha durante todo o período. Bom, até aí tudo bem. O que o governo de Queensland não divulga é que esta ilha é infestada pelas espécies mais perigosas de tubarões e arraias, a barreira de corais deste paraíso abriga uma das mais temidas espécies de água-viva, além do polvo de anéis azuis, que tem nada mais, nada menos que o veneno mais potente do mundo, isso sem falar nos moluscos “fofinhos” lançadores de dardos, que causam necrose local. Ah, e como eu ia me esquecendo? Tem também o crocodilo de água salgada, que pesa uma tonelada, tem 7 metros de comprimento e deve ser super amigável, e vegetariano, é claro.

Fazendo uma pesquisa mais apurada sobre a ilha, você também descobre que ela está situada onde o buraco na camada de ozônio é mais notado no mundo, assim como a proporção de casos de câncer de pele.

Mesmo sabendo de todos os contras, aposto que muita gente continuaria considerando a proposta tentadora. Afinal, nada que um protetor solar não resolva, uns bons livros para os momentos de solidão e um equipamento de mergulho seguro e adequado. No final do trabalho, você voltará para casa com uma quantia satisfatória de dinheiro no bolso, com uma experiência de vida única e muitas histórias para contar, isto é, se você sobreviver para contar história.

Na verdade, o que tem por trás de tudo isso é um investimento pesado de marketing para incentivar o turismo na região, que consequentemente (Ah, como sinto saudades dos tremas…) mobilizará a economia local, gerando uma gama de benefícios. E, acredite, a repercussão mundial causada por esse anúncio já está gerando um valor infinitamente maior que o salário oferecido. Há dois dias, quando a campanha foi lançada, ela já havia atingido cerca de 29 milhões de expectadores, o que equivale a 10 milhões de dólares em publicidade.

Diante de tanta mesmice, é bom ver que o mundo ainda está cheio de gente com cabeças criativas e pensantes. Só não vá se deixar seduzir por elas, é aí que mora o perigo, ou melhor, os perigos moram, literalmente, lá no paraíso australiano…

Em tempo: aos interessados – e corajosos – o cadastro está sendo feito pela internet, no site: http://www.islandreefjob.com/  Com um pouco de paciência e muita fé, você consegue acessar o site, que está congestionado quase 24 horas por dia. Prepare a pipoca e o guaraná, vá exercitando o dedo enquanto clica, e força na peruca!

Roberta Simoni