Aquilo que se eterniza

Fotos

Antigas fotografias que nunca ficam antigas. Sorrisos de olhos fechadinhos de tanta alegria. Saudade do abraço apertado que a fotografia registrou, do cheiro e da sensação que a memória gravou. Saudade da calça tamanho 36 que agora só fica bem na foto antiga. Do cabelo curto de menina. Dos amigos que passaram e dos que ficaram. Da paixão que um verão trouxe e do amor que um inverno levou.

Saudade da infância de pés descalços, sem camisa, do cabelo “joãozinho”, das brincadeiras na rua, das primeiras descobertas, das sensações nunca esquecidas. Saudade até da parte da infância que não lembro ter vivido. Saudade da bisavó que eu desejei ter conhecido além do que vi numa fotografia em preto e branco.

Saudade das fotos que não tirei, dos momentos que não registrei através de imagens congeladas na geladeira do tempo, mas que o cérebro fez questão de arquivar… Dá uma saudade, sabe? Saudade dos lugares que ainda não conheci, dos amigos que ainda não fiz, do beijo que não foi roubado, da primavera que ainda não chegou.

Mais saudade ainda do que existiu e foi tão bom que se eternizou. Das fases, das descobertas, das “Robertas” que fui, da criança, da menina, da mulher. Daquela pessoa estranha, da pessoa que ainda reconheço, da minha versão que ficou esquecida. Das tantas caras que tive, das caretas que fiz, dos sorrisos que dei, dos estilos que tive, das bandas que fui fã, das músicas que ouvi, dos sonhos que realizei e dos que ficaram esquecidos no fundo de alguma gaveta.

Hoje eu perdi a conta da quantidade de horas que passei vendo e revendo fotografias, das mais novas até as mais “jurássicas”. Ri sozinha, gargalhei, chorei, me espantei, me encantei, me espelhei… ouvi sonoras gargalhadas na foto tirada numa roda de amigos. Senti a brisa do mar, escutei o barulho das ondas, senti meus pés tocando a areia molhada. Assisti o sol nascendo. Senti o sol me aquecendo antes de se pôr no horizonte da fotografia. Ouvi o estalo do beijo na bochecha, o barulhinho gostoso dos copos se chocando na hora do brinde. Os abraços que duraram só alguns segudos, mas que eu ainda posso sentir…

Roberta Simoni

A essencial essência

Livros

Hoje, sem querer, acabei descobrindo um sebo no meu bairro. Eu tinha algo em torno de vinte centavos no bolso, mas não resisti e entrei na loja. Sabia que não podia comprar nada com aquela quantia, mas sebos me atraem como se tivéssemos um imã.

Como todo sebo que se preze, este era perfeitamente desorganizado e tinha cheiro de coisa antiga. O perfume mofado daquele ambiente me despertou – além de alguns espirros alérgicos – doces e antigas recordações, que de tão antigas estavam se tornando desconhecidas. Retornei às “dezenas” de casas que morei com minha família durante a minha infância, lembrei do meu pai em suas madrugadas insones, acompanhado de cigarros e livros, e da minha mãe quase me implorando para que eu fosse dormir enquanto eu lia revistinhas em quadrinhos madrugada adentro. E isso me fez lembrar que a insônia e eu somos companheiras de longas datas…

Lembrei que a minha mãe sempre me seduzia com alguns cruzeiros que eu gastava na banca mais próxima à loja onde ela trabalhava, comprando gibis que me entretinham a tarde inteira.  Lembrei que eu levei anos até deixar que ela doasse aquelas revistas empilhadas numa cesta que ocupou um espaço no canto do meu quarto durante tanto tempo. Lembrei das prateleiras abarrotadas de livros da casa dos meus pais, que só fizeram crescer ao longo desses anos, e me dei conta de que estou criando o mesmo hábito.

O cheiro de passado entranhado em cada livro daquele sebo era mais do que familiar, era aroma palpável que dizia muito sobre mim. Era parte essencial das lembranças que estavam esquecidas em alguma prateleira antiga.

Folheei revistas e livros antigos e mexi nos discos de vinil da mesma forma que saboreio um pedaço de chocolate. Era a nostalgia que estava me atraindo e me seduzindo, era o passado pedindo para não ser esquecido, era a saudade carente de uma infância feliz e era também uma parte da minha essência querendo ser lembrada através de objetos, cheiros e lembranças.

Talvez não sejam só os livros do sebo que me atraiam, mas o passado que eu revivo quando entro lá, que sempre me seduz para que eu não ouse esquecer do que é importante ser lembrado.

Preciso urgentemente que alguém impeça a digitalização dos livros, por favor! Não duvido de sua praticidade e eficácia, mas livros eletrônicos não têm cheiro de poesia, não têm rabiscos nas páginas, e nem páginas de papel têm. Menos ainda têm o charme, o porte e a elegância de um senhor livro. Eu não me importo de usar objetos ultrapassados, afinal, também estou ficando ultrapassada, e não venha me dizer que perdi todo o meu charme por conta disso… 😉

E você, no que é ultrapassado? Quais são os cheiros que te trazem lembranças? E sua essência? Também anda esquecida em algum canto cheio de mofo por aí?

Roberta Simoni

Tesouro dos Mestres

Eu sei que hoje não é comemorado o Dia do Professor, mesmo assim é deles que eu quero falar hoje.

Estava com o pensamento longe, nem Deus sabe onde (como de costume, por sinal), quando me encontrei e parei onde estava: na minha professora de português da sétima série. Pois é, a minha cabeça estava uns 12 anos longe do presente. Quem diz que voltar no tempo é impossível, definitivamente não têm recordações.

Lembro com carinho de todos os bons professores que tive, desde a minha infância. Nessa fase, antes mesmo da alfabetização, tive uma professora – tia Edna – que cresci com saudades, um dia ela me deu um coelho de presente e me disse que era pra eu olhar pra ele e me lembrar sempre dela. Eu adorava aquele coelho, vivia com ele pra cima e pra baixo, só que a nossa relação rendeu muita “sarna para se coçar”, literalmente, para todos lá em casa. Tivemos que ficar de “quarentena” por uns bons dias para não espalhar o vírus, até melhorarmos. Já o coelhinho piorou e não resistiu. Mas, ele e a tia Edna se eternizaram assim mesmo.

Teve também o Guto, o único professor de matemática que recordo com saudades e emoção, tive aulas com ele na quinta série, depois disso, não me lembro mais de ter entendido alguma coisa, além do básico, sobre matemática na vida. Ele percebia a minha dificuldade, e tinha uma paciência sem igual, e ia além. Quando notou a minha timidez de perguntar, e percebeu que eu me sentia a pior das criaturas por não entender o que parecia ser – e devia ser mesmo – óbvio para todo o resto da turma, parou de me fazer perguntas diante dos outros e não mais me chamava para resolver as equações no quadro de giz, me poupando de sentir vergonha.

Certa vez ele me pegou chorando baixinho durante uma prova, e, discretamente, se abaixou ao meu lado, levantou meu queixo, limpou as minhas lágrimas e disse em voz baixa que não havia motivos para eu chorar, que eu não precisava me preocupar com nada porque ele estava ali para me ajudar. Ninguém mais percebeu o que se passava, e dali em diante, durante todas as aulas, depois de passar a matéria, ele ia até mim e perguntava discretamente se eu havia entendido, e caso a resposta fosse negativa, ele ficava o tempo que fosse preciso comigo, até ter certeza que eu aprendi. Foi assim durante todo o ano letivo, e no amigo oculto de fim de ano, adivinhem quem me tirou? Ele mesmo. Na hora de entregar o presente, ele fez um discurso emocionado diante da turma, e descreveu a menina baixinha, gordinha e de braço quebrado (essas eram minhas referências na época) de maneira tão bela que ninguém conseguiu descobrir quem era, até ele falar o meu nome.

Junto do anjinho que me deu de presente, ele escreveu um cartão, do qual ainda me recordo das palavras. Tenho guardado e preservado até hoje tanto o cartão quanto o anjinho, mas nada é tão precioso quanto essa lembrança, que se transformou em lição de vida e sensibilidade para mim.

No segundo grau a professora de artes, Cacilda, homossexual e motivo de chacota entre os alunos, era séria, e talvez por isso, muito ríspida também. Sabia como ninguém impor respeito e era extremamente crítica, mas nem percebia como se derretia ao ver um trabalho bem feito por um aluno. Na época, eu e mais três amigos inseparáveis – até hoje – adorávamos criar e desenhar, e acabávamos nos destacando do restante da turma, ela adorava tudo o que fazíamos. Lembro que uma vez tive um desenho exposto num museu da cidade, e também tivemos um trabalho transformado em capa de livro de poesias da escola. (Lembra Igor?)

Ela me fazia sentir vontade de criar, me estimulava a libertar todas as minhas idéias. Eu desenhava o tempo todo e comecei até a pintar quadros. Um dia, tomei coragem e levei as minhas fotografias para ela dar uma olhada depois da aula. Ela arregalou os olhos e disse: “Roberta, você nasceu pra isso, você precisa se profissionalizar.” Eu achava graça da empolgação dela, mas, para mim tudo aquilo era puro devaneio. Na semana seguinte, antes de terminar a aula, na frente de todos, ela me pediu que esperasse até o final da aula porque ela queria me entregar uma coisa.

Na mesma hora já começaram as risadas e o ti-ti-ti na classe, todo mundo  fazendo piadinha, e eu realmente não dava a mínima importância, sempre fui completamente despida desse tipo de preconceito. No final da aula ela me chamou para ir até a casa dela (duas casas depois do colégio), para buscarmos um presente que ela queria me dar. Saí da escola e fui até lá com ela, sem me preocupar com os olhares maldosos. Logo que entrei, ela me apresentou para a mãe dela, que foi logo dizendo – “Ahhhh, essa é a futura fotógrafa!” Fiquei toda boba, é claro. Aí ela veio com a coleção completa de revistas sobre fotografia, e me deu todas. Eu fiquei boquiaberta, e não quis aceitar, ela insistiu e me disse que era pra eu acreditar no meu talento, porque ela acreditava, e queria colaborar de alguma forma para eu me tornar uma a profissional de sucesso, que ela tinha certeza que eu seria. Mais tarde, quando e eu me vi tendo que decidir o meu futuro profissional, com medo de ir embora da cidade para fazer uma faculdade, o estímulo que ela me deu àquela época foi essencial, só lembrava dela dizendo: “Esse lugar é pequeno para você, vá conquistar o mundo, menina…”

Pode ser que eu nunca conquiste o meu bairro, o que dirá o mundo, mas só o fato de ter tido uma mestra como ela acreditando e apostando em mim, foi como se eu tivesse conquistado.

Por fim, voltando à professora de português da sétima série – Andreia – que há 12 anos é minha amiga, a quem chamo carinhosamente de “Tia Dequinha” e sou chamada de “bonequinha”, apesar da nossa diferença de idade nem chegar a uma década e dela estar muuuito longe se ser “tia”, é assim que a considero, minha tia, mestra e amiga, e me sinto mesmo a sua bonequinha.

Fui aluna da primeira turma que ela deu aula. E, pelo menos comigo, ela deu um pouco mais de sorte do que o professor Guto, de matemática, coitado… santo homem. Sempre me dei melhor com as letras do que com os números, e de repente me deparei com uma professora cheia de idéias inovadoras e com muito entusiasmo de ensinar (peculiar aos principiantes).

Eu nunca vi nada parecido com a sintonia que existia entre nós, alunos, e ela, professora de primeira viagem. Talvez pela pouca diferença de idade, talvez pela mesma troca de energia, ou porque falávamos a mesma língua, o fato é que rolou química, apesar de estarmos aprendendo português. E como aprendemos!

A Marca de Uma Lágrima. Esse foi o nome do primeiro livro que eu li – e senti – na vida. Tudo que eu havia lido até então, tinha sido pela metade, ou só por exigência escolar. Pois é, ela me colocou no caminho sem volta da leitura, felizmente.

Um dia eu a encontrei triste na escola, o que não era nada comum. Perguntei o que havia acontecido, e ela chorou de imediato, e mal conseguiu falar que a sua cadelinha havia falecido naquele dia. Senti como se fosse comigo, quem gosta de bichos, sabe como é doloroso perdê-los. Chorei junto com ela, depois fui pra casa, escrevi uma carta, comprei, com uma amiga, um cachorrinho de pelúcia para ela, e o batizamos de “Ro-beta” (junção de Rosângela – nome da minha amiga – com Beta). Fomos até sua casa e entregamos o presente, choramos mais um pouco, e começamos ali uma amizade que, tenho certeza, vai até as nossas próximas vidas, se elas existirem.

Antes do segundo semestre terminar, recebemos a notícia de que a escola fecharia as portas. Sobrevivemos naturalmente à despedida com os demais professores, até a aula dela. Que aula? Nós só chorávamos, todos juntos, abraçados à ela. Algum tempo depois, ela me deu uma foto que tiramos neste dia, que é, ao mesmo tempo, linda, terrível e cômica. Todos chorando de cara inchada, até os meninos mais broncos da turma de boca aberta, se acabando de chorar.

Infelizmente cada um foi parar numa escola diferente, e por conta dessa mudança repentina, ainda por cima no fim do ano letivo, muitos acabaram sendo reprovados. Perdi o contato com a maioria dos meus colegas, mas não com ela. Frequentávamos a casa uma da outra, e ela conquistou toda a minha família, o que era absolutamente previsível. E, um dia, no meu aniversário, ela chegou com dois presentes: um diário lindíssimo e uma singela carta de cinco páginas. Uma das mais criativas e emocionantes que já recebi na vida.

E toda vez que preciso me lembrar do quanto a vida foi e é generosa comigo, abro o meu baú de tesouros, onde guardo não só esses preciosos presentes, mas principalemente, as melhores lembranças de cada momento ao lado dos professores que foram mais do que mestres para mim, que reforçaram o meu caráter e me ensinaram muito mais do que português, matemática, artes, ou qualquer outra disciplina. As lições que eu aprendi com eles me acompanharão por toda a vida e, certamente, me ajudarão a ensinar a outros um pouco do que aprendi, ainda que eu não tenha o menor talento para ser professora, sei que posso fazê-lo de infinitas formas.

Observação 1: este é o texto que me referi há alguns dias, que ficou longo demais e eu ainda estava pensando se publicaria ou não. Eu decidi publicar, como pode ver. Se você leu até aqui, parabéns, e me perdoe por ter me extendido tanto. Eu avisei, eu avisei… (risos)

Observação 2: estou aqui pensando sobre quando eu escrever um texto contando dos piores professores que tive, e já me veio à mente uma lista deles. Já vou logo avisando que provavelmente o texto será o dobro deste, pois assumo que não fui benquista pela maioria dos professores que tive. E, sinceramente, nem imagino os motivos.

Roberta Simoni