Tá tudo bem

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A virada desse ano foi simbólica pra mim, a começar pelo jeito e o local onde resolvi passar: sozinha, no quarto. Parece triste e solitário, mas é só o que parece. A cama estava aconchegante, minha playlist estava ótima e eu ainda consegui escrever e meditar.

No primeiro dia do ano fui a uma confraternização na casa de uns amigos e conheci um casal muito simpático com quem fiquei conversando. Eles contavam animados como tinha sido sua passagem de ano e, a certa altura, me perguntaram como foi a minha. Falei que passei sozinha, sem qualquer expressão de tristeza ou de euforia, como quem fala: “fui à padaria e comprei um pão”. Mesmo assim rolou um silêncio constrangedor. Eles se entreolharam e a moça comentou: “puxa, se tivéssemos te conhecido antes teríamos te convidado para passar com a gente”. Não, pera… calma, gente! Tentei explicar que passar a noite de ano novo sozinha foi uma escolha consciente, mas era tarde demais. Eles vão achar para sempre que sou uma coitada-carente-problemática-solitária. Tudo bem também. Uma coisa que venho tentando parar de fazer é ficar me explicando o tempo todo. “Deixa que digam, que pensem, que falem”, já cantava Jair… ah, deixa isso pra lá.

2015 foi um ano de introspecção pra mim. E eu não estou substituindo a palavra depressão por introspecção, embora eu tenha flertado com a Laura (nome de batismo da minha depressão, pra quem não sabe) muitas vezes e até me atracado com ela vez ou outra, não nego. Mas não posso culpá-la por toda a barra que eu enfrentei no ano passado. Seria injusto. Laura não me deixou apática, prostrada numa cama como fez anos atrás, quando eu ainda não sabia como lidar com ela. Agora eu sei, bitch!

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Eu até tive muitos momentos de aparente prostração e alguns até foram na cama, mas eu estive, durante todo aquele tempo, refletindo, questionando, buscando alcançar alguma compreensão sobre as coisas que eu estava passando, tentando entender o processo doloroso que eu estava vivendo e toda a responsabilidade que eu tinha por estar no meio dele, para, finalmente, passar de fase. Ufa, passei!

Não me permitir assumir o papel de vítima (nem de vilã) me deu bônus em vidas extras para conseguir sair daquela fase medonha e passar para uma bem mais serena e feliz.

A fase atual vai bem, obrigada. Os momentos de introspecção (ou de apagão na vida em sociedade) persistem, mas na hora do recreio não tem pra ninguém. Eu abro minha lancheira da Mulher Maravilha e de dentro dela saem biscoitos recheados e chocolates de todos os tipos, salgadinhos e todas as porcarias deliciosas do mundo, e eu me jogo nelas como se não houvesse amanhã. Brinco com as outras crianças e vou em todos os brinquedos do pátio como se o sinal anunciando o fim do recreio não fosse soar a qualquer momento.

Quando o sinal toca, eu volto para o meu mundinho e tudo bem. Às vezes eu durmo durante a aula porque brinquei demais no recreio, aí eu compenso passando o intervalo seguinte estudando e tá tudo bem também.

Tá tudo bem.

Tá tudo bem em não querer estar em festas regadas a champanhe no réveillon ou na praia de Copacabana, tropeçando em despachos, tomando banho de Sidra Cereser e sendo levada pelo arrastão. E tá tudo bem em querer também. Tá tudo bem em negar o convite para ir numa viagem ou para participar de uma confraternização só para os amigos mais chegados na casa da Marcela, que é na serra, no apartamento do Osmar, que é de frente para o mar ou no apartamento do Jairo, que é meu vizinho de bairro. Tá tudo bem em não querer sair do ar-condicionado, não comprar uma calcinha nova (ou não usar nenhuma) e ficar de camisola na noite de réveillon. Tá tudo certo. Tá tudo bem.

E tá melhor ainda não ter que explicar nada para ninguém no dia seguinte, quando eu sinto vontade de sair e encontrar os meus amigos que passaram a virada do ano na praia, na casa da Marcela, do Osmar ou do Jairo, porque ninguém ficou chateado comigo por eu ter escolhido ficar quieta no meu canto.

Dramatizar menos a vida também tem sido um exercício que eu venho tentando praticar. Ela já é suficientemente dramática sem a minha ajuda.

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Outro exercício que venho praticando é testar novas sensações diante de novas ou antigas situações, observar como eu me sinto quando faço algo fora do meu padrão de comportamento ou algo que todo-mundo-espera-que-todo-mundo-faça. E não é para ser diferente, porque já faz um tempinho que eu passei da fase de querer confete. Meus “testes” normalmente não fazem nenhum ruído, não contam com a colaboração alheia e não implicam em mudar a vida de ninguém, então passam despercebidos, e é assim que deve ser.

É para descobrir coisas novas a meu respeito que eu me testo. Estou muito interessada em conhecer essa pessoa que anda com meu corpo por aí e esse corpo que anda carregando as emoções que eu senti e as experiências que eu vivi.

Tem sido embaraçoso e esclarecedor. Divertido e assustador. Sobretudo, tem sido transformador.

Não suspeito aonde essas transformações vão me levar e prefiro não dar palpites por enquanto. É cedo, a caminhada é longa e eu tô numa estrada escura sem nenhuma placa de sinalização. Dá medo, mas é bom. O céu nunca esteve tão estrelado.

Roberta Simoni 

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Encarando o caos de frente…

Enxergar

“Aceitar o que nos machuca profundamente, o inexorável, o que é, ao mesmo tempo, brutal e natural, não nos torna, necessariamente, mais brutos. Só mais lúcidos. A brutalidade, você e eu aprendemos isso ao longo da vida, pode ou não vir acompanhada de boa dose de realismo.” (Fal Azevedo em “Sonhei que a neve fervia”)

A Fal tem razão quando diz que reconhecer que a vida é mesmo uma causa perdida, não significa, em momento nenhum, que a doçura vai deixar de existir. Eu fiz uma escolha. Escolhi olhar o caos de frente e uma escolha como essa requer muita, muita coragem, porque é sabido que vai doer, vai doer muito. E o gosto é amargo, mas existe alguma coisa doce ali. A coragem de fazer aquilo que todos os envolvidos deveriam ter feito há muito, é agridoce.

Meu apartamento está parecendo um campo de refugiados. No caso, de refugiada. Uma única: eu. Há roupas espalhadas por todos os lados, malas ainda não desfeitas, garrafas de água, coca-cola e vinho vazias. A pia da cozinha transbordando, bem como o cesto de roupas sujas. A geladeira, como de costume, vazia. E eu não quero ir ao supermercado agora, nem amanhã, nem depois. Eu não quero e não vou fazer nada que eu não sinta vontade agora, talvez amanhã ou depois.

Meu apartamento é, quase sempre, o reflexo do meu estado emocional, portanto, estamos oficialmente caóticos. E sem culpa, pois escolhemos encarar o caos de frente. Mas não sem dor.

E todas as vezes que eu assumo, sem vergonha, que estou sentindo dor, as pessoas se assustam. Ora, nada dói em vocês? Ou dói e só eu e mais alguns poucos assumem? Esse ano eu fiz o rappel mais alto da minha vida, no local mais alto do Brasil, senti medo, avisei que estava com medo e perguntei para os outros que estavam no mesmo barco, ou melhor, na mesma corda que eu se eles também não estavam sentindo medo e ninguém se pronunciou, apesar de cara de pânico de alguns ser maior do que a minha. Me parece que é desse mesmo jeito que as pessoas reagem diante da dor.

O conceito equivocado de felicidade tem me incomodado mais do que antes, tem me saltado aos olhos o tempo todo, aliás, tantas coisas me saltam aos olhos que minha vista anda cansada. Aumentar o grau das minhas lentes não foi uma atitude inteligente. Com o passar dos anos, enxergo menos e melhor. Sim, melhor. Vejo coisas que antes não via, quando minha miopia ainda não era tão acentuada. O problema é que não há óculos que corrijam minha nitidez precisa.

Enxergar as coisas como elas são dá uma certa tristeza, porque as coisas, geralmente, são tristes. No fundo, e no raso também, enxergar bem é uma punição.

Bem aventurados os amores cegos, as paixões desenfreadas, a esperança descabida, a fé imaculada, a ignorância abençoada e a sinceridade podada.

Hoje é o último dia de 2012, e eu acordei lembrando do sonho que tive pouco antes de despertar: um escorpião me picava. Busquei o significado no Google e parece que sonhar com escorpiões, especialmente quando se está sendo picada por eles, é sinal de bom agouro. Tão melhor…

O calor está insuportável e eu não quero ir a lugar algum, mas preciso. Hoje é noite de Reveillon e eu vou trabalhar fotografando as pessoas sendo – ou tentando ser – felizes. Hoje é noite de Reveillon e eu não vou ter ninguém para abraçar na hora da virada, vou me esconder atrás do visor da minha máquina e meu dedo vai apertar aquele botão que disparará fotos frenéticamente e ninguém vai perceber que o meu coração estará disparando no mesmo ritmo.

E, contraditoriamente a tudo que eu disse antes, eu vou arrumar meu apartamento antes de sair, porque é muito bom ter para onde voltar e eu espero que o meu retorno para casa seja menos caótico – e que os escorpiões, de fato, me tragam sorte em 2013. Mas, não… não adianta, eu não vou mais ao supermercado esse ano. Ano que vem talvez. No ano que vem amanhã tudo pode acontecer.

Roberta Simoni

Sabor de fruta mordida (ou calcinha da sorte!)

Já é dezembro e outra vez a gente se pega pensando: mas, já?

O ano tá acabando de novo, e sempre rola um “momento retrospectiva” nessa época. Me lembro de, ao final da retrospectiva 2009 chegar a uma drástica – porém real – conclusão: tive um ano ruim. Ponto. Arrisco dizer que um dos mais difíceis da minha vida. Logo, as expectativas para 2010 não poderiam ser melhores, com perspectivas mais promissoras: eu simplesmente não esperava nada além de um ano melhor do que aquele que estava acabando. Moleza, né?

Não teve festa na virada, só uma longa caminhada na praia, sem pular as sete ondinhas, sem pedidos nem promessas, sem paixão, apreensão ou qualquer sentimento latente, sem indícios de alegria, nem vestígios de mim, usando aquela velha e confortável calcinha bege. Minha despedida daquela versão então triste, sem vida, sem graça, cor-de-pele-desbotada. Meu luto conformado, repleto de uma serenidade que só a maturidade sabe.

Aí veio 2010 e eu nem ouso contar a quantidade de coisas e de vezes que a minha vida e eu mudamos em um ano. Tem gente que diz que a minha vida daria um livro, acredito. Duvido que seria um Best-seller, mas diria que só o capítulo dos últimos meses daria uma enciclopédia, só que divertida, especialmente se resumida aos melhores e menos prováveis fatos, sublinhados de amarelo fluorescente nas minhas páginas favoritas.

2010 não foi um ano, foram 10 em um só. Exagerada? Quase nada… é que eu ando mesmo “meio Cazuza”, inventando amores para me distrair, (des)inventando ausências para me iludir, transformando o tédio em melodia, cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar, me cobrindo de sonhos numa tarde branca, interessada em mentiras sinceras, contando meus segredos de liquidificador às orelhas frias dos sete ventos, jogada aos pés da mais intensa paixão da última semana, mulher sem razão, de coração viciado em amar errado, sua flor, seu bebê…

Achando a vida muito louca, muito breve, forrando as paredes do meu quarto com as misérias das manchetes, pra lembrar que nada é tão sério, nadando contra a corrente só para exercitar, tentando algum trocado pra dar garantia, tomando meu trem para as estrelas, sendo artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, provando do meu próprio veneno antimonotonia que não me deixa pregar os olhos noite e dia, só na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva com aquele gosto bom de fruta mordida… doutra saliva já tão conhecida, do doce sabor amargo dessa famosa desconhecida tão cobiçada: a sorte de um amor tranquilo…

E em meio a todo o amor que há nessa vida, me aparece aquela que eu não quero levar para a festa, logo ela, bem no centro do meu universo: uma espinha gigante no meu rosto, que mais parece um segundo nariz, ou um terceiro olho. E só o que me resta é levá-la para dançar comigo, ou não ir à festa… vou dormir com a cara toda trabalhada na pomada, aí ele me olha e diz assim: “que coisa mais linda!”, com uma sinceridade quase comovente. Procuro minuciosamente em todos os cantos, mas não vejo nenhum sinal de ironia nele.

A senhora calcinha bege tão pouco formosa pode não ser milagrosa, mas tem lá o seu valor. E 2011 já vem chegando, vai que… 😉

Roberta Simoni

Tudo novo, novamente, de novo, mais uma vez!

Sou ré confessa: não telefonei para ninguém no Natal, não mandei cartão com votos de renovação de esperança para os meus amigos, nem mesmo pelo correio virtual, o que tomaria apenas alguns minutos do meu corrido tempo.

Também esqueci de me lembrar que Natal é mais do que peru e reunião familiar, e nem é culpa do meu ceticismo ou da minha falta de intimidade com o universo religioso, tampouco tenho alguma coisa contra o Natal, é simplesmente por não estar conectada.

Pode ser que no ano que vem eu comece a comprar os enfeites para a minha árvore de Natal com três meses de antecedência. Pode ser que no próximo ano eu tenha uma árvore de Natal. Pode ser que eu sinta vontade de ligar para Deus e o mundo. Pode ser que eu pense em Jesus. Pode ser que eu mande um e-mail para você com animações natalinas e com um Papai Noel falando “ho ho ho”. Ou pode ser que não.

Natal, Reveillon, aniversário… tudo isso pra mim é estado de espírito. Eu, por exemplo, costumo fazer mais de um aniversário por ano, ter mais de um Reveillon. Sempre acontece quando eu mudo. Quando eu sinto que alguma parte de mim se transforma para melhor, eu “aniversario”. Quando a vida me mostra novos rumos, é ano novo dentro de mim!

Também não é por mal que, às vezes, eu não telefono no dia do aniversário. O motivo é quase sempre o mesmo: eu esqueço. Tenho um problema sério com datas mas, mesmo quando lembro, só telefono se eu estiver conectada de alguma forma com o aniversariante. Se for única e exclusivamente para seguir protocolo, pode esquecer! Pra mim, só existe contato válido se os votos são reais, se existe alguma coisa realmente boa para ser compartilhada.

Quando eu me compreendi assim, parei de me forçar a fazer o que manda o figurino em datas comemorativas e me senti livre… livre para seguir a risca o que o meu coração manda, independente do dia do ano. Por isso aqueles por quem eu tenho amor, respeito, gratidão, admiração e/ou amizade recebem de mim cartas inesperadas em datas atípicas, e-mails inspirados, presentes personalizados, palavras doces, sorrisos genuínos, gargalhadas espalhafatosas, abraços apertados, telefonemas empolgados… e é deles que eu também recebo os melhores presentes.

Hoje me desejaram o sol. De todos os votos de fim de ano, esse foi o melhor. “Você merece o sol.” foi o que me desejou um recente amigo. E isso soou tão bem ao meu coração que eu decidi compartilhar com vocês o sol que ganhei. Pra aquecer, para secar o que ainda estiver úmido e para derreter o que era gelado. No mais, desejo TUDO NOVO DE NOVO!

E de tudo o que quero mudar (de novo), a única coisa que eu não quero que mexam é no sol que eu ganhei de presente, nem mesmo no inverno. Porque é dele que eu recebo os mesmos raios de luz que irradio.

Sol pra quem me lê, pra quem olha através da minha janela, e para quem entra aqui a fim de poetizar, distrair, rir, emocionar, ver e ler o cotidiano da vida acontecendo. Pra quem quer ler um conto, um “causo”, uma crônica. Pra quem quer me ler… sol, muito sol, como profundo agradecimento pela companhia e pela partilha de luz que entra e sai por esta janela de cima!

Tudo novo de novo, menos essa troca natural de empatia com o universo, maior que do qualquer apatia que o mundo oferece o tempo todo.

E mais uma confissãozinha antes de partir pra 2010: sabem o que eu quero muito, muito mesmo? É ver 2009 pelas costas!  E algo me diz que eu não sou a única! 😉

E para fechar o ano com chave de ouro e começar a próxima contagem de tempo com a energia renovada, eu escolhi essa música que é mais do que um hino, é a minha oração há muitos anos, a oração que um anjo chamado Gabriel me ensinou a cantar:

Tudo Novo de Novo (Moska)

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos.”

Roberta Simoni