Sou Rio e Sorrio

Hoje foram tantas as coisas que provocaram o meu riso que se eu pudesse teria sorrido só metade delas para guardar a outra parte para os dias menos propícios às graças.

Tenho o riso solto e às vezes queria poder prender um pouco pra não gastar tudo de uma vez. Mas gastei. Gastei tudo. Vendo aquela foto minha que você tirou; lendo um trecho irônico do livro do Alan Pauls; vendo o novo filme do Wood Allen; gastei rindo de mim, ouvindo a mesma música toda santa manhã, fugindo da tevê como todo santo domingo, fazendo as mesmas promessas de toda santa segunda-feira e ainda enchendo a boca pra dizer que não sou dada a rotinas sagradas. Aham.

Gastei meu riso vendo gente rindo à toa. Me joguei no tapete verde do parque e fiz as pazes com o sol e com a literatura. Dei uma pausa na leitura para fazer uma anotação e foi quando vi que a velhinha que passava também parou de caminhar para assistir a astúcia das crianças que se penduravam nos galhos fortes de uma enorme árvore à nossa frente. Ela agora sorri com os olhos e tem olhos brilhantes de criança na pele enrugada de gente que tá no mundo faz tempo. Nem percebe que eu a observo observando os moleques, tampouco desconfia que me provoca qualquer coisa parecida com emoção.

Acho que viver num lugar onde a vida é percebida é de uma delicadeza e graciosidade quase invisível aos olhos humanos e incompreensível ao olhar limitado que a gente tende a ter se não se força a enxergar melhor. E se meus olhos míopes vêem cenas que entendem como uma espécie de bênção, eu aceito a graça. E fico grata.

Nessas tardes felizes como as de ontem e hoje parece que não há outro lugar no mundo e que o mundo não teve antes, nem haverá depois. É só isso. Ver o sol se pôr atrás do Morro Dois Irmãos, pedalar da Urca ao aeroporto Santos Dumont para ver de perto os aviões decolarem, repousar na Pedra do Arpoador, me esticar no gramado do aterro do Flamengo entre o parque e a praia, tomar café no Parque Lage, fotografar a tarde inteira, dar longas caminhadas na Lagoa e ter a possibilidade de viver um pouco de fim de semana todo fim de dia de feira.

Viver as tardes do Rio de Janeiro é ter sempre a certeza de que nunca será possível se decidir de que forma a gente pode ser mais feliz aqui.

E não há nada como se sentir feliz onde se vive. É como sentir-se, enfim, parte de alguma coisa boa num universo estranho, onde tantas vezes nada parece fazer parte de você.

Roberta Simoni

“Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe sou rio
A cantar

Sou do Flamengo
Sou ali em Botafogo
Sou da casquinha do ovo
E essas flores
Na Rocinha vou plantar
Quem olha minha barraca
No morro de Santa Marta
Quer morar

Se tenho fome
Como logo o Pão de Açúcar
Urro no topo da Urca
Se quero abraço
Tenho o Cristo pra abraçar
Tamborim pra ti tarol
Escolados pelo sol
Rio e morro de amar

Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe sou Rio
A cantar.”

(Vide Gal – Marisa Monte / Composição Carlinhos Brown)

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Cidade Apática

Eu tive sorte de não ter de voltar para casa sozinha numa noite como a de hoje. A chuva me fez companhia. Chove desde o ano passado aqui no Rio, sem parar. O sol insiste em não voltar das férias que resolveu prolongar em algum lugar longe daqui e a cidade parece ainda dormir. Quem já acordou para 2011 anda sonolento, sob o efeito de algum calmante.

Embora eu adore a chuva tanto quanto adoro o sol, definitivamente todo esse cinza não combina com a gente. Só faz aumentar a preguiça de começar mais um ano. Sem ânimo. As pessoas, os bichos, as árvores, as ruas molhadas e até os postes estão com a cara amarrotada de sono, bocejando. E eu ando achando tudo muito estranho.

Cariocas não gostam de dias nublados.

Hoje eu senti como se estivesse andando pelas ruas de Londres, não que eu conheça Londres tão bem assim, na verdade eu nem conheço, mas vejo nos filmes toda aquela beleza triste. Quem já viveu lá confirma: “se você não se cuidar, aquele lugar te deprime.”

Nesses primeiros dias do ano o Rio de Janeiro anda assim, com cara de quem acabou de acordar de uma noite mal dormida. Letárgico, dormente, apático. Nós, robôs, marchando lentamente ao trabalho, indiferentes, ainda com a cabeça nos problemas do ano passado e nos planos para o ano que vem. Parece que ninguém mais cai no conto do “ano novo, vida nova” por aqui. Pena. Eu queria cair.

Roberta Simoni

A simplicidade de ser/estar viva!

E era simples. Bastava dar literatura a ela e lançá-la à beira-mar antes que o sol desse lugar à noite. De nada mais ela se queixava e até duvidava se você ousasse dizer que ela tinha problemas tantos a resolver. E corajoso do sujeito que tentasse lembrá-la de seus afazeres, que estivesse preparado para ser sumariamente ignorado ao alertá-la da casa e da vida bagunçadas para arrumar, o barulho das ondas quebrando era estrategicamente ensurdecedor.

E era paz. A moça tagarela se calava para ouvir, só assim. E tudo ao redor falava, o livro, o mar, a maresia, as conchas, os grãos minúsculos de areia quando a tocavam. Era o “Deus” dela que conversava quando a calmaria chegava. E ela se escutava. E confidenciava seus segredos ao pé do ouvido do vento, que soprava mansinho para ela não perceber que cochichava com as aves.

E era real. Tocava os pés na água salgada e fria e se encharcava da sensação  maravilhosa que era ter um corpo com sentidos. Sentia-se deleitamente viva e conectada com o mundo bom. E não se envergonhava do prazer exposto ao sol, quando a pele arrepiava seus pêlos com a brisa fria que o fim da tarde trazia e o sol ameno a envolvia num abraço que a aquecia em puro gozo. Depois sorria largo, sem se importar, sem direção, mas com todas as razões que lhe cabiam. E também ria solto pelo que desconhecia, mas sentia. E  ela bem sabia o que sentia.

Roberta Simoni

(Recebi essa foto do Marcelo, lá de Brasília, novo amigo que fiz bem aí, nessa praia, enquanto eu lia meu livrinho. Ele teve a feliz ideia de tirar essa fotografia antes mesmo de me conhecer, e depois teve a coragem de me contar seu feito arteiro, e agora, por fim, me mandou a foto de presente, que me encantou por ser um retrato espontaneamente poético. ;))