Eu não tenho um plano

Zeitgeist Photography

Aquele momento em que você para diante da página em branco do Word e espera para ver o que os seus personagens têm a dizer e o que querem fazer…

O relógio marca 3:36 e faz pelo menos 30 minutos que estou parada diante da tela do computador esperando que eles digam alguma coisa, mas eles simplesmente não falam nada. A essa hora devem estar dormindo. Eu também deveria estar.

Alguém, a essa hora, também pode estar diante da página em branco da minha vida, esperando que eu diga alguma coisa. E eu, do lado de cá, esperando que alguém me diga o que fazer. Acho que o roteirista da série que eu protagonizo tirou férias. Deve estar no Havaí deitado numa rede, debaixo de uma bela sombra, diante de um mar azul, tomando um bom drink, decidido a voltar a pensar na minha personagem só no próximo mês, quando voltar de viagem.

Se eu sou uma personagem criada por alguém que inventou a minha vida, esse cara que me escreveu certamente anda indisposto a pensar na minha trama. Talvez esteja cansado dos meus dramas e, com preguiça dos meus dilemas, resolveu tirar férias de mim. Ou não. Talvez esteja apenas sem saber o que escrever, tal como eu com os meus personagens.

Pode ser que, nesse exato momento, ele esteja acordado, diante da tela do seu computador, fumando um cigarro atrás do outro, esperando que eu diga alguma coisa, enquanto tudo que eu faço é tomar coca-cola na minha xícara de café, sem ter a mínima noção do que fazer com o meu dia de amanhã, com a minha semana, com meu ano e com o resto da minha vida. A verdade é que eu não tenho um plano.

Pode ser também que ele esteja escrevendo que eu estou escrevendo agora e, se for esse o caso, gostaria que ele escrevesse que eu estou escrevendo a minha peça, sabendo exatamente o que fazer no terceiro ato, quando um dos personagens simplesmente resolve desaparecer e me deixa sem saber como explicar seu sumiço repentino para os demais personagens.

Não adianta. Hoje é domingo de carnaval, ele tá embriagado em algum boteco na Lapa e, definitivamente, não está em condições de me explicar como devo continuar o espetáculo.

Deixa pra lá, Word. Hoje não vai sair nada. Além do mais, acabei de ler aqui no meu roteiro que agora é a hora que eu começo a sentir sono, desisto de escrever e vou dormir.

Roberta Simoni

Nós, heróis.

Quando estudamos roteiro, seja de cinema ou de televisão, aprendemos que toda jornada de um “herói” começa pela recusa. Seja o herói o Superman, o Batman, ou uma pessoa comum com dilemas nada fictícios.

Como muito bem explicava o Décio, meu professor de roteiro: “Estava o mundo posto em sossego quando…”

O herói tá lá no seu mundinho quando, de repente, surge um problema ou um novo desafio e ele se vê obrigado (ou tentado) a enfrentá-lo.

Ele recusa ou demora a aceitar o chamado, geralmente porque tem medo, até que encontra um mentor que o convence a aceitar e oferece ajuda. Normalmente é aquele cara que diz “vai dar tudo certo” e se nada der certo, ele estará lá mesmo assim para dar apoio.

O herói, então, abandona o “mundo comum”, passa por testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, obtém êxito em suas provações, se frustra em outras, passa por crises,  pensa em desistir de tudo, mas volta ainda mais forte, preparado para o desafio final, onde coloca em prática todo o aprendizado que recebeu ao longo da trama.

Qualquer semelhança com a sua vida não é mera coincidência…

Enfrentar leões, sacrificar tigres, engolir sapos, comer mosca.

Se a gente não faz isso tudo num dia só, faz pelo menos um deles. Eu, como sou dotada de talentos múltiplos para minúsculos desastres cotidianos, não raro realizo todas essas tarefas num único dia. Nem por isso ganho uma medalha diariamente. Vida de herói anônimo não é mole…

Você pode enfrentar um ou mil leões por dia e normalmente isso depende do estilo de vida que você adota, ou da selva em que você vive, fato é que todo dia haverá um leão que seja para ser derrotado, na espreita para te atacar. Sabe aquela máxima que diz “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”? Então. Algumas vezes não é nem questão de matar ou morrer, mas de se esconder do bicho ou se disfarçar para escapar. E ai de quem disser que criatividade para se livrar de um leão não é atitude heróica!

Sacrificar tigres, na minha opinião, é o mais difícil dos desafios, porque normalmente os tigres que você tem que matar são os que você mesmo criou, viu crescer, deu de comer e quando se deu conta, o bicho ficou maior que você e tentou te devorar. São aqueles defeitozinhos e aqueles medinhos que deixaram de ser “inhos” e tornaram-se a causa de muitos males na sua vida e a única forma de detê-los é sacrificando.

“Dentro de mim morreram muitos tigres, os que ficaram, no entanto, são livres.” Essa frase é do Lau Siqueira (pelo menos foi isso que o Google me disse…), mas quem me mostrou foi a Gabs, e eu achei sensacional.

Engolir sapos e comer moscas é outra coisa que todo mundo faz o tempo todo, uns com mais dificuldade, outros com menos. Eu sou do grupo dos que não engolem sapos com facilidade, tampouco saboreio uma mosca, mas quem disse que consigo escapar disso? Vai dizer que isso não é um ato heróico de todo dia? Só tendo superpoderes para suportar engolir certas coisas a seco…

Todo mundo é muito herói. Cada um com suas batalhas diárias, internas ou externas. A jornada de ninguém é diferente, o desfecho é que muda…

E o que a gente sempre torce é para que o herói vença no final.

Roberta Simoni

Momento lírico do dia

Meu professor do Roteiro (que vai brigar comigo quando ler isso…) ensinou pra gente no primeiro dia de aula que uma trama pode ser contada através de três gêneros narrativos diferentes: lírico, épico e dramático.

Claro que não vou ficar aqui falando sobre narrativas, até porque eu ainda sou aprendiz nessa arte, além do mais, ninguém me perguntou nada. Só entrei no assunto para compor a introdução de um pequeno relato cotidiano…

Então, para que entendam o que vou relatar a seguir, é importante que saibam que essa história se passa num momento lírico.

Momentos líricos dentro de um filme, por exemplo, são aqueles que mostram o sentimento interior do personagem. A história deixa de ser contada pelo prisma dos acontecimentos do mundo externo para mostrar o que o personagem está sentindo interiormente.

Para entenderem melhor, aí vai um exemplo que my teacher deu, usando a cena do filme Beleza Americana:

Pois bem, o meu “momento lírico” do dia foi assim:

Eu andava distraída no aeroporto Santos Dumont, nessa cidade maravilhosa chamada Rio de Janeiro quando, de repente, no meio daquela gente toda transitando de um lado pro outro, carregando malas, falando ao celular, fazendo barulho, tudo ficou mudo, as pessoas desapareceram dentro do meu campo de visão e uma luz surgiu do alto, e no chão um tapete vermelho…

Desfilando no tapete: ele. Ninguém mais, ninguém menos que Reynaldo Gianecchini. Em carne e osso. Muito osso e pouquíssima carne, por sinal. Mas, não importa… era o Gianecchini. A personificação da beleza a menos de dois metros de mim…

“A-i, m-e-u D-e-u-s d-o c-é-u!” – foi tudo o que eu me permiti falar bem baixinho. Depois continuei andando, na tentativa de manter a discrição, sem muito sucesso, pois senti que não só os meus olhos e a minha cabeça, como também todo o meu corpo se viravam num ângulo de 180C° para acompanhá-lo passando. (esse povo que não está acostumado a ver artista é fogo, tsc tsc tsc…).

E foi exatamente como naquelas cenas de filme onde aparece a garota mais linda, desejada e popular da escola, em câmera lenta, quase parando… sabem como?

Eu sei, gente! Ele é só mais um cara bonito. Certamente tem lá suas qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Mas o danado é bonito, e os desprovidos de beleza que me desculpem, mas ver gente bonita é sempre melhor do que ver gente feia. Além do mais, momentos líricos a gente não escolhe, eles simplesmente acontecem. E se eles são assim, digamos, fúteis, o que se há de fazer senão vivê-los?

Não obstante, minha vida é repleta de momentos líricos (dos mais levianos e bobos como esse, aos mais profundos e poéticos). Até porque é frequente eu viver situações onde me imagino expectadora de mim mesma, como se estivesse me assistindo num filme. E tudo isso porque não faço uso de drogas ilícitas… imaginem se eu fizesse, heim?

E você? Já teve seu momento lírico hoje?!?

Roberta Simoni