Pra ver a banda passar…

Eu, por Amaro Lima

E quando, no meio de um tempestuoso dia de sol, você se pega observando o mundo enquanto deveria estar se abrigando da chuva de problemas que resolveram cair sobre a sua cabeça, você entende que molhar-se pode ser melhor do que correr para comprar um guarda-chuva ou se proteger debaixo da marquise mais próxima.

Tenho tido dias tão insanos quanto eu. Correndo de um lado pro outro, trabalhando feito louca para, no fim do dia, poder riscar mais uma pendência no meu caderno. Às vezes eu consigo. Outras vezes eu como. Há vestígios de páscoa por toda a casa. Mas têm dias em que nem chocolate resolve. Em dias assim, há aqueles que me salvam das frustrações desse “mundo cruel”, mesmo sem saber que são salvadores. E foi enquanto eu esperava a heroína do dia chegar, na saída do metrô, que eu parei – pela primeira vez em dias – pra ver a banda passar.

A banda passou, cantando coisas de amor. Mas ninguém dançou. Ninguém ouviu a banda tocar, todo mundo estava falando ao celular. Mulheres andando apressadas, executivas montadas em seus saltos altos. Homens olhando pra baixo, sisudos de terno e gravata. Todos com ar de cansaço, carregando o peso da existência nas costas. Indo e vindo da rotina, ou do trabalho. Nenhum sorriso detectado. E eu ali, parada, observado a banda passar e, logo atrás, o bando surdo e apático.

E o que fazer com a incômoda verdade de que tantas vezes eu estou marchando com o bando sem ouvir a banca tocar nem vê-la passar?

Eu corro pra chuva e me molho, pra lembrar que não sou feita de matéria impermeável.

Roberta Simoni

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“Janela de Ônibus” (ou Vida de Nômade).

Talvez seja melhor mudar o nome deste blog para “Onde está a Beta? Procura-se viva ou morta.”. Eu sei, eu sei… tenho ficado tempo demais sem postar e, acreditem: isso dói mais em mim do que em qualquer pessoa.

Falta de inspiração? Não desta vez. Falta tempo então? Também não. Não que esteja sobrando, afinal, tempo é uma coisa que está cada vez mais escassa no mercado, virou artigo de luxo pra todo mundo, mas ainda dá para conciliar. O problema é a minha rotina, ou – mais provavelmente – a falta dela. Meus pés continuam entre as estradas e as nuvens. Serelepes, apressados, errantes, calejados, cansados, porém seguem com passos firmes.

ViajandoSer nômade devia funcionar muito bem na época que não existia internet. Hoje em dia é tarefa árdua… a gente até vive bem sem endereço fixo, sem conforto, sem destino certo, mas ficar sem internet? Aí já é demais…

Que tal trocar “Janela de Cima” por “Na estrada com Beta?”, ou “Janela de Ônibus”? Sugestões serão bem-vindas, caros – e raros – leitores… 😉

Por hora, meus pés nervosos estão tentando ganhar vida própria e voltar para a estrada. Preciso acompanhá-los, senão serei a última a saber onde vão parar. Mas antes, deixo um vídeo que foi produzido para a campanha da marca Olympus, que achei fantástico e vem ao encontro dos meus devaneios sobre a vida…

É interessante e ao mesmo tempo revelador (e até assustador) ver uma vida inteira passando tão depressa, especialmente quando é vista através de antigas fotografias.

Mas o que se há de fazer se é mesmo assim a vida? Breve, depressa e instantânea, como as atuais fotos digitais.

Roberta Simoni

Abstinência Virtual

Abstinência Virtual

Fiquei praticamente uma semana inteira sem acesso a internet, correndo para resolver os problemas da vida real, na estrada outra vez… agora que voltei a não ter endereço fixo, fica mais difícil ainda tentar enraizar meus pés em algum pedacinho de chão…

Minha avó telefona para a minha mãe diariamente, querendo saber notícias minhas. Ela bem que tenta me acompanhar, mas eu já disse à ela que não sou novela. Toda vez que pergunta por mim, minha mãe tem uma resposta diferente para dar a ela, a última provavelmente foi: “viajou não sei bem pra onde, nem com quem, nem quando volta… se é que volta”. Acho que ela gosta de tentar adivinhar a minha próxima jornada, ainda que, no fundo, torça para que o próximo destino seja para perto dela. Minha avó é incrível. Gente linda!

Mas minha natureza é livre, e eu sei que, às vezes, reclamo da falta de estabilidade desse meu esse estilo de vida, mas gosto… a verdade é que a maior parte do tempo eu gozo da vida cigana. Tanto que a rotina e eu – como muitos sabem – temos uma relação conflituosa. Ah… aquela cretina, que se impõe também na vida de seres nômades como eu… se eu correr, ela me pega, se eu ficar, ela me come.

E eu que já me peguei tantas vezes me “gabando” de não ter amarras com velhos costumes, me vi completamente desorientada longe da internet. Cheguei até a começar a escrever num pedaço de papel as coisas que eu queria passar pra cá e não podia, mas acabei deixando a inspiração espacar quando comecei a pensar no meu blog e em como ele se tornou insubstituível…

Ainda tem as pessoas com quem eu costumo falar todos os dias no MSN, no Gtalk ou e-mail. Que saudades eu senti… inclusive das horas reservadas do meu dia para visitar os sites que são leitura obrigatória pra mim. E, levando em consideração que a tevê é um utensílio absolutamente dispensável na minha vida, longe da internet consigo ficar ainda mais alienada.

Ou seja, bastou uma semana longe pra eu ficar completamente desatualizada. Foi então que percebi que cada vez fica mais difícil desvincular a vida real da virtual. Em pensar que há alguns anos vivia-se sem isso. Inclusive eu, que hoje sou devota fervorosa do “Santo Googlezinho”amém!!!

Costumes, ahhh… os costumes! Gosto deles também. E por gostar não abro mão. Pouco me importa que a rotina me pegue, ou me coma de vez em quanto, desde que seja com camisinha.

Abstinência virtual pra mim, sinceramente, não dá. Já basta a gente ter que se abster de tantas outras coisas na vida…

PS: Vou ali e já volto para dividir com vocês as dezenas de coisas que estão fervilhando aqui nessa cabecinha. Não demoro.

Rotina

olhosvendados

No começo você reclama de ter que acordar tão cedo, depois se acostuma tanto que, quando pode acordar tarde, não consegue. Se acostuma a fazer o mesmo caminho todos os dias, passa pelas mesmas ruas e vê as mesmas pessoas, um dia você resolve mudar a rota, e aí, se perde. Acostuma o seu organismo com o mesmo tipo de tempero e quando prova outros sabores, ele rejeita. Adapta seu corpo ao calor, e ele não resiste ao frio, e vice-versa.

Dorme todos os dias ao lado da mesma pessoa, e já não adora tanto o corpo dela, nem o cheiro. Faz sexo com ela há tantos anos que já nem lembra que um dia achou aquele o melhor sexo do mundo. Já não se encanta com o sorriso dela, nem com a boca. Não acha mais tão fantástico ter alguém para dividir a vida, porque a rotina já fez você esquecer de como se sentia triste sozinho.

… Ela traiu todos os homens com quem se relacionou, mas sempre se defendeu com inúmeras justificativas, até que… encontra aquele cara, aquele que tem tudo que ela sempre procurou nos outros, e se sente completa pela primeira vez. Mesmo assim não consegue deixar de sair com outros homens, e então, ela descobre que trai por rotina.

De repente, ele conhece aquela que parece ser a mulher de sua vida, mas já se adaptou a viver sozinho e não permite que ninguém mais entre em sua vida, tampouco que ocupe algum espaço nela. A rotina de uma vida solitária o fez perder uma companheira em potencial.

Durante toda a vida só passaram homens pela vida dela que a fizeram sofrer, até que ela conhece um bom homem, que a faz sentir amada e valorizada, e então, ela decide terminar com ele. Nesse momento ela descobre que se acostumou a ser a vítima, e que não sabe viver o outro lado da relação.

Na maioria das vezes, nós crescemos rodeados da família, nos acostumamos a ter um pai, uma mãe, irmãos, avós e parentes em geral. Mas enfrentamos tantos problemas e conflitos da rotina do dia-a-dia com eles que, frequentemente, precisamos ser lembrados do quão são preciosas aquelas pessoas.

A rotina usa venda nos olhos, ela não precisa enxergar, faz tudo mecânica e automaticamente. É metódica, antiquada e controladora. Nada que aconteça fora do planejado a agrada. Ela gosta da repetição e da mesmice. Tudo sempre do mesmo jeito, da mesma forma, na mesma hora, no mesmo lugar, com o mesmo sabor.

Por mais que a rotina seja chata, é difícil se livrar dela. Às vezes, ela pode ser até necessária, mas quase sempre é inoportuna. Ela se impõe, gosta de ludibriar e consegue como ninguém ocultar a beleza das coisas.

Por isso, muito cuidado: a rotina consegue vendar seus olhos sem que você perceba. Quando você se dá conta, já está parcial ou completamente cego.

Roberta Simoni