Quando o sol se despede…

“Não dou muita bola pra essa coisa de natureza, prefiro rua, casas, gente andando nas calçadas para lá e para cá, carros trafegando no asfalto, mas tem duas coisas que eu gosto: árvore e pôr do sol. Nascer do sol também. Mas o problema do nascer do sol é que ele só é interessante durante poucos momentos. Minha mãe gostava de ópera, um dos seus cantores favoritos era o Enrico Caruso e ela gostava particularmente da matinata L’Aurora di Bianco Vestita, de Leoncavallo. Nesta música está dito o problema da aurora. Ela só é agradável de contemplar quando o sol, uma rutilante esfera vermelha, vai surgindo no horizonte, isso dura poucos minutos, logo em seguida a bola vermelha se torna uma brutal fonte de luz branca, apoteótica, impossível de contemplar. É isso: quando a aurora se apresenta de bianco vestita ela fica muito bonita na música de Leoncavallo e na voz de Caruso, mas na vida real fica insuportável. Ao contrário, o pôr do sol vai ganhando beleza continuamente, como aquela beleza que eu estava contemplando, o pôr do sol que nunca agride, a menos que considere uma forma de agressão a melancolia que invade você na hora em que o crepúsculo se instala no mundo antecedendo a noite.”

(O Seminarista – Rubem Fonseca)

Eis que eu caio nas graças do Rubem outra vez… apaixonada. Lendo com voracidade as deliciosas histórias sujas que só ele sabe contar. Dessa vez, um matador profissional que gosta de poesia. Um personagem que não tem escrúpulo, mas sabe admirar o crepúsculo.

Este trecho do livro me fez questionar: quantas vezes eu vi o sol nascendo? Tão poucas que dá para contar nos dedos, todas, porém, em casos excepcionais ou especiais. A verdade é que quando o sol está nascendo, eu estou longe de sentir vontade de estar acordada e se não for por uma viagem, durante um vôo, numa estrada ou por uma noite virada, eu sempre chego depois que o espetáculo termina. Mas o pôr do sol não… esse, se for necessário, eu compro ingresso para assistir de camarote.

O melhor a gente sempre deixa pro final, e talvez o sol saiba disso e faça igual, porque é quando está se despedindo que ele reserva o seu melhor espetáculo. E ainda que seja incrível ao nascer, ele consegue ser ainda mais perfeito quando morre. E contrapondo o que eu disse aqui dias desses, nem toda morte precisa ser, necessariamente, feia ou triste. 

Eu sou noturna, sempre fui, ainda que eu ache as luzes, cores e sabores do dia fantásticos e que eu saiba que algumas atividades são exclusivamente diurnas, os meus dias normalmente são ocupados pela rotina do trabalho, repletos de obrigações que me restringem ao contato com paredes frias e a me contentar – descontente – a ver as cores do dia da janela de algum prédio comercial.

É quando o sol dorme que eu acordo, e o pôr do sol é uma bela maneira de celebrar o começo do meu “dia”. O crepúsculo talvez seja o presságio de uma boa noite. E já que belezas que cegam e agridem não me interessam, eu fico com melancolia de mais uma despedida, que são menos breves.

(sim… sou eu na foto lá em cima, sozinha na platéia do meu show favorito!)

Roberta Simoni

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