Controlar o incontrolável?

Eu queria ter o controle sobre muitas coisas nessa vida. Já até tive sobre algumas, sobre outras, no entanto, tive quase ou absolutamente nada.

Já controlei raiva, ciúmes, inveja, medo, e até o amor.

Tento constantemente controlar o desejo de comer chocolate. Tento, tento, tento…

Já controlei a vontade de bater, de beijar, de falar, de gritar, de calar, de telefonar, de atender, de ir, de vir. E já perdi o controle também. Às vezes foi bom controlar. Outras vezes foi melhor ainda nem tentar.

Já controlei o meu riso e o meu choro da mesma forma que já controlei o meu gozo e a minha tristeza: por poucos segundos. E senti um alívio profundo ao perder absolutamente o controle.

Não controlei a paixão porque não quis. Ou porque eu gostava de pensar que eu podia controlar. Não podia.

Controlei o amor porque eu quis poupar. Ou porque eu pensava que era amor. Não era.

Tentei controlar o raciocínio lógico e a inteligência emocional. Os impulsos e as expectativas também. Tentei.

Controlei frio com cobertor, calor com mergulho, sede com água, fome com comida e dor com analgésico.

Mas aí eu senti saudades suas…

Roberta Simoni

Porque sempre haverá o caminho de volta para casa…

“Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Sonhos dourados enchem seus olhos,
Sorrisos lhe acordam quando você se levanta,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.”

(Tradução de Golden Slumbers –Sonhos Dourados” The Beatles)

Minha memória fotográfica é boa, mas não ajuda muito se eu não consigo lembrar o caminho. Sei como é, mas não sei onde é. Dizem que a minha desorientação geográfica serviria para estudos científicos. Não duvido.

Se você me ensina a ir até a sua casa uma vez e eu chego lá, não se iluda, da próxima vez que eu for, você vai precisar me ensinar o caminho todo de novo, e da terceira vez, da quarta… por isso, eu sei que muita gente se esforça para não perder a paciência comigo, e a minha bússola defeituosa agradece.

Mas tem um caminho que eu nunca erro, que eu sempre dou jeito de chegar, seja lá como for, eu chego: é o caminho de volta pra casa. Não o da minha casa, onde a minha bagunça divide espaço com a minha vida zoneada, mas a casa dos meus pais, “de mamãe e papai”, lá na nossa terrinha, de onde eles não têm a menor intenção de sair, nem eu de voltar. Mas eu sempre volto…

… E todas as vezes que eu entro na minha rua, meu coração dá uma festa! É lá… lá que está tudo de melhor que eu tenho na vida, é lá que eu encontro todo o amor e apoio que qualquer um precisa, e o meu coração – que não é bobo nem nada – já se tocou disso. E não importa se eu ficar um dia, ou um mês por lá, sempre vou embora ouvindo dele a mesma reclamação: “mas já?!”

Respondo que “já”, porque eu preciso trabalhar, ganhar dinheiro, dar continuidade aos meus planos quase sempre falíveis, porque eu não posso desistir de realizar os meus “sonhos dourados” que a minha terra se nega a realizar, e mais uma série de “porquês”. O coração se aquieta, mas não se conforma. Jamais.

Eu já estive do outro lado do mundo sem que o meu coração estivesse inteiramente ali, comigo. E eu sei que era que ele estava. E sempre estará. Uma parte, uma parte enoooorme, de mim sempre estará “lá em casa”, talvez por isso eu sempre acerte o caminho.

Às vezes bate uma vontade forte de voltar pra ficar, de acomodar a minha mala no fundo do armário do quarto vazio que ainda guarda o meu cheiro e que nunca se tranca com seus bichinhos de pelúcia sorridentes, registrando que uma criança foi muitíssimo feliz ali, e com seus lençóis limpos e coloridos, que me aquecem todas as vezes que faz muito frio aqui fora.

É que tem ficado muito apertado morar na minha mala, mas, eu sei… ainda não é hora de voltar. Mesmo assim é ótimo saber que lá, naquele lugar, existe um quarto com o meu cheiro, uma sala com fotos minhas nos porta-retratos, um cachorro que me derruba de alegria ao me ver, e sempre espera paciente no portão pelo meu retorno, uma irmã com saudades minhas, uma avó que reza um terço para mim todas as noites antes de dormir, e quarto braços sempre abertos, esticados na minha direção: dois da minha mãe e dois do meu pai.

Porque, felizmente, sempre haverá o caminho de volta para aquele lugar que eu chamo de lar.

Roberta Simoni

A visita de um beija-flor

beija flor

Era como se a inspiração tivesse passando por perto da minha casa e , como quem não quer nada, resolvesse passar para dar um “oi”, tomar um cafezinho e colocar as novidades em dia.

A inspiração, astuta, pensou: “talvez, se eu aparecer assim, ela não me note ou, se notar, provavelmente não me dê muita importância, como quase sempre, aliás”. Imaginou um jeito de se materializar de forma que não precisasse bater à porta para entrar, que não fosse preciso dizer nada, nem escutar também. Queria apenas passar espalhando graça e encanto.

Foi assim que, de repente, um beija-flor entrou pela porta da minha casa e começou a sobrevoar sobre a minha cabeça. Veio junto com os primeiros raios de sol da manhã, surgiu junto com a luz que começava a entrar pelas frestas das janelas.

Ficou aqui durante alguns minutos, batendo suas asas ferozmente de um canto para outro da sala, fiquei hipnotizada, tentando acompanhar seus movimentos. Foi só quando ele pousou numa das hélices do ventilador de teto que consegui enxergar sua beleza.

Nunca havia visto tão de perto a graciosidade de um beija-flor e fiquei em total estado de graça. Lembrei daquela música que diz mais ou menos assim: “Não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa, lhe der um beijo e partir, fui eu que mandei o beijo…”. Fiquei esperando pelo beijo e imaginando quem poderia tê-lo mandado…

Depois finalmente me pus a raciocinar e deduzi que ele não tinha a intenção de estar aqui, tampouco de me beijar, afinal ele só beija flores. Devia estar desorientado e assustado, procurando a saída… então escancarei a porta por onde ele entrou e abri todas as janelas para ele poder sair, mas ele não foi. Fiz movimentos para indicar as saídas, mas ele não foi. Conversei com ele, expliquei que podia ir. Mas ele não foi.

Pousou numa estante mais baixa e deixou que eu me aproximasse. De perto ele era ainda mais lindo. Senti vontade de ser sua amiga, ou amante, de convidá-lo para morar comigo, ou para passar uns tempos, quem sabe… conversei carinhosamente com ele, disse que era bem-vindo, mas não demorou muito para eu me tocar que se tratava de um pássaro.

E pássaros são livres. Livres como eu gostaria de ser. E voam como eu gostaria de voar. Então, pensei se talvez eu não podia ir embora com ele. Mas minhas asas só me permitem voar aqui dentro de mim. E ele, bom… ele tem o céu, as nuvens, as árvores, o vento, ele mora mais perto do sol e da luz. Ele tem o mundo.

Depois de muito tempo voando aqui dentro de casa, ele cansou. Devia saber que já havia conseguido voar dentro de mim. Deixou, então, que eu o pegasse, levasse para fora e o colocasse no galho de uma planta, até que recuperasse o fôlego e pudesse voar rumo ao infinito. E assim ele fez. Nos despedimos com saudades, mas sem beijos.

Pode ter sido só um beija-flor desavisado que entrou aqui por acaso, mas pode ter sido a saudade de alguém, ou a inspiração que veio me visitar, decidida a ser notada e sentida. E foi.

Roberta Simoni

Aquilo que se eterniza

Fotos

Antigas fotografias que nunca ficam antigas. Sorrisos de olhos fechadinhos de tanta alegria. Saudade do abraço apertado que a fotografia registrou, do cheiro e da sensação que a memória gravou. Saudade da calça tamanho 36 que agora só fica bem na foto antiga. Do cabelo curto de menina. Dos amigos que passaram e dos que ficaram. Da paixão que um verão trouxe e do amor que um inverno levou.

Saudade da infância de pés descalços, sem camisa, do cabelo “joãozinho”, das brincadeiras na rua, das primeiras descobertas, das sensações nunca esquecidas. Saudade até da parte da infância que não lembro ter vivido. Saudade da bisavó que eu desejei ter conhecido além do que vi numa fotografia em preto e branco.

Saudade das fotos que não tirei, dos momentos que não registrei através de imagens congeladas na geladeira do tempo, mas que o cérebro fez questão de arquivar… Dá uma saudade, sabe? Saudade dos lugares que ainda não conheci, dos amigos que ainda não fiz, do beijo que não foi roubado, da primavera que ainda não chegou.

Mais saudade ainda do que existiu e foi tão bom que se eternizou. Das fases, das descobertas, das “Robertas” que fui, da criança, da menina, da mulher. Daquela pessoa estranha, da pessoa que ainda reconheço, da minha versão que ficou esquecida. Das tantas caras que tive, das caretas que fiz, dos sorrisos que dei, dos estilos que tive, das bandas que fui fã, das músicas que ouvi, dos sonhos que realizei e dos que ficaram esquecidos no fundo de alguma gaveta.

Hoje eu perdi a conta da quantidade de horas que passei vendo e revendo fotografias, das mais novas até as mais “jurássicas”. Ri sozinha, gargalhei, chorei, me espantei, me encantei, me espelhei… ouvi sonoras gargalhadas na foto tirada numa roda de amigos. Senti a brisa do mar, escutei o barulho das ondas, senti meus pés tocando a areia molhada. Assisti o sol nascendo. Senti o sol me aquecendo antes de se pôr no horizonte da fotografia. Ouvi o estalo do beijo na bochecha, o barulhinho gostoso dos copos se chocando na hora do brinde. Os abraços que duraram só alguns segudos, mas que eu ainda posso sentir…

Roberta Simoni

A essencial essência

Livros

Hoje, sem querer, acabei descobrindo um sebo no meu bairro. Eu tinha algo em torno de vinte centavos no bolso, mas não resisti e entrei na loja. Sabia que não podia comprar nada com aquela quantia, mas sebos me atraem como se tivéssemos um imã.

Como todo sebo que se preze, este era perfeitamente desorganizado e tinha cheiro de coisa antiga. O perfume mofado daquele ambiente me despertou – além de alguns espirros alérgicos – doces e antigas recordações, que de tão antigas estavam se tornando desconhecidas. Retornei às “dezenas” de casas que morei com minha família durante a minha infância, lembrei do meu pai em suas madrugadas insones, acompanhado de cigarros e livros, e da minha mãe quase me implorando para que eu fosse dormir enquanto eu lia revistinhas em quadrinhos madrugada adentro. E isso me fez lembrar que a insônia e eu somos companheiras de longas datas…

Lembrei que a minha mãe sempre me seduzia com alguns cruzeiros que eu gastava na banca mais próxima à loja onde ela trabalhava, comprando gibis que me entretinham a tarde inteira.  Lembrei que eu levei anos até deixar que ela doasse aquelas revistas empilhadas numa cesta que ocupou um espaço no canto do meu quarto durante tanto tempo. Lembrei das prateleiras abarrotadas de livros da casa dos meus pais, que só fizeram crescer ao longo desses anos, e me dei conta de que estou criando o mesmo hábito.

O cheiro de passado entranhado em cada livro daquele sebo era mais do que familiar, era aroma palpável que dizia muito sobre mim. Era parte essencial das lembranças que estavam esquecidas em alguma prateleira antiga.

Folheei revistas e livros antigos e mexi nos discos de vinil da mesma forma que saboreio um pedaço de chocolate. Era a nostalgia que estava me atraindo e me seduzindo, era o passado pedindo para não ser esquecido, era a saudade carente de uma infância feliz e era também uma parte da minha essência querendo ser lembrada através de objetos, cheiros e lembranças.

Talvez não sejam só os livros do sebo que me atraiam, mas o passado que eu revivo quando entro lá, que sempre me seduz para que eu não ouse esquecer do que é importante ser lembrado.

Preciso urgentemente que alguém impeça a digitalização dos livros, por favor! Não duvido de sua praticidade e eficácia, mas livros eletrônicos não têm cheiro de poesia, não têm rabiscos nas páginas, e nem páginas de papel têm. Menos ainda têm o charme, o porte e a elegância de um senhor livro. Eu não me importo de usar objetos ultrapassados, afinal, também estou ficando ultrapassada, e não venha me dizer que perdi todo o meu charme por conta disso… 😉

E você, no que é ultrapassado? Quais são os cheiros que te trazem lembranças? E sua essência? Também anda esquecida em algum canto cheio de mofo por aí?

Roberta Simoni

O Descobridor de uma paixão…

Todo mundo sempre diz: “Notícia ruim chega depressa”. Chega mesmo, e digo mais: independente da hora que chega, chega doendo. 

Dias atrás fui avisada sobre a morte de um professor dos tempos da faculdade de Jornalismo, e fui avisada por meia dúzia de pessoas ao mesmo tempo. E lamentei seis e mais algumas centenas de vezes, porque não se tratava apenas de um educador, mas de um mestre que, pra mim, algum dia foi simplesmente um professor, que me causava até um certo asco quando falava, porque falava muito e acumulava uma quantidade significativa de saliva no canto da boca. Afe!

Mas, de professor, ele passou a ser o meu “príncipe”, como já era de muitos. Um pouco caquético, talvez muito fora de forma, e com cabelos brancos demais para um príncipe, mas era de uma aura tão encantadora, que fazia a gente acreditar que ele era mesmo encantado.

Beta RadialistaEu estava numa daquelas semanas cansativas de trabalho dobrado, e só não faltava a faculdade quando ia arrastada pela minha consciência. Era dia de aula de rádio e, eu não sabia, mas era dia de apresentação de trabalhos também, o que eu sabia menos ainda é que era o dia da apresentação do meu grupo. Que grupo? Ninguém foi à aula naquele dia. Será por que todo mundo – a não ser eu – tinha conhecimento do trabalho que, por sinal, não havia sido feito?

Já era tarde demais, só eu estava lá, e precisava representar o meu grupo. Pedi, implorei, choraminguei, aleguei que eu não tinha condições de apresentar sozinha,  mas ele não se comoveu. Mandou eu preparar outro trabalho durante a aula, mas permitiu que eu fosse a última a fazer a apresentação. Só eu sei como eu me arrependi por ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei…

Lembrei de uma crônica que eu havia escrito naquela mesma semana e publicado no meu antigo blog. Ele concordou que eu aproveitasse aquele texto, mas lembrou que uma das exigências da tarefa era criar um debate acerca do tema abordado. Ufa! Eu não tinha com quem debater, estava no grupo do “eu sozinho”, acreditei que ele finalmente fosse me liberar. Doce ilusão! Ele arrumou voluntários para o debate… vários. E lá estava eu, no estúdio de gravação, com uma folha de papel impresso às presas, com algumas alterações feitas à mão e com a mesa cheia de colegas prontos para colaborar com o meu trabalho, sem receber nenhum décimo a mais por isso em suas avaliações. O Professor Dylmo tinha o dom de conseguir o que quisesse com os seus alunos, tinha vários seguidores, e eu não conseguia entender como aquilo acontecia. Só mais tarde eu compreendi que o que ele formava, na verdade, não eram alunos, mas, verdadeiras equipes.

Beta e Victor na RádioEu nunca fui muito boa em apresentações, sejam elas quais fossem, e eu sempre achei a minha voz horripilante ao microfone, quero dizer, pior do que já é naturalmente. Mas, não tinha para onde correr. Comecei a falar, tremi, gaguejei e pedi para começar de novo. Na segunda tentativa,  magicamente, li aquele texto como se estivesse conversando. O fato de ter sido escrito por mim, me possibilitou criar uma intimidade maior com as palavras, as pontuações e a sonoridade na hora da narração. Consegui relaxar e quando desviei meus olhos  – que estavam fixados no  papel – e dei uma olhada ao redor, observei a cara de admiração de todo mundo, ouvi muitas risadas (a crônica tinha uma tendência um tanto cômica, confesso), e por fim, parei nos olhos do professor Dylmo. Poucas vezes na vida vi um olhar tão brilhante voltado para mim. Entendi na mesma hora de onde vinha aquela luz que eu sentia me iluminando a medida que eu me entrosava com as palavras, com o microfone, com aquele ambiente…

Durante o debate, o clima estava tão descontraído quanto à de uma roda de amigos num boteco. Naquele momento eu havia descoberto a minha paixão por Radiojornalismo. Na verdade, quem descobriu foi o Dylmo Elias, aquele homem de 80 anos, das aulas de rádio na faculdade, da Rádio MEC, das peças de teatro que escrevia e dirigia nos palcos da vida. Foi ele… ele quem descobriu a paixão pela rádio em mim. E no fim da aula, comentou sobre a grata surpresa que teve durante a minha apresentação descontraída, e falou com tanta paixão sobre a magia que existe na profissão de radialista que se eu ainda não tivesse sido mordida pelo bichinho da rádio, eu teria me apaixonado instantaneamente.

Poucos dias depois, eu recebia a ligação da radialista Eliete, da extinta Rádio Haroldo de Andrade, que através da indicação do Dylmo, me convidava para participar do seu programa. E lá estava eu, de gaga à debadetora do programa “Papo Cabeça”, onde era possível ouvir as minhas gafes ao vivo, especialmente quando o assunto era o Presidente Lula, de quem eu reclamava a torto e a direito. Isso até eu ser chamada a atenção durante o intervalo, é claro.

Agora, lembrando com carinho das minhas apresentações na rádio, só eu sei o quanto foi importante ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei… e a falta que o Dylmo já está fazendo, muita gente sabe, muita gente…

PS: As fotos foram tiradas pelo fotógrafo André Muzzel, durante uma das nossas apresentações na Rádio Haroldo de Andrade, onde acabei me tornando estagiária, ao lado do amigo Victor Grinbaum (ao meu lado na foto) e uma equipe fantástica, que comandava a programa Agitando a Galera, que ia ao ar todo domingo.