Das sementes…

Eu acordei e fui correndo olhar o pote de danoninho, mas o feijão ainda era só uma semente de feijão e o algodão era só um algodão umidecido, com feijão dentro. Nada demais. Foi tudo mentira da tia da escola, nunca nasceria um pé de feijão dali, eu já devia saber. E paciência para esperar as coisas acontecerem – e isso eu também já devia saber – nunca seria o meu forte.

Quando eu já estava quase convencida de ter sido enganada, brotou a primeira folha do meu pé de feijão. Eu era encantamento puro, vibrava a cada folhinha nova que nascia e me surpreendia a cada dia com o tamanho que a planta alcançava ligeiramente.

Flores me causavam o mesmo encanto. Já cheguei a ficar horas seguidas olhando para uma roseira na tentativa de testemunhar um botão desabrochando, e como nunca consegui, criei a teoria de que as flores só se abrem quando não há ninguém olhando, funcionava como um ritual sagrado na minha cabeça, eu mal sabia que o desabrochar de uma flor era um ato tão lento que minha impaciência e ansiedade jamais me permitiriam partilhar do rito. Ou, pelo menos, não permitiram até hoje.

Mas, ao contrário do botão que eu nunca vi virar rosa, houveram outras coisas que demoraram bem mais tempo para desabrocharem e, mesmo assim, eu vi acontecer. Uma delas fui eu. Nessa minha eterna busca por aprendizado, conhecimento e auto-conhecimento, eu me vi outra. Tão nova e, simultaneamente, mais madura. Toda ambígua, “as usual”.

Eu levei algum tempo para conseguir visitar o meu avô paterno que foi diagnosticado com o Mal de Alzheimer, mas, enfim, fui. Nesse dia vivi duas experiências conflitantes. A primeira – a qual me preparei para viver – de não ser reconhecida por alguém que tanto amo e que ainda consigo ouvir me chamando de “caçula do vovô” (mesmo não sendo mais a caçula há tantos anos…), a sensação de olhar nos olhos dele, procurar qualquer sinal de ternura e não encontrar nada foi desconsertante, mas como disse, eu já havia me preparado para isso. A segunda experiência foi a que me surpreendeu. Quando entrei na casa do meu avô, logo na varanda, me senti GIGANTE. Explico…

Todas as lembranças marcantes que tenho da casa dos meus avós paternos são de quando eu era criança. Das reuniões de dia dos pais, das brincadeiras com meus primos, das árvores enormes do quintal, da mureta da varanda, que quando eu subia para sentar, meus pés não conseguiam alcançar o chão,  do congelador repleto de sacolés, que exigia que eu ficasse na ponta dos pés para abrí-lo, da enorme mesa de jantar… e, de repente, a mesa me parece minúscula, o congelador, hoje vazio, não exige mais nenhum esforço para ser aberto e a mureta permite que eu sente nela e, ao mesmo tempo, mantenha meus pés no chão. Incrível.

É mágico se enxergar grande,  é uma magia parecida com aquela que senti ao ver meu pé de feijão crescer quando pequena. Parece que finalmente me livrei da “Síndorme de Peter Pan”. E é estranhamente confortável aceitar o amadurecimento em tudo. Em você, nas coisas e nas criaturas que te cercam, numa vida que começa a se deteriorar e numa outra que acaba de começar. Minha irmã teve seu primeiro filho há poucos dias, meus pais, o primeiro neto, eu, o primeiro sobrinho e afilhado e, com o nascimento dessa criatura linda, a consciência plena de que as coisas mudam, se renovam, amadurecem, crescem, desabrocham todos os dias, de um jeito diferente.

Meu pé de feijão não virou uma árvore gigantesca de um dia pro outro como na fábula do João e o Pé de Feijão, mas cresceu a ponto de não caber mais no pote de danoninho, deu dois ou três grãos de feijão, depois secou e morreu.

As flores ainda me perturbam ao murchar, sinto um misto de lamúria com inconformismo, exatamente como – imaturamente – ainda encaro a morte, mesmo tendo a consciência plena de que os ciclos podem ser longos ou curtos, mas acabam sempre da mesma forma, seja de maneira metafórica ou física.

Pelo menos eu não parei de plantar feijões. A diferença é que agora eu não mexo mais no potinho de danoninho toda hora pra ver se vingou, eu só rego, rego e rego. E toda vez que me deparo com ele, me encanto do mesmo jeito, embora eu me abdique involuntariamente da sensibilidade da percepção algumas vezes. Mas essa é outra que segue amadurecendo, ao lado do meu pé de feijão encantado…

Qualquer dia desses eu subo nele e descubro o que mais há lá em cima.

Roberta Simoni

Meu Jardim

Eu tinha um jardim… na verdade, eu ainda tenho. Só que metade das plantas morreram nessa minha temporada de viagens. Juro que eu pensava nelas todos os dias, torcendo que chovesse e que o sol não as castigasse tanto.

Entrei em casa largando as malas pelo caminho e correndo para vê-las, pobres “meninas”… muitas morreram, foram poucas as que resistiram. Retirei todo o mato que cresceu, e todas as folhas e flores que morreram, reguei as que sobreviveram e me desculpei sinceramente por tê-las abandonado.

Meu pequeno jardim ficou pronto para receber novas flores. Mas ainda estou pensando sobre o assunto… não acho justo plantar novas plantas e depois viajar de novo, ou ir embora, deixando-as morrerem. Especialmente se tratando de alguém como eu, que tem um vida tão nômade.

Hoje eu fui acordada pelo canto dos pássaros. Eles voltaram agora que limpei o meu jardinzinho, felizmente! Enquanto estou no computador, ouço a cantoria deles. E perco horas observando-os na minha pequena varanda verde.

Eles enchem a minha casa de alegria, melodia, e vida. E nessas horas eu percebo o quanto é vital, para mim, estar em contato com a natureza, especialmente com a vida animal. Mais uma vez, faço das palavras da Lispector as minhas: “Ter contato com a vida animal é indispensável à minha saúde psíquica.”.

Metade das plantas fui eu quem plantei, a outra metade foram trazidas por eles: os pássaros. Quando comecei a cuidar da terra, novas espécies foram surgindo, e eu não conseguia descobrir a origem delas. Até que, um dia, observei um passarinho colocando uma sementinha na terra, e dessa sementinha nasceu uma planta com flores brancas lindíssimas, que, por sinal, é a mais linda do meu jardim.

Impossível não fazer uma analogia entre o jardim e a minha vida. Impossível pensar nisso e não me emocionar, ainda por cima ouvindo o Vander Lee cantando Meu Jardim, que é a definição perfeita de tudo isso. Não há como negar: a minha vida está exatamente como eu descrevi o meu jardim. Ainda que eu só esteja percebendo a semelhança entre os dois agora, enquanto escrevo, absolutamente sem a intenção de criar uma metáfora.

E agora que cuidei do jardim da minha casa, acho que chegou a hora de regar as minhas próprias flores. De podar minhas folhas secas, de arrancar pela raiz as plantas mortas, que nunca mais darão flores. De molhar a terra ressecada e atrair os passarinhos de volta para a minha vida.

É hora de me desculpar comigo mesma por ter me abandonado, por não ter cuidado bem de mim. Por ter deixado as folhas secarem, as flores murcharem até morrerem, o mato tomar conta de tudo e por ter afastado os pássaros e as borboletas.

É hora de beber as minhas culpas e regar a terra com as minhas lágrimas e com o suor que eu tenho poupado. De preparar o meu terreno para as sementes novas. É hora de refazer o meu caminho. De dar um passo para trás, para depois dar dois para frente. De fortalecer as minhas raízes, a minha luta, a minha vida. É hora de cuidar do meu jardim, e me preparar para a próxima temporada de flores!

Roberta Simoni