Sentimento: retire aqui o seu!

“- Ei, tô com saudade!

– Tá nada!

– Tô ué. Por que? Não posso?

– Poder, pode… mas eu não acredito!

– Tudo bem, retiro o que eu disse. Quer que eu retire a saudade também?”

Tão bom se sentimento fosse coisa que a gente retira, né? Tipo fita adesiva, tampa de panela, casca de ovo cozido, maquiagem em fim de festa, lacre de proteção.

Sentimento nem sequer é transferível. Se é, tem alguma coisa errada. Não dá para pegar um afeto, uma admiração, uma saudade, tirar de uma pessoa e passar pra outra. Eu tô falando de sentimento, não de transfusão sanguínea ou de transferência bancária.

Dá sim para sentir isso tudo aí por um bocado de gente, inclusive simultaneamente, e dá até pra passar de um pro outro feito virose, que contamina, contagia. Mas aí é transmissível, não transferível. São só palavras foneticamente parecidas, nada mais.

Sentimento é igual a senha: individual e intransferível. Normalmente você não revela a ninguém, nem mesmo a parentes, amigos ou pessoas de confiança. Basta que você saiba para que exista.

Dá até pra mudar de lugar. Tipo cadeira, cama, geladeira, sofá. Costuma ficar bem num determinado cômodo, lá naquele canto… e pode passar a vida inteira ali, como pode também mudar e pode ser até que fique melhor lá. Tesão pode virar paixão, que pode virar amor, que pode virar admiração, que pode virar amizade, que pode não virar nada. O inverso também funciona. Mas tudo tende a terminar em saudade. Açúcar. Nuvem.

É que, às vezes, a casa fica apertada demais, daí a gente vai lá e retira o sofá, joga fora ou dá pra alguém que esteja precisando. Compra uma geladeira nova e coloca no lugar da antiga. Até acontece. Mas demora. Desapego requer prática. Ou necessidade.

Sentimentos mudam, se transformam, passam, vão embora pra sempre, ou ficam pro jantar, pro café da manhã, pro resto da vida. Mas aí depende deles. É quando, como e se eles quiserem. Sentimento a gente não escolhe. Sentimento escolhe a gente.

Eu não sou livre, meus sentimentos é que são. Mas quando eu crescer, serei igual a eles!

–  … E se você quiser, eu digo que retiro essa saudade, mas isso vai ser tão útil e eficaz quanto retirar o que eu disse. 😉

Roberta Simoni

Por favor, consumam-me com moderação!

Consumir

Eu sou uma exímia consumidora, quase sempre… algumas vezes – confesso – eu dou uma de “joão sem braço” e compro mais do que, de fato, preciso. Tipo aquela blusinha vermelha liiiinda de frio que eu estou precisando tanto e que está suuuuuuper baratinha naquela loja que eu adóóóóóro, que acaba indo para a sacola acompanhada daquela outra camisetinha azul que está uma graça e com um preço imperdível.

Mas esse é o meu limite de extravagância: precisar da blusa de frio vermelha e acabar levando a camisetinha azul para casa também. Mesmo assim, antes de comprar eu faço as contas e vejo se vai dar para pagar. Se der, eu me permito, se não, é só sentar e esperar a vontade passar.

Fora os chocolates – que consumo de maneira desregrada quase sempre – e esses pequenos deslizes esporádicos, sou uma consumidora exemplar. Por isso, gostaria de ser consumida da mesma maneira. Seja por pessoas, tarefas ou, principalmente, por sentimentos. Eu explico:

Sabe aquelas pessoas que te sugam com um canudo como se você fosse a última gota de coca-cola da latinha? Pois então, essas pessoas são capazes de fazer isso de maneiras adversas: algumas sugam a sua energia só pelo simples fato de existirem, outras por falarem demais, por cobrarem demais ou por fazerem de menos. Ainda existem aquelas que abusam da sua boa vontade e te sugam por todos os seus poros, te explorando o quanto podem. Essas são só algumas formas de ser consumido por alguém.

Tarefas que te consomem são aquelas que roubam todo o seu tempo contra a sua vontade e te irritam e estressam profundamente. Mas os sentimentos… ah, esses são mais do que meros consumidores de você, eles são consumistas.

Sentimento brando é carinho, ternura, fé, tranquilidade, serenidade, sobriedade, por exemplo. Esses são sentimentos (ou sensações) que não te tiram de órbita, ao contrário, te colocam no eixo. Mas aí, de repente, você é consumido por uma ansiedade, por um tédio, um ódio ou uma paixão que te sugam e te deixam imune.

E se sua imunidade fica baixa, você inevitavelmente acaba caindo doente. Doente de quê? Você pensa que é febre, virose, resfriado, mas, que nada… você está doente de ansiedade, de amor, de ódio, de tédio, de paixão ou até mesmo de saudade. Sinto lhe informar que a doença física foi apenas a última coisa que você desenvolveu.

Antonella PuglieseEu estou para a ansiedade como o chocolate está para mim. E acho que a ansiedade realmente me venera, adora e me  deseja com urgência, por isso me consome tanto.

A ansiedade faz comigo algo bem parecido que já fiz com o amor: bebi até a última gota, depois ainda virei o copo no alto, na direção da minha boca aberta, com a ponta da língua para fora, na esperança de cair aquela última gotinha que não mata a sede, mas me dá a sensação de não ter desperdiçado nada.

O problema é que, de certa forma, a gente escolhe o que quer consumir, mas não é sempre que dá para escolher o que – ou quem – consome a gente. Mesmo assim, eu insisto aos consumistas: consumam-me com moderação! 😉

Roberta Simoni

Créditos: Foto de  Antonella Pugliese – uma das minhas fotógrafas favoritas.

Pulando fora!

Caindo fora!

Que se danem as minhas inseguranças. Se são inseguras, que caiam, se machuquem, se quebrem e se partam ao meio. Que continuem confusas e atordoadas as minhas incertezas. Que se arrepiem inteiros e gritem de pavor os meus medos. Que arda, queime, corte e doa a dor que veio para ser sentida. Que se apertem, se empurrem e se atropelem de tanta ânsia essas ansiedades aflitas. Que se se ferrem, não estou nem aí. Estou pulando fora…

Se eu tento controlá-los, eles é que me controlam, é sempre assim. Então, eles que se virem sozinhos. Eu quero ver todo mundo se organizar por conta própria aí dentro, quero ver o circo pegar fogo… quero ver sobrar espaço pra todo mundo sem que eu tenha que colocar ordem nesse barraco, quero ver !!!

Aposto que a ansiedade vai ser a primeira a pular do barco, de todos, ela é a menos intolerante. A incerteza vai ficar no convés se decidindo se pula ou não pula. E o medo vai ficar falando pra ela: “você não vai ter coragem de fazer isso, vai?”. A dor vai perguntar ao medo: “Isso vai doer muito?” e o medo vai dizer: “Claro que vai. Essa água deve estar congelada e cheia de tubarões, além do mais, você não sabe nadar, e morrer afogado deve ser horrível”. A dor vai ficar entusiasmada e vai mergulhar de cabeça no mar, sem pensar duas vezes. A incerteza vai escutar a conversa do medo e da dor, e vai pensar: “se é tão incerto o que pode acontecer lá embaixo, então, lá é melhor do que aqui”, e finalmente decidirá pular. A insegurança só vai pular depois que vir os outros pulando. E o medo, que não queria pular de jeito nenhum, vai ficar apavorado quando perceber que ficou sozinho no barco, e vai pular também.

Você passa a vida inteira tentando controlar esse bando de sentimentos desocupados, que só servem para perturbar o juízo, quando não é um, é o outro e, às vezes, são todos ao mesmo tempo. Cada um a seu modo, tentando chamar mais atenção. E aí começa uma guerra de orgulho entre eles pra ver quem manda, quem é mais forte e mais poderoso, e você no meio, tentando separar a briga e acalmar os ânimos. Tenta fazer com que te ouçam e te obedeçam, mas é claro que todo mundo te ignora. E aí, você é quem passa a ser controlado por eles.

Mas, o que ninguém nos ensina e custamos a descobrir sozinhos é que os sentimentos podem até ser mais fortes e parecerem bem maiores, mas são totalmente dependentes de nós. Eles só crescem porque damos “casa, comida e roupa lavada”. E, em troca disso, eles nos controlam. Aí, se paramos de cuidar deles, eles não sabem como se virarem sozinhos.

Marmanjo vivendo na proa do meu barco sem pagar nada, e ainda querendo mandar no marujo e na tripulação toda, não dá, né? Francamente. Prefiro deixar o meu barco livre para as alegrias darem suas gargalhadas escandalosas sem que ninguém reclame, para os prazeres terem espaço para se esticarem e pegarem sol o dia inteiro e depois se atirarem no mar para se refrescarem, para o amor poder exclamar suas poesias sem que ninguém o chame de brega ou piegas, para a euforia poder preparar aqueles drinques deliciosos enquanto a paz toca Bossa Nova na sua velha viola. E quando decidirmos parar em alguma praia, a segurança vai poder escolher onde ancorar.

Roberta Simoni

Montanha Russa

Montanha Russa

Nesses últimos tempos em que estive ausente do blog – e quase morri de saudades, por sinal – eu meti os meus pés na estrada (do jeito que eles gostam de estar…) e estive em muitos lugares, com muitas pessoas. Pessoas que eu tinha que conhecer nesse percurso, pessoas que eu precisava rever, caminhos que eu precisava percorrer, experiências que eu tinha que viver, amigos que eu queria muito abraçar, minha família que eu queria ver de perto como estava, sorrisos que eu precisava distribuir, e outros tantos que eu esperava ganhar há alguns longos meses…

Mais do que colocar meus pés na estrada, eu embarquei numa montanha russa de emoções, apesar de morrer de medo desse brinquedo. Ainda viajei sentada na primeira fileira, sentindo um enorme frio na barriga e o vento batendo na cara, ficando de cabeça para baixo e completamente descabelada.

Vivi uma infinidade de coisas, todas ao mesmo tempo, e agora que a montanha russa estacionou, eu ainda estou cambaleando para me levantar da cadeira, e saio completamente tonta e desorientada.

Felizmente meu estômago tem se comportado feito um rapazinho e não está me deixando sentir náuseas. Ao menos meu corpo, apesar de cansado, está intacto, agora é só consertar a minha cabeça  – se é que isso é possível, no meu caso – e, quem sabe, finalmente aprender a ter senso de direção, porque eu estou pior do que cego em tiroteio que acabou de sair da montanha russa.

Só sei que todas essas sensações me trazem uma certeza: a de que eu estou bem viva, obrigada. E sentir a vida é um privilégio e tanto, a gente sabe disso.

Roberta Simoni

A palavra do momento…

Saudade

Se eu fosse uma palavra, hoje, eu seria a saudade. É a palavra da vez, a que eu mais tenho usado no meu vocabulário e a que mais tenho escutado também. Se alguém me visse distraída e perguntasse no que estou pensando, eu diria que estou apenas sentindo… sentindo saudade, e é ela quem está me levando para longe e me deixando com esse olhar distante…

Ela tem me feito viajar mais do que as minhas pernas, que – felizmente – têm me feito viajar bastante ultimamente. Mas a saudade está sempre muito à frente das minhas pernas, por mais agitadas e velozes que elas sejam.

A saudade que eu trago comigo é forte e potente, coloca a Ferrari do Schumacher no chinelo, e aposto que, muitas vezes, ela é mais veloz do que a luz. Além de tudo, é onipresente, afinal, eu sinto saudade de tanta coisa e de tanta gente constantemente que só sendo onipresente para dar conta de tudo.

Saudade da gargalhada de um amigo, do jeito de falar de outro, do carinho e doçura de alguns, da falta de noção e juízo de outros, do jeito engraçado, da espontaneidade, do jeito de ver e viver a vida…

Saudade do olhar carente e pidão do meu cachorro. Saudade de um lugar… não, na verdade, de vários. Saudade de cheiros, do cheiro da casa da minha mãe, do cheiro dela, e das covinhas que ela revela toda vez que sorri, e que eu morro de raiva por não ter herdado. Saudade de sons, sabores, cores. E, incrivelmente, não há nostalgia desta vez. Ela não tem me visitado nos últimos tempos, não fico relembrando momentos, nem fases, nem remexendo o passado, vendo fotos de algum lugar distante, nem abrindo as gavetas que têm o cheiro da minha história entranhado em cada peça de roupa minha.

Também não tenho aberto a minha caixinha mágica de recordações. Eu a considero mágica porque ela é, de certa forma, uma máquina do tempo que me leva diretamente ao passado, mas, somente ao passado de momentos felizes, emocionantes, únicos… mágicos! E, apesar de me acompanhar há tantos anos, e ser muito antiga, a minha caixinha é o que eu tenho de mais moderno, e supera qualquer invenção tecnológica.

A nostalgia é uma velha companheira minha, a maior parte do tempo convivemos harmoniosamente, mas nem sempre é assim. Confesso que ela me atrapalha, às vezes. A verdade é que ela é acomodada e espaçosa, chega, se instala, é bem tratada, e quer ficar, tomando todo o meu tempo, e me impedindo de viver o presente. Por isso, precisamos tirar férias uma da outra, de vez em quando. Igualzinho a qualquer relacionamento humano que se desgasta naturalmente.

Já a saudade nunca vai embora, apenas se distancia e se aquieta quando se satisfaz, mas com o apetite que tem, não demora muito e ela começa a se fazer presente de novo. Chega como quem não quer nada, porque sabe que chegou – como sempre – cedo demais. Faz o tipo que acha que pontualidade apenas não basta, e prefere estar sempre adiantada para garantir o melhor lugar aonde quer que vá.

Quando chega, vem de mansinho, mostra a cara, mas fica de longe, não me toca e nem fala nada, e quando eu me dou conta, ela já está me rodeando, me aborrecendo, reclamando o tempo inteiro, me perseguindo, e quando eu tento ignorá-la, ela piora ainda mais. Me catuca no ombro, põe as mãos na cintura, franze a testa, me olha aborrecida e fala – “Ei, eu tô aqui óh… você não vai fazer nada, não? Esqueceu que eu existo para poder morrer? E você sabe que morrer, para mim, é um prazer enorme, e eu fico uma fera quando isso não acontece. Exijo que você me proporcione esse prazer e tem que ser agora!”. Ainda por cima é mimada e arrogante.

Ela começa a me ferir quando eu não faço o que ela manda, não que eu não queira fazer, mas eu não posso, não consigo ser tão veloz como ela, especialmente quando estou vivendo a tantos quilômetros de distância de tantos dos meus amores. Mas ela não entende, nem tenta. Me castiga, começa as sessões de tortura, e faz o meu coração doer de uma forma que só ela consegue fazer.

Estou decidida a dar um basta nisso, e ela sabe que eu vou, por isso começa a ter um pouco de piedade de mim, mas só um pouco. Agora me perturba como eu perturbava meus pais toda vez que viajávamos, perguntando de cinco em cinco minutos – “Estamos chegando? Falta muito ainda?”

Como se não bastasse a saudade grudada em mim 24h por dia, me torturando, ela ainda convida a amiga ansiedade – outra torturadora profissional – para passar um tempo conosco. Agora sim o serviço ficou completo.

Mas falta pouco para tudo isso acabar, pelo menos, desta vez.

Roberta Simoni