Dane-se o transtorno, precisamos falar sobre separação

088ad6c8214e923014e38347f848f062

Já faz um ano que falei para o meu ex-marido que eu não queria mais estar casada com ele. A dor dessa decisão, que já vinha crescendo antes desse dia, se esticou por mais alguns, quando, de fato, consegui ter forças para sair de casa. Foi uma dor larga, longa e profunda e, apesar disso, é uma dor que eu recomendo para casos de infelicidades largas, longas e profundas, porque quando ela passa…  quando passa é substituída por uma paz tão boa e generosa, que faz a gente pisar mais leve no mundo, que antes pesava tanto nas nossas costas.

Hoje, quando acordei sozinha, lembrei que faz mais de um ano que acordo sozinha e não doeu. Já não dói há muito tempo. Lembrei de todas as manhãs que eu acordava sozinha porque ele estava dormindo na sala pela milésima vez por causa de alguma birra sem sentido. Eu olhava pra ele, dormindo todo espremido naquele sofá que eu detestava – e tinha deixado que ele escolhesse pra não gerar mais uma briga inútil – e pensava no desperdício. De tempo, de energia, de vida. E de lençóis de casal, que só eu usava pra tentar cobrir minhas angústias, que cresceram até ficarem descobertas, com os pés de fora.

O sofá ficou. Eu fui embora.

É claro que nós tivemos momentos felizes ao longo dos anos que passamos juntos. E nos agarrávamos a eles porque foram reais e tínhamos a esperança de que voltassem a ser. Alguns ficaram registrados em fotos, vídeos, textos. E era através desses registros que a maioria das pessoas nos enxergava, como se fôssemos tão permanentes quanto imagens congeladas numa fotografia. “Mas vocês pareciam tão felizes…” É claro que parecíamos, pois estávamos. Naquele momento. Mas momentos se dissolvem, e evaporam. Só quem tem o privilégio de revivê-los sempre que quiser é a memória.

Ninguém tira fotos durante uma discussão ou enquanto chora no banheiro sem saber o que fazer com os planos incríveis que se tornaram falíveis e com as mágoas que vão se entulhando por todos os cantos da casa enquanto o amor, o tesão e a admiração estão ficando empoeirados no quartinho dos fundos.

Uma das coisas mais dolorosas que se enfrenta ao romper uma relação amorosa é ter que romper com os sonhos sonhados juntos, com a rotina que foi construída e principalmente com a ideia do que poderia ter sido, mas não foi.

Eu descobri que muito mais difícil do que me desapegar da nossa vida, era conseguir me desapegar daquilo que ela poderia ter sido.

Eu não quero dizer com isso que descobrindo ficou mais fácil, tampouco estou dizendo que separação é um processo tranquilo. Nãããão! É um troço medonho. Acaba com as nossas energias. E com nossas economias. Faz a vida da gente virar do avesso. Mas é aí que tá: o avesso pode se revelar surpreendentemente interessante.

Ninguém entra numa relação porque não tem nada melhor pra fazer (ou não deveria entrar). O investimento é alto, em todos os sentidos, e o prejuízo é bem maior do que o de alguém que aposta uma grana alta no cavalo errado. E é por isso que muitos relacionamentos duram bem mais do que deveriam e vão se estendendo até que se encontre um jeito de amenizar os traumas e os desgastes que virão com o rompimento.

Talvez você não esteja preparado para ler isso, então, me perdoe de antemão se eu estiver matando o seu Papai Noel. A golpes de facada. Na sua frente. Mas sabe aqueles casais de velhinhos que você vê juntos e acha muito fofinhos? Então… ELES NÃO ESTÃO FELIZES (afinal, quem é que tá? Já é tempo de parar de superestimar a felicidade, inclusive a conjugal).

Eles podem ter envelhecido juntos por escolha, porque se amam? Podem, claro. Mas pode ser também que eles simplesmente não tenham encontrado um jeito de separar suas vidas e pela força das circunstâncias tenham continuado juntos. Podem ter se acomodado apesar do amor ter acabado. Um dos dois pode ter continuado porque teve medo de partir, ou porque sentiu culpa, compaixão. Ou porque era conveniente. Talvez eles tenham esperado os filhos crescerem, mas aí as crianças viraram adultos, os anos se passaram e eles perderam o timing. As possibilidades são infinitas. Não se iluda achando que uniões duradouras são sinônimos de uniões bem sucedidas.

Separações também não significam que a relação tenha sido um fracasso. Deu certo até parar de dar.

Esse ano teve Jolie deixando Brad, Fátima ficando sem Bonner. Teve Du Moscovis voltando pra pista. Teve Fernanda Gentil(mente) explicando pra gente que se separou do marido porque eles não estavam felizes e mereciam buscar a felicidade em outros lugares. E teve muita, muita gente dizendo que desistiu de acreditar no amor depois de ver que até “casais perfeitos” como esses se separam.

Primeiro engano: não existe casal perfeito, nem casamento. Segundo: separações não deveriam nos levar a perder, mas a recuperar a fé no amor. Casais famosos e anônimos se separam todos os dias justamente porque se atrevem a acreditar que podem voltar a amar e serem amados.

Pessoas permanecem juntas porque apostam no amor tanto quanto pessoas se separam porque não desistem dele. No fundo, tá todo mundo tentando ser feliz, de um jeito ou de outro.

As coisas acabam. E recomeçam. E tá tudo certo. O que não tá certo é se prender àquilo que já se soltou.

E o mundo continua girando.

Roberta Simoni

Soninha de Mentirinha

Ali Michael por Sofia Sanchez e Mauro Mongiello

À Gabs, por estimular continuamente minha inspiração.

Soninha chegou em casa sem a alma e sem os sapatos. Não sabia ao certo onde tinha deixado sua alma, mas os sapatos, pelo menos, ela trazia nas mãos, em segurança. Bebeu, mas não estava bêbada. Apesar de ter se esforçado a noite inteira para não ficar sóbria, a adrenalina causada pela briga atrapalhou seus planos de diversão. Se negou a entrar no carro de Ricardo na hora de ir embora, apesar da insistência dele por saber que àquela altura da madrugada ela não conseguiria pegar nenhum táxi de volta para casa, mas Soninha é uma amostra dessas mulheres que começaram a pipocar aos montes entre meados da década de setenta e oitenta. Essas que hoje estão entre os vinte e tanto e trinta e poucos anos, independentes, modernas, loucas por sexo, que não perdem tempo com picuinhas e ciúmes bobos e são auto-suficientes, isto é, até a primeira crise de carência aguda.

“Volto a pé, mas não volto com ele, nem que seja descalça porque essa desgraça de sapato me dá um calo terrível, mas é lindo e eu ainda tô pagando…”

Soninha é do tipo de mulher que à primeira vista chama a atenção pela beleza, e à segunda vista chama mais ainda pelo jeito cativante, extrovertido e com um intelecto pra ninguém colocar defeito, apesar dos cabelos loiros aparentemente denunciarem outra coisa. Cabelos naturalmente loiros, longos e lisos, diga-se de passagem. O sonho de toda patricinha que gasta rios de dinheiro com a mesma tintura que a Ana Hickman usa, chapinha de última geração e escova de tudo quanto é nacionalidade. Ela joga o cabelo de um lado pro outro, amarra, solta, faz coques sem o menor esforço nem intenção de fazer charme, o que torna cada movimento despretencioso ainda mais sensual e também insultante para as demais mulheres. Seu corpo não é sarado porque, como ela mesma anuncia aos quatro ventos, prefere gastar seu tempo e dinheiro exercitando seu cérebro a seu bumbum, mas, ainda assim, ele está visivelmente em cima. Não é do tipo de parar o trânsito, mas já fez um sujeito cair da bicicleta ao se perder no decote que deixava parte dos seus seios à mostra, seios que, por sinal, não são de silicone.

A mãe queria que ela fosse médica, o pai, advogada, mas ela saiu de casa com outra ideia na cabeça. Queria ser publicitária, e foi. Mudou de cidade, arrumou trabalho e pagou a faculdade sozinha, depois o aluguel do apartamento, a prestação do carro, e se acha no direito de dividir a conta do restaurante com o namorado quando necessário. Não era o caso de Ricardo. Eles estavam juntos há dois anos e ele nunca deixara ela pôr a mão na carteira, o que ela aceitava de bom grado porque sabia que não era nenhum sacrifício pra ele.

Se conheceram quando Ricardo, que ocupa um cargo de importância numa concessionária, contratou a agência onde Soninha trabalha para fazer a próxima campanha publicitária da empresa. Era ela quem estava à frente do projeto, a ideia tinha sido dela e o processo de criação do produto também. Ricardo não conseguia se decidir se ela era linda, competente, criativa ou gostosa. Na verdade, ela era tudo isso e mais um pouco, coisa que ele foi descobrindo a cada novo encontro profissional e, mais tarde, íntimo. Desnecessário falar que ele se apaixonou perdidamente.

Na verdade, é fácil se apaixonar por Soninha, Ricardo não era o primeiro e nem seria o último. Ela tem qualquer coisa genuína de menina, qualquer coisa avassaladora de mulher e essa mistura dá samba, inclusive na cama.

Ela acreditou mesmo que com Ricardo ia ser diferente. Bem na verdade ela assustava os caras e não era pra menos, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, indomável quando contrariada, destemida e determinada. Teimosa feito uma mula e toda trabalhada no discurso de que não precisa de homem para ser feliz, como se a gente acreditasse. Mas Ricardo gostava do jeito arredio da moça, soava como um constante desafio pra ele, que tinha um jeitinho todo especial de amolecer o coração dela. Quando Soninha se dava conta, estava fazendo tudo o que o Ricardo queria, e com o maior gosto do mundo.

Mas aí, veio a primeira briga boba, a segunda e depois a terceira. Ricardo descobriu que a Soninha perfeita era de mentirinha, a Soninha real sofria de TPM, acordava mortalmente mal-humorada e era tão densa e frágil às vezes. Soninha ficava altamente quebrável quando se sentia carente, coisa que a princípio Ricardo tirava de letra, mas depois de constatar que sua namorada não era tão diferente assim das outras mulheres, foi deixando sua paciência se esvair aos poucos. Até que o episódio do bar, onde discutiram por nada, ou por tudo, tornou tudo muito óbvio: Ricardo até gostava de Soninha, mas nunca esteve apaixonado por ela, mas pela ideia que tinha dela.

Na verdade, é muito mais fácil se apaixonar por uma ideia do que por uma pessoa. E, no mundo de Ricardo, só existia a Soninha segura, feliz, a publicitária que ele tanto admirava. Não estava preparado para lidar com a Soninha insegura, passando por uma crise na carreira e frágil daquele jeito. Não sabia como agir com a namorada e, sem perceber, começou a negligenciar o relacionamento.

Soninha sentiu vontade de chorar, mas não conseguiu, ou queria ter vontade de chorar, mas nem isso teve. Não estava muito longe de casa quando se deu conta de que estava repetindo padrões, namorando caras que, involuntariamente se apaixonavam por um ideal de mulher no qual ela parecia se encaixar perfeitamente, até demonstrar as primeiras falhas ou ficar inoperante em determinados dias. E isso fazia com eles perdessem total ou parcialmente o interesse por ela, coisa que, quando ela detectava, era fatal.

Quando estava entrando em casa, Ricardo ligou preocupado, ela disse que estava bem e que só precisava de um tempo para pensar na vida. Sabia que se separariam, senão amanhã, dali a algum tempo, mas terminou com ele no dia seguinte. Já estava acostumada a ver seus relacionamentos acabando assim, podia até começar diferente, mas sempre terminava do mesmo jeito, achou que não fosse chorar, porque já estava acostumada a sentir aquela dor, mas chorou – e de soluçar. Lá estava sua alma de volta, enfim.

Se olhou no espelho com aquelas olheiras enormes, os olhos vermelhos, a cara inchada, o cabelo embaraçado e desejou que alguém pudesse vê-la naquele instante e se apaixonar por ela bem daquele jeito.

Roberta Simoni