O triste fim de Margot Simoni

Era uma daquelas noites de tanto frio que, ao sair à rua, dava para enxergar a própria respiração numa fumaça se dissolvendo no ar gelado. Eu evitava sair de casa a todo custo, até que numa noite dessas de inverno a solidão quase me engoliu e me lançou nas ruas frias de São Paulo. Cansada de vê-la à espreita em todos os cantos do apartamento, à espera do momento certo para me dar o bote, arrisquei uma caminhada pelo bairro.

Naquela noite eu andei tanto que fui parar longe demais de mim. Sentei no banco duma praça, próxima à Marginal Pinheiros. O cheiro não era bom, o visual não era nada poético e para todos os lados que eu olhava, só via prédios e escuridão. Paredes Gigantes. Concreto. Verdadeiras muralhas que protegem – e afastam – as pessoas.

Junto com as minhas mãos, pés e nariz, o meu coração também começou a congelar. Dentro ou fora de casa o frio era o mesmo e a solidão me seguiria de qualquer forma até aquele lugar sofrível. E lá estava eu, me sentindo do jeito que ela queria: sozinha.

Já era tarde e eu resolvi fazer o caminho de volta pra casa. Escondi as mãos nas mangas do casaco e levei o coração apertado dentro do bolso que, às vezes, de tão apertadinho, suava. Ou chorava. Não sei bem o que era, porque o frio me deixou meio dormente.

De repente, um miado. Fininho. Choramingoso. Loooongo. Láááá longe. Depois perto, muito perto.  E o susto. Uma gatinha vira-latas se enroscando nas minhas pernas, esfregando a cabeça nos meus pés, me olhando com a cara lânguida. Cinco minutos depois, uma gata dentro do meu bolso, apertada junto ao meu coração.

(Até hoje não descobri quem foi a vítima de quem naquela noite. Se fui eu quem a salvei ou se foi ela quem me adotou.)

Casa comida e roupa lavada. Caminha quentinha. Pratinho de areia. Cortinas novinhas para escalar e companhia nas madrugadas à dentro. Juntas, podíamos ser felizes para sempre, se fôssemos só eu e ela. Mas a outra sempre aparecia para estragar tudo. No final, éramos três companheiras entediadas: Margot, eu e a solidão.

Margot e eu cansamos do frio – e da frieza – de São Paulo, planejamos uma fuga, e concordamos em não contar nada para a solidão. Foi trairagem, eu sei, mas eu sei também que a solidão tem um monte de amigos por aí, vejo-a sempre, acompanhada de tudo quanto é tipo de gente. “Ela vai superar” – pensamos. E assim partimos para o Rio de Janeiro. Nessa parte do caminho nós nos separamos. Eu fui para um lado da cidade, Margot para outro.

Voltei a ser nômade, mas definitivamente não queria que a Margot voltasse a viver nas ruas. Encontrei um pai pra ela. O pai castrou (coisa de pai ciumento, rs!), cuidou, amou e deu à ela a liberdade que ela queria ter novamente. Eu voltei a perambular pelo mundo e ela voltou a escalar telhados, andar livremente pelo bairro, varar a madrugada e dormir só quando a noite cedia espaço para o dia. Mesmo à distância, nosso apetite pela madrugada continuava idêntico. Tudo ia bem. Margot parecia contente da vida, e eu ficava satisfeita todas as vezes que recebia notícias dela.

Mas tinha outra coisa que Margot e eu tínhamos em comum: nós amávamos a liberdade, apesar de, muitas vezes, eu ainda não saber direito o que fazer com a minha, eu pensava que Margot sabia… no entanto, aquela felina não havia se livrado dos vícios que criou enquanto vivia na rua. Nem eu me livrei de muitos dos meus. Por exemplo: enquanto eu tinha a liberdade de comer a hora que eu bem entendesse e me esquecia de comer e, quando lembrava, comia mal, Margot esquecia que tinha comida em casa e não precisava mais fuçar o lixo. Culpa dos vícios, dos velhos vícios…

Um dia Margot foi encontrada morta. O pai dela me falou ao telefone: “Acho que ela comeu veneno pra rato!”. Chorei um bocado. E, inconformada, pensei alto: “Poxa Margoleta, por que você tinha que pegar comida no lixo se tinha comida em casa?”.  Depois lembrei que gatos não pensam como nós pensamos. Foi aí que percebi uma coisa interessante: eles não pensam como nós, mas nós agimos como eles, com a diferença deles terem o perdão da limitação de raciocínio, e nós?

Nós temos alergia a camarão e comemos mesmo assim, não temos resistência ao álcool e bebemos até ficar “daqueeele jeito”, sabemos que o cigarro estraga o pulmão, mas não paramos de fumar. Que droga vicia, que chocolate engorda, que sorvete tem gordura hidrogenada, que fritura faz mal pro estômago…

Nós nos apaixonamos pela pessoa errada. Nos envolvemos com sujeitos visivelmente problemáticos. Cometemos o mesmo erro mais de uma vez. Comemos, bebemos, amamos e sofremos além da conta e depois passamos mal pelo excesso.

Margot não sabia que estava comendo veneno. Nós sabemos e mesmo assim comemos. Eu já comi comida estragada sem saber. E já comi sabendo.

Viver também é aceitar correr o risco de comer comidas exóticas, vencidas ou estragadas de vez em quando… é provar, depois decidir se vai querer ou não repetir, identificar se vai ou não gostar, se vai ser bom pra você ou não. Se vale a pena variar o cardápio, ou se é mais seguro se alimentar só daquilo que já está acostumado a comer, ainda que você não goste tanto ou tenha enjoado do paladar.

Se for fatal, paciência. Pelo menos você vai morrer com a sensação de ter saciado sua vontade, como certamente Margot morreu: livre e de estômago cheio.

Ela que não teve sete vidas, mas viveu intensamente a única que teve.

Roberta Simoni

… porque quando eu comecei a escrever esse texto, só consegui pensar nessa música e enquanto eu escrevia, era ela que eu escutava repetidas vezes.

Para quem não leu as páginas passadas da minha história com a Margot, aqui eu conto tudo, e aqui também.

E sim, o título deste post foi inspirado no romance de Lima Barreto: “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. 😀

Todo enfermo fica carente

Você não mora com seus pais, nem com parentes, amigos ou filhos, também não mora com seu(a) namorado(a). Não gosta de dar satisfações da sua vida, adora não ter hora pra voltar. Sente uma alegria enorme em encontrar suas coisas do jeito que as deixou antes de sair, ainda que a sua casa esteja uma zona.

Às vezes sente falta de chegar em casa e ter alguém que pergunte como foi o seu dia, sente uma pontada de inveja quando vem aquele cheirinho de comida caseira da casa ao lado, mas rapidamente supera aquele aroma quando pensa que não precisa fazer comida se não quiser, que não tem obrigação de limpar a casa hoje, nem amanhã, nem depois. E que a louça suja pode esperar a manhã seguinte…

Você bebe água da geladeira no gargalo e chega a sentir um prazer secreto ao pensar em como sua mãe reclamaria se presenciasse essa cena. Você escuta música, liga a televisão e mexe no computador, tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém reclame. Começa a desenvolver o hábito estranho de falar sozinho, com as paredes ou com as suas coisas e acha graça da sua sandice, até que…

… Você fica doente !!!

E agora? Não tem ninguém para ir até a farmácia comprar um remédio para você, ninguém para tirar a sua temperatura, nem para fazer um suco de laranja e te obrigar a tomar, alegando que você precisa de Vitamina C.

Você gostaria de ter coragem de bater à porta da casa vizinha e perguntar se pode se sentar à mesa com eles. Odeia com todas as forças o cheiro de feijão fresquinho que vem de lá. Chega a fantasiar sua mãe na sua cozinha preparando a sua comidinha favorita e te dizendo que você não pode ficar sem comer, filhinho(a)!

Deseja veementemente encontrar aquela cartelinha de novalgina que está perdida no meio da bagunça que é a sua vida. Se sente a criatura mais carente do mundo. Não sabe se espirra ou se chora, acaba fazendo os dois, e fica com o nariz completamente entupido.

Começa a entender, finalmente, que está só. Você mora sozinho, queridinho(a)! Não tem ninguém para se comover com a sua fraqueza, para se preocupar com as suas tosses excessivas, para te mandar procurar um médico ou para te carregar à força para o hospital.

Calma! Você só está gripado(a)… mas, eu sei, você tem a impressão de que vai cair em depressão profunda a qualquer momento. Mas aí, você reage. Se arrasta até o banheiro como um “sobrevivente gripal” e toma banho encostado na parede do box, porque não têm forças para ficar de pé. Se sente melhor, mas não ao ponto de conseguir pentear os cabelos.

E falando em cabelos, você se olha no espelho e vê que os seus estão todos embaraçados e que você está com uma aparência horrível de… doente. Mas tudo o que você queria agora nem era estar bonito(a), tampouco te preocupam suas olheiras, pois só o que você precisa é de alguém que esteja pouco se importando com a sua aparência, desde que não se importe em lhe fazer um cafuné.

Sim, isso é um apelo !!! 🙂

Manhêêêêê… eu sei que você lê o meu blog !!!

Roberta Simoni